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Quando o medo sonha


Mulher com expressão de medo, sonhando
Medo de sonhar pesadelos (Imagem IA/DALL-E-3)

A noite é entrecortada. Por um momento, vejo figuras translúcidas que se dirigem até a mim, como se quisessem entrar e se apossar do meu corpo, da minha mente. Vejo-as se aproximando. Têm um olhar direto, como se atraídas e guiadas pelo meu olhar ou pensamento. As batidas do coração aumentam. Acordo. Pulo, sobressaltada, segurando meu coração disparado. Ele não me obedece, por alguns segundos.


Acendo a luz do abajur, para me certificar de que não há ninguém no meu quarto. Fico por instantes atônita, respirando pausadamente para sossegar os batimentos.


O medo espera a noite chegar. Parece que se diverte com isso.


Adormeço novamente. Me vejo na casa 340. Me sinto ameaçada por alguém que quer invadir. Quero gritar um grito sufocado, a criança que dormia olhando para a janela aberta, a qualquer momento a ser invadida por um desconhecido. O alarme da casa toca, e meu coração pula para o ouvido. Sinto uma invasão do medo infantil. Revejo o corredor estreito, externo à casa, separado apenas por um portão fácil de pular. As trancas, insuficientes. Mesmo indo até cada porta e janela, antes da escuridão me assombrar.


Acordo. Acendo a luz do abajur, para me certificar de que não há ninguém invadindo a minha casa atual. Dou uma volta para ter certeza, para sossegar os batimentos.


O medo espera a noite para chegar. Parece que se diverte com isso.


Volto a dormir, já imaginando o terrível dia seguinte, noite mal dormida. Volto a sonhar, como se todas as aflições resolvessem me cutucar nas poucas horas que me separam do acordar de vez. Lá vem a sensação de estar perdida. Saio de casa — parece uma casa que se repete nos meus sonhos. Saio, e não consigo retornar.


Vou por muitos caminhos. Dou voltas angustiantes. Olho em torno, não reconheço os lugares. Quero ir para casa, sei onde fica. Tenho certeza de que sei. Penso que sei.  Mas não consigo voltar. O desespero me acomete. Estar perdida me deixa assustada. Quero acordar para pular esse sonho interminável.


Não sinto meu corpo se mexer. Quero abrir os olhos, gritar por ajuda. Nada acontece. Sinto o coração palpitar, cada vez mais destemperado. Por trás das pálpebras ainda fechadas, sinto os raios do sol despontando nos furos da veneziana, aquecendo o ar antes frio do meu quarto. Acorde. Acorde. Acorde! Meus olhos finalmente se abrem. O dia avisa a chegada da rotina.


Alternam-se os dias, os cenários sonhados mudam um detalhe ou outro. Não sonho colorido. Há sombras no pavor da invasão e do desamparo.  A alteração cardíaca prova que o medo existe. A paralisação do corpo é real.


Quando o medo me invade, também, durante o dia,

minhas pernas bambeiam, e o chão some.


No carro, em casa, na cama, o medo me assalta. Janelas abrem portais que não reconheço, na adulta que sou.


Tento não pensar em nada disso, ao longo do dia, para não atrair esses recortes que me apavoram. Não distingo respaldos psicológicos. Não sou mais criança, não estou mais na casa 340. Moro num andar alto.


Por que as imagens querem me invadir?


O que fiz para elas, que não entendem meu sono tão necessário?

Que coisas trago no inconsciente, ainda latente, que me provocam

quando não estou no comando?

O que não consigo enxergar, ainda, que se expande

quando meus arreios adormecem,

e meu ego se entrega, desamparado,

às sombras noturnas do meu quarto?




 

Goretti Giaquinto

Desafios # 141 a # 143 de 365 (PARTE 01/03)

Tema: Sobre Sonhos e Medos

Escreva uma narrativa curta sobre um personagem que tem um sonho recorrente que começa a influenciar sua vida diária.

1. Descrição Vívida: O sonho deve ser descrito em detalhes vívidos, utilizando os cinco sentidos (visão, audição, tato, paladar, olfato) para criar uma experiência imersiva.

2. Impacto na Vida Real: Mostre como o sonho afeta o comportamento e as decisões do personagem na vida real. Inclua pelo menos três cenas onde o sonho influencia diretamente suas ações.

3. Simbologia: Incorpore símbolos no sonho que representem os medos ou desejos inconscientes do personagem. Explique ou sugira seu significado ao longo da narrativa.

----Dicas Adicionais:

1. Exploração Psicológica: Utilize elementos de psicologia para aprofundar a exploração dos sonhos e medos dos personagens. Estuda, pesquisar e utilizar referências a teorias de Freud, Jung ou outros teóricos dos sonhos podem enriquecer a narrativa.

2. Ambiente Onírico: Descreva os cenários dos sonhos de maneira surreal e impressionista, permitindo que a imaginação dos leitores os leve a mundos além da realidade cotidiana.

3. Emoção e Suspense: Mantenha uma tensão emocional constante, especialmente ao descrever os medos dos personagens. O equilíbrio entre suspense e revelação é crucial para prender a atenção do leitor.

Essa primeira parte do desafio irá se juntar a outras 2 do desafio literário e permitirão uma exploração rica e multifacetada dos temas de sonhos e medos, incentivando a criatividade e a profundidade emocional na escrita e também ao leitor e leitora.

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