Se Ele Voltar
- Edu Mussi

- há 6 horas
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Quando era criança, um dos primeiros ensinamentos que recebi sobre a religião católica, pautava sobre Deus e seu filho, Jesus Cristo. Contavam-me sobre o nascimento de Jesus, como viveu, sobre seus pais e como morreu.
Naquela época eu não tinha nenhum discernimento para questionar e pedir detalhes sobre essas histórias. E dessa forma as imagens formaram-se no meu imaginário a figura de uma pessoa que não era igual a nenhum de nós, ou seja, não era um ser humano igual a outro qualquer, mas alguém que viveu aqui na Terra, há mais de dois mil anos, por pouco tempo e deu sua vida para nos salvar.
Quando eu ouvia que ele morreu para me salvar, logo me sentia culpado pela sua morte. A culpa exacerbava ainda mais quando me ostentavam a imagem de um homem, quase nu, pregado numa cruz, com um monte de espinhos espetados na cabeça e sangrando por diversas partes do corpo. Aquilo me deixava terrivelmente deprimido (e eu ainda nem sabia o que era deprimido).
À medida em que fui crescendo e criando coragem para questionar sobre este assunto tão misterioso, fiz a primeira pergunta: Veio me salvar de que? A resposta recebida foi: Do fogo do inferno, por causa dos seus pecados.
Aí o medo se tornou aterrorizante, porque tudo que eu fazia, pensava em Jesus e me questionava: Será que se eu fizer isso, vou pro inferno? Será que é pecado? Para complicar ainda mais, eu nem sabia o que era pecado.
Quando me fizeram decorar os 10 mandamentos, deu um nó sem precedente, na minha cabeça. Muitos eram fáceis de entender – não matar, não roubar, etc... mas não desejar a mulher do próximo, complicou, porque eu nem sabia o que era desejo. Amar o próximo como a ti mesmo e amar a Deus sobre todas as coisas, me deixavam baratinado, porque não sabia o que era amor e nem sabia quem era Deus. Amar ao próximo – tudo bem eu gosto das pessoas, não tenho raiva de ninguém. – será que é isso, me perguntava. E amar a Deus – como iria amar a Deus se não o conhecia e nem sabia onde encontra-lo. Isso tudo era muito complicado para uma criança.
Na minha primeira comunhão, disseram que eu tinha que me confessar com o padre antes de receber a hóstia. A professora disse-me para escrever uma lista num papel dos meus pecados para não esquecer de nenhum na hora da confissão. Dá para imaginar a situação de uma criança de dez anos, naquela hora? Para não ir sem a lista, escrevi: Joguei uma pedra no urubu; atirei com meu estilingue num bem-te-vi; joguei um pedaço de pau num gato; roubei uma goiaba da goiabeira do vizinho. Por causa desses “pecados” o padre me mandou rezar 10 pai nosso e 10 ave maria.
E o tempo seguiu sem nos dar satisfação, já estamos em 2026 e até hoje ouço mais ou menos a mesma história. Será que em pleno século XXI, seria pecado contarmos a história baseada nos fatos? Será que Jesus ficaria contrariado se contássemos que ele não morreu de uma gripezinha, de febre, acamado, com diarreia ou outra doença qualquer? Será que Jesus ficaria zangado se disséssemos como ele viveu, com quem ele andou e o que realmente fez?
Antes de continuar, peço desculpas se estiver contrariando as crenças do leitor ou leitora, porque não estou fazendo crítica a alguma religião. O objetivo deste texto é apenas externar minha interpretação sobre uma história, cujos fatos estão registrados nas escrituras sagradas e sobre a qual compartilho minha interpretação.
Sabemos que Jesus foi uma pessoa pobre. Pobre igual a esses que a gente encontra todos os dias pelas ruas. O pai era um carpinteiro, pobre, e a mãe, senhora do lar (naquele tempo as mulheres não trabalhavam fora), também pobre. Jesus passou suas fases de infância, adolescência e adulta, sempre entre os pobres. Era como muitos que nascem, crescem e morrem numa favela dos tempos atuais.
O que distinguia Jesus de outras pessoas, era sua inteligência e sabedoria, porque ele foi um ser humano detentor de um espírito elevadíssimo. Por conta dessa virtude, ele dedicou sua vida a transferir seus conhecimentos para um maior número de pessoas. E a maioria dos seus ensinamentos não era apenas com palavras, mas com atos, com exemplos. Ele dizia como deveria ser feito e fazia para mostrar.
Jesus enfatizava a importância da gratidão, da solidariedade, do respeito, do perdão e do amor. Ressaltava a necessidade do compartilhamento do conhecimento e bens; chamava a atenção dos malefícios da desigualdade social; da falta de justiça; da desigualdade nas oportunidades.
Jesus não foi racista, homofóbico e foi totalmente contra a violência.
Portanto, Jesus veio para nos salvar, não do inferno, mas da ignorância, nos passando todos esses ensinamentos. Lições essas que o mundo ignorou e corrompeu, ao ponto de já terem se passados mais de dois mil anos e a humanidade continua se destruindo porque fazem tudo ao contrário do que ele disse e continuam repetindo a mesma história deturpada sobre sua vida, na tentativa de nos intimidar, nos tornando culpados pela sua morte.
Ao longo de pouco mais de três décadas, Jesus incomodou muito as elites daquela época (qualquer semelhança com a atual, é mera coincidência).
Diante disso, trataram de lhe arranjar um crime para o tirar de circulação. Mas não bastava apenas prendê-lo, tinham que humilha-lo e depois sumir com ele. E assim o fizeram.
Jesus, foi preso sem nenhuma comprovação de crime (interessante a semelhança com os dias atuais). Julgado e condenado a morte. Mas antes de ser executado, foi terrivelmente torturado (outra coincidência) e executado de uma forma terrível.
Se Jesus voltasse aos dias atuais para expor seus pensamentos, discursar e agir do mesmo jeito que fez quando esteve aqui, com certeza já estaria preso e incomunicável pelo resto da vida, ou talvez até morto.
Edu Mussi




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