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A Ordem da Luz

"Nós éramos gelados e éramos claros

Nós éramos leves e finos como papel

Até que nós deixamos o espectro entrar"

-Spectrum - Florence + The Machine






Inicialmente somos sempre enviados em trios. Através dos subterrâneos da Torre da Luz temos acesso ao Planar Terriare e vamos diretamente para o Templo da Ordem em Vii, a maior cidade de todos os planos. Em IN LUX somos formados, mas é ali onde o trabalho para se tornar um sacerdote da Ordem realmente começa. Nós três fomos selecionados para iniciar essa missão juntos por afinidade de espírito, conectados mentalmente pelos sacerdotes responsáveis assim que chegamos e testados, por ciclos que pareciam intermináveis, em todos os aspectos de nossas almas.


   Ficamos separados durantes as provas. É um processo realmente muito íntimo e nem mesmo a própria Ordem entende completamente sobre os mistérios da alma. O que não a impede de desenvolver inúmeras pesquisas. Recebemos vestes brancas e somos submersos em água salgada. Emergimos juntos em uma única cela separada em três partes por uma barreira espiritual transparente e intransponível.


   A primeira vista pensei ter perdido a habilidade de ver as cores. A cela de Cinerae estava completamente cinza através do véu e a de Caliptus estava preta. Quando tentaram falar comigo, escutei suas vozes ecoarem em minha mente.


  "Acredito que nossa alma está pronta para a missão querida irmã" – A doçura da voz de Cinerae era inconfundível. Uma alma fluida que caminhava entre o masculino e feminino sem o mínimo esforço. "E como previ você é azul Caeru."


   Olhei em volta e vi que era verdade. Tudo ao meu redor era do mais profundo tom de azul.

   "Isso quer dizer que não vou mais escutar a voz de Cinerae." Não existia uma pergunta em seu leve tom pois de nós três Caliptus sempre foi o mais calado, porém o mais perceptivo e como sempre direto ao ponto.


   Com sua habilidade espiritual de cinética e usando a água que ainda pingava de sua veste Cinerae formou as palavras “A VOZ NÃO É A ÚNICA VIA DE COMUNICAÇÃO”. E chegando perto da barreira que nos separava colocamos nossas mãos o mais próximo uma das outras.


   – Aqui estamos Sra. Sacerdotisa. – Voltei ao presente com a voz do condutor da charrete.

   – Não há necessidade que me espere. Está dispensado por hoje. – Não esperaria sair desse bazar tão cedo.


   A Lei dos 7 organizava eventos em toda troca de lua para arrecadar fundos para suas inúmeras obras de vigilância através dos planos. Pelo acordo nós da Ordem que moramos em Vii recebíamos os convites para cada evento, mas era de conhecimento geral que a alta sociedade da cidade não esperava que comparecêssemos. Muitos de nós pertencentes a Ordem nos acostumamos ao luxo de nossas posições como sacerdotes e sacerdotisas e com o passar do tempo nossa reputação ficou manchada por dois adjetivos: orgulhosos e soberbos. Mas para toda regra existe uma exceção. Gostava de acreditar que eu era uma dessas.

Os sinos do templo tocaram avisando que eu já estava atrasada. No vitral da fachada pude perceber uma silhueta e imaginei ser Cinerae me vigiando. “E está certa! Não se esqueça que o primeiro garçom te entregará o lenço e precisará dele para acessar os aposentos superiores onde a família vive”. Escutei a mensagem dela em minha mente enquanto subia escadaria para o palácio. A elevação fazia com que a vista para o parque em frente ficasse acima das árvores.


Cinerae cuidou para que os fiéis do templo que iriam trabalhar no evento me ajudassem de alguma maneira. Eu não sabia exatamente quais ou quantos eram mas para que meu plano funcionasse eu precisaria da ajuda deles. “Não se preocupe, estarão de olho em você o tempo todo. Conseguiu localizar Caliptus?”


- Ainda não. Estou preocupada que sua previsão esteja certa e ele interfira em nossos planos essa noite. – Falei em voz alta para evitar que fosse captada por ele. – Não podemos nos dar ao luxo de perder essa chance minha irmã. Teremos somente essa oportunidade para recuperar o antigo mapa.


Cheguei na entrada do palácio e após atravessar a barreira dupla de proteção mental e espiritual fui anunciada antes de entrar. A barreira servia de proteção para os Vyan, uma das famílias mais antigas da cidade, alguns dizem que de todo o plano de Terriare, a descendência deles remonta à Era da Luz e são extremamente poderosos. Vieram me receber na entrada e depois de algumas palavras cordiais e boas-vindas o Sr. e Sra. Vyan e seus dois filhos pediram licença e foram entreter outros convidados.


   O salão estava limpo e muito bem decorado, um contraste gritante em comparação com a bagunça e desordem na realidade de Terriare. Ninguém ali parecia suspeitar o quão importante era essa noite. Todos imersos em seu próprio mundo de refinamento e poder. O garçom me entregou uma taça de água e não o reconheci imediatamente, mas assim que nossos dedos se tocaram pude sentir sua energia e soube que era Caliptus.


- O que está fazendo aqui?! - O choque exposto em meu rosto fez o momento parecer mais dramático do que deveria ser.


"Venha comigo Caeru!"


O tom urgente de sua voz mental me preocupou. Era mais estranho ainda por que havia muito tempo que não a escutava. Caliptus tinha desaparecido já fazia quase quatro ciclos em busca de um segredo que envolvia nossa missão em Terriare. Era parte de sua natureza como sacerdote descavar segredos escondidos e ele nunca decepcionava. "Venha minha irmã, por favor! Não temos muio tempo". E de repente estávamos correndo. A academia de balet de Vii começou sua apresentação e o grande salão trocou sua decoração para uma floresta cercada de espelhos, as claraboias se abriram e fomos transportados para um acampamento celestial.


- É a floresta do convento em IN LUX! O quê...?! - Jamais imaginaria que um dia veria nesse plano algo minimamente parececido com o esplendor de IN LUX.

Todos estavam encantados e poucos perceberam meu irmão me puxando pela mão e nós dois subindo a grande escadaria em direção aos andares superiores, mas é claro que alguns notaram. "Bloqueie o olho da mente deles." Eles eram os guardas da família Vyan e bloqueá-los foi mais difícil que imaginei por que seus dons mentais eram brilhantes, mas no fim eu venci e a percepção deles sobre nossa ascensão foi transformada em reflexos dos grandes espelhos que agora cobriam o salão.


"Cuidado Caeru! Saiba as intenções de Caliptus para essa noite. Eu quase não consigo sentir a presença de seu espírito."


- Caliptus pare! Por favor irmão me explique o que está acontecendo!


"Sei que Cinerae deve estar nesse momento te alertando sobre mim e sei o que vocês tem planejado pra esta noite mas não funcionará. O mapa que fomos ornedados a obter em nossa missão aqui em Terrriare não é o que imaginam. A família Vyan é descendente direta da alma de Sorôra e ela é a anciã irmã do fundador da Ordem da Luz. O mapa na verdade é uma memória infundida na alma de cada membro da família e para resgatarmos isso teremos de arrancar esse pedaço da alma deles. Está disposta a fazer isso Caeru?"


Sem realmente pensar em uma resposta eu imediatamente sabia o que deveria ser feito. Era como se tudo o que eu tinha aprendido em Terriare fizesse sentido completamente. Sabia como bloquear uma memória específica e sabia como separá-la do espírito e depois disso sabia seguir o fio de conhecimento até a alma e então extrair sem precisar ferir a existência do ser em questão. Mas esse aprendizado passado pela Ordem para mim era específico demais para ser coincidência.


- Iremos para o telhado e na beira das claraboias terei a visão que eu preciso. - O rosto de Caliptus era uma máscara sem expressão e sem soltar minha mão me levou até onde eu precisava estar.

"Minha amada irmã pare! Não sabe o que está fazendo! O esforço para arrancar o conhecimento da alma dos quatro membros da familia Vyan vai despedaçar o seu espírito. Você não vai sobreviver ao processo!"


De onde eu estava no telhado do palácio conseguia ver através dos vidros das claraboias todos os membros da família Vyan. A lua em Vii estava cheia e eu tinha toda a energia que precisava. Em um só movimento consegui extrair dos quatro o conhecimento do mapa. O processo fez com que um facho de luz direcionado ao céu fosse criado. Todos acharam que era parte da apresentação de balet que ainda estava acontecendo e que os membros da família como anfitriões eram participantes.


O mapa se tornou uma linda elipse de luz orbitando em volta de si mesma e o conhecimento que ela detinha espandiu meu espírito em tantas partes que os espelhos do salão imitaram minha natureza se quebrando em centenas de reflexos. Em um momento final de consciência transferi mentalmente a elipse de luz para Cinerae e minha última memória foi a face meu irmão Calipso e por detrás de sua sombra consegui ver algo que havia apenas lido em lendas.


O ser olhava para mim com um leve sorriso em seus lábios mas seus olhos estavam envolto em uma sombra. Tinha a mão posta nos ombros de Caliptus e sua voz ecoou em minha mente como um sino. ''Estarei contigo em um instante. Que a realidade lhe abandone nesse momento.'' Era ele! Era o ser inominável responsável pela guerra contra a escuridão que engolia Terriare.


Minha última lembrança antes da escuridão me engolir foi de Cinerae enviando o mapa para o convento em IN LUX. O conhecimento estava seguro lá.



 

Já parou para se perguntar de onde vem o conhecimento humano? Será que realmente nasceu em nossas mentes? Há algo misterioso em tudo isso e a Ordem da Luz está no centro dessa história. Não se esqueça de ler o Conto 1 ''O Mapa'' para saber como tudo isso vai influenciar os planos. Vou deixar três vias de acesso nos botõesaqui embaixo. Na esperança que se divirta em cada território de "Os Planos".








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