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Nas Ruas da Vida



Casa, rua, textos de lembranças infantis
Rabisco de uma criança que já fui, com lembranças que ficaram (Arquivo Pessoal)

Quase todos os dias passo pela rua que agora é onde moro. Agora, quer dizer, há vinte e poucos anos. É uma rua de uso misto, de um bairro mais antigo da cidade, mas que começou a se renovar com prédios residenciais substituindo casas mais antigas.


Quase nunca ando pela calçada. Só passo pela rua de carro, pra ir ou voltar. Tentei passear com Gabi, minha filhota de patas, mas ela não gosta de pisar nas diferentes e irregulares texturas que compõem o passeio público. Ela paralisa. Tentei ir a pé até uma praça próxima, mas na primeira tentativa quase fui assaltada. Fiquei assustada, não quis mais repetir a experiência.


Às vezes — e no máximo — sigo até a padaria próxima, no quarteirão logo abaixo do meu. Poucas vezes. Não paro pra conversar com ninguém, pois, por não passear com a Gabi, não conheço os donos dos pets que arriscam passear.


Tem tudo aqui perto. Colégio, academia, supermercado, padaria. Um comércio do necessário pra não ter que me deslocar pra satisfazer alguma necessidade da lista, esquecida do corre-corre. Certamente, pagando um pouco mais caro.


Essa nova rua acompanhou minha versão 2.0. — não pela idade aí, seria versão 6.0. —, pela mudança radical que me impus, no início dos anos 2000. Logo depois do temido bug do milênio que, de tão esperado, bugou as expectativas. Pra mim, forçou mudanças de paradigmas. Abandonei ruas da infância, decepções de adulta e frustações que acontecem em qualquer lugar, pra não deixar que a vida apenas me levasse. Não do jeito que eu estava. Me agarrei a um novo caminho a percorrer.  


Mudei várias vezes, antes de chegar à Rua 2.0., mas, até então, dentro do mesmo círculo de cultura. Da rua que marcou minha adolescência — e que me trouxe muitas alegrias e tristezas — fui pra outras ruas, que não me deixaram saudades. Até chegar na rua onde estou, há mais de vinte anos.


Mas a rua que guardo na lembrança é a que eu atravessei por muitos anos, na ida e vinda da escola e dos treinos, nas idas e vindas da faculdade, e, depois, do trabalho. A rua tem o nome de um médico pernambucano importante para a cidade — Dr. Arnóbio Marques. Essa rua me trouxe doenças emocionais e curas traumáticas.


Quando nos mudamos para a casa 340, a Casa Branca da minha infância, eu ainda era criança, com uns oito ou dez anos. Era uma rua tranquila, com uma vizinhança amigável e participativa. Lá brincávamos, eu e meus irmãos, livres de medos. Nossos pais nem se preocupavam. Nem sabiam por onde andávamos, de tão confiantes. Brincávamos de jogos onde a rua era nosso tabuleiro, corremos de bicicleta na rua que era nossa pista. Brindamos a virada do ano visitando cada vizinho, e recebendo-os com taças de esperança.


Ainda hoje chegam lembranças de momentos vividos naquela rua. Nas casas 340 e na 366, pra onde nos mudamos quando a empresa do meu pai faliu. Fomos de uma casa de dois pavimentos e muitas varandas, pra uma bem menor, só térrea, onde ratos e barulhos estranhos povoavam meus pesadelos. Sonho com isso até hoje, muitas ruas depois. Muitas lembranças depois. A casa 340 foi demolida e deu lugar a um estacionamento de apoio ao hospital-universidade que fica no início da rua — onde meu pai faleceu.


Algumas casas deram lugar a prédios altos, e, nas remanescentes, cresceram muros e cercas elétricas — antes desnecessários, pois a favela que havia por trás da quadra respeitava a vizinhança. Foi-se a favela, para abrigar o complexo universitário da Universidade de Pernambuco/UPE. Veio a introspecção que o crescimento urbano impôs aos vizinhos, sejam moradores em casas ou em prédios. Findou o cumprimento amigável. A pista da algazarra infantil sucumbiu à velocidade dos carros que cortam caminho pra tentar chegar mais cedo em algum lugar.


Na minha atual rua, separada fisicamente da outra por muitos quilômetros, bate a saudade da vizinhança amigável e brincadeiras infantis que não voltam mais. Não sei se a culpa é da passagem dos anos, dos costumes tão diferentes entre a infância e a batalha do sobreviver. Das ameaças pelas políticas públicas que descuidam da segurança. Do individualismo. Do colonialismo separatista que ainda diferencia regiões deste imenso país. Ou pelo fato de morar num prédio com sessenta apartamentos.


Ou se está, apenas em mim, a vontade de que, se essa rua fosse minha, todos pudéssemos sair nos cumprimentando como se eu ainda estivesse na Rua Arnóbio Marques, brindando o início de cada dia.

 



 

Goretti Giaquinto

Desafio #57 de 365

Tema: Se essa rua fosse minha

Escrever sobre uma rua em que já morou no passado, de onde vem o nome, relacionamento com vizinhos, o que mudaria nela.



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2 Comments


Cátia Porto
Cátia Porto
Feb 27

Estou descobrindo que passado é material pra escrita que não acaba mais!

Texto muito bom!

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Passado tem muiiitttaaas histórias 🙄🙏

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