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Tic Tac Tic Tac Tic Taaacccccc


Pessoas correndo um bastão à frente de um relógio que não para.
Correndo contra um tempo que corre de mim (Imagem IA/ DALL-E-3)

Ontem fui ao médico. Não estou doente, mas a idade pede acompanhamento. Não que eu queira saber quando vou adoecer ou morrer, ou acredite naquela máxima “quem procura acha”. Aliás, pensando bem, acho que prefiro acreditar nisso…


Acontece que, literalmente, arrumei sarna para me coçar. Fui a um restaurante num local aberto, bonito, onde acho que minha pele serviu de comida — algum inseto que não tive o prazer de conhecer. Uns 3 dias depois, meus braços e meus corpos estavam pontilhados de caroços, coçando. Aproveitei o fato para juntar as “dores da idade” e visitar o médico. Coisas da idade e de quem cuidou de outros e não gosta de cuidar de si. Geralmente, mães de ninhos vazios.


Chegar à terceira idade — como os 60+ eram chamados — parece o final de uma corrida contra o tempo. Mas, só parece. Esse tempo que vivemos correndo atrás parece ficar mais rápido justo quando deveríamos ter tempo de sobra para não ter que correr atrás de nada. Nessa história de inversão de polos magnéticos da terra, tempestades solares e disparidades gráficas da ressonância Schumann, sou testemunha de que meu tempo não dá para nada, e tento torná-lo produtivo na medida do possível. Até quando preciso me dar um tempo para ver se estou bem.


Depois do médico – num Centro Médico, em um shopping da cidade — aproveitei para agendar os exames listados pelo atencioso profissional, ante uma fila de dores da paciente “idosa” que não gosta de perder tempo consigo lhe trouxe. Para agilizar, queria agendar todos os exames de imagem com o mesmo laboratório, num mesmo dia. Não consegui. Após uma espera (im) paciente, num dos locais, fui informada de que teria de agendar pelo WhatsApp, apenas.


Num outro local, tentei agendar os exames “mais importantes” — os que cuidam de um coração que passou por tantos perrengues, que não sabe como ainda bate. À mesma tentativa de “juntar exames para agilizar”, consegui um fracionamento e explicações pouco convincentes, embutidas numa certeza (minha) de que os médicos se dividem em vários lugares, e os pacientes precisam organizar os tempos para torná-los produtivos na agenda do médico.


Se der tempo, conseguirei fazer todos os exames e levar os resultados à próxima consulta, já agendada na tentativa de ganhar tempo.

No WhatsApp, o assistente virtual faz um monte de perguntas  — a serem respondidas com números, divididas em temas que não batem com os exames pedidos. No meu caso, tenho vários exames de imagens que praticamente dividem meu corpo em secções. E quero vestir a “bata” de uma única vez, ficar vendo no celular qual o próximo item da lista a resolver.


A espera no WhatsApp é longa: serei a nona da vez. Isso sem falar na tentativa anterior de agendamento pelo telefone normal – o que não estamos mais a usar para explicar o que queremos. Fiquei ouvindo uma voz dizer que seria logo atendida. Concluí que meu tempo não era compatível com esse “logo” de minutos intermináveis. E optei pela espera na fila muda, que teria que acompanhar visualmente —para não perder a vez.


Quem deveria estar em atendimento preferencial não tem vez numa fila onde não há essa opção — num aplicativo de mensagens, num boot criado para agilizar um atendimento que diz ser mais ágil para o paciente. Como se eu tivesse todo o tempo do mundo, nessa terceira etapa que se diz última – já que ninguém fala em quarta idade.


Enquanto espero pacientemente minha vez, penso no tempo. Na corrida que ainda vivo, contra quem deveria ser mais paciente com quem correu uma eternidade para chegar a um tempo quiçá mais complacente. Mas não é. Nesse tempo que deveria ser para só ser, não há mais tempo para muitas coisas. O corpo não é mais o mesmo, muito menos a memória — muitas vezes paralisada no que deveria ser esquecido.


Leio um livro que fala em arrependimentos, dizendo: para cada escolha que deixamos de fazer, infinitas possibilidades poderiam ter sido melhor escolhidas. Penso que, se o livre-arbítrio fosse mais companheiro, poderia dar umas dicas antes de escolhermos o caminho mais complicado. Custaria menos tempo a perder, para chegar à idade da sabedoria mais rápido, e aproveitar o tempo com coisas mais amenas. Talvez.


A fila permanece inalterada, e ninguém diz nada, no meu celular. Continuo na fila, aguardando ser atendida por alguma alma caridosa que entenda o valor do meu tempo — contra quem, literalmente, corro contra, agora. O Whats disse: por favor aguarde, estamos localizando um profissional disponível. Trinta minutos de espera, e a fila não anda. Nem fala.


Lembro do tempo em que era (mais) jovem, e que a impaciência me jogou para as escolhas que — hoje — poderiam ter sido diferentes. Paciência, me digo. Erros nos ensinam — sempre escuto isso. E é o que digo para os mais jovens que ainda me escutam — ou fingem escutar, absortos em seus celulares.


Alguém me responde, diz que só tem agenda para daqui a um mês. Se eu tiver pressa, terei que procurar outro lugar. Sim, terei todo o tempo do mundo para correr atrás disso, esperando ligações, ouvindo musiquinhas e aguardando a vez de perder minha paciência em casa, numa conversa muda com quem não olha nos meus olhos, nem imagina quem sou. E vice-versa.


Preferi dizer “não posso esperar”. Achei outro laboratório, que me atendeu ao telefone, e consegui agendar os exames para um único dia. Uma semana antes da consulta. Paciência. Quem sabe dará tempo para ter tudo às mãos, e estar curada de algo que descobrirei daqui a (quase) um mês?


Pelo menos resolvi a coceira e os carocinhos. Esperarei os exames coçando o saco que não tenho, nesta vida. Literalmente.



 

Goretti Giaquinto

Desafios # 155 a # 157 de 365

Tema: Correndo atrás do relógio

Regras do Desafio:

1 - Escreva uma crônica de até 1500 caracteres sobre "Correr Atrás do Relógio" e a velocidade dos dias.

2 - Utilize acontecimentos do cotidiano, linguagem acessível e busque transformar pequenas cenas do dia a dia em reflexões mais amplas sobre a vida, a sociedade e o tema proposto.

3 - Muitas vezes, as crônicas têm um tom humorístico, irônico ou poético, e podem capturar momentos triviais com uma sensibilidade especial. Caso queira, use e abuse destes tons.

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