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A Sacerdotisa


Mesa de tarô, consulta
Futuro incerto, presente a ser vivido e passado, superado (Imagem gerada no Canva)

Desde criança, acompanhando a mãe em visitas constantes à “cartomante da família”, Luna se afeiçoou à ideia de se antecipar ao destino em cartas de tarô, nos búzios, nas runas. Velejava do passado ao futuro, à caça de respostas e probabilidades. A curiosidade pisciana a levava a experimentar todas as formas premonitórias para aliciar esperanças e despertar intuições. Numa dessas buscas, adulta e insegura, viu-se na necessidade de uma conversa para se aprumar.


Precisava parir um horizonte diferente do já conhecido, amamentar a expectativa de conceber o novo. O serviço foi feito na casa de um tarólogo bem recomendado, transformado em coach desde quando, em suas buscas aventureiras, esbarrou, numa empatia mútua, com aquela miragem ímpar. Luna se impressionara ao conhecer o homem. A visão dele a fascinou, as palavras dele, a conquistaram.


Ele, o Mestre Lan, se apresentava como consultor quântico. Esbanjava um charme místico nos trajes e na atmosfera do ambiente. Nas consultas, usava um turbante roxo, um manto azul escuro sobre túnica e pantalona tipo indianas, e várias correntes ao peito, misturadas com colares de contas e pingentes. No braço, as pulseiras de cristais, e, nos dedos, os anéis com pedras grandes incrustadas, se complementavam com o cheiro do incenso. Numa mesa de madeira coberta por um tecido acetinado amarelo, se equilibravam uma vela acesa e um copo com água, mal cabendo as cartas abertas da roda do destino dos consulentes. Uma cortina vermelha tapava qualquer luz que ousasse entrar no recinto, para não atrapalhar as visões reveladoras. A música, em volume baixo, se misturava às diversas imagens mescladas de crenças e paixões, trazendo pitadas de suspense e fantasia ao cenário pitoresco. As cores, ele explicara desde o início, representavam a fé necessária a cada cliente previamente agendado.


As primeiras cartas denunciaram o final de um trabalho feito havia muito tempo, por algum desafeto, e o presente amanhecia dias melhores. Luna expirou alívio. Seguiram-se frases repetidas num mantra que, para alguns, pareceriam óbvias. Não para Luna, na situação em que buscava um apoio divino explícito.


— A moça tem trabalho certo, sucesso abundante. — sentenciava o profeta — Vejo um amor antigo preso no hoje...Tem certeza de não o querer mais?

— Não sei! — refletia alto, ela.

— A Carta da Sacerdotisa mostra que a moça tem dons que não usa. Precisa experimentar, querida! Vejo sonhos realizados. Deixando-se fluir, tudo se desemperrará. Os Orixás me cochicham. Os Anjos confirmam — repetia o tarólogo amigo do divino.

— Benditas palavras — concordava Luna. Eram bem-vindas à sua fase atual: pescava motivos para metamorfosear.


O final da consulta a surpreendeu com uma receita de transmutação: o ritual da queima. Que Luna, precisando acreditar, decidiu mandar a dúvida para o alto, rogando ajuda para se dar o benefício da fé, imprescindível ao que buscara no encontro místico. Comprou o material necessário — velas, pratos brancos. Optou por comprar poucos pratos. Seriam suficientes, supôs. Planejou o dia D para um domingo, com trânsito mais tranquilo, pois o ritual exigia, na etapa final, um lugar com água corrente.


Escreveu a primeira carta. Sentiu arrancar o peso da sua vida sofrida como novela. Choro infantil, raiva adolescente, dores de todas as épocas borbulhavam como se os episódios estivessem à sua frente. Escreveu uma segunda, uma terceira carta. A princípio, lia e relia, rememorando pessoas e fatos a pedir desculpas e anistiar. Depois, as palavras assumiram vida própria na caneta, deslizando rapidamente por papeis que se acumulavam ao seu lado, expulsando aqueles outros papeis represados que a vida a levara a desempenhar, por anos.


Finda a cerimônia do desabafo, Luna partiu para a segunda etapa: o fogo, para chamuscar o vômito das emoções marchetadas.  Dispôs o primeiro prato sobre a mesa com tampo de vidro, e a primeira carta a ser queimada. O ardor da pequena vela logo quebrou o prato, que quase rachou o vidro. Decidiu prosseguir a liturgia de adeus com os pratos no chão. As cinzas e a fumaça encheram o segundo, o terceiro prato, o chão do apartamento. Os pratos comprados foram insuficientes para as várias páginas extirpadas dos diários, e ela precisou se desfazer de alguns do seu antigo enxoval, muitos sequer usados, agora necessários para tumular tanto sofrimento.


— Dona Luna, está tudo bem por aí? — o porteiro questionou, pelo interfone— Seus vizinhos me alertaram da fumaça espessa vinda do seu apartamento e enchendo o corredor.

— Tudo bem, Marcos. Queimei meu almoço, algumas panelas, mas daqui a pouco a fumaça se dissipará — agradeceu, prendendo, agora, o riso, diante da fogueira simbólica que quase virou incêndio.


Foram necessárias várias velas para apagar a flama interna de controle e descontrole, agonias e tormentas, e muitas sacolas plásticas se empanturraram desses machucados. Quando o fumaceiro diminuiu, tomou coragem para a terceira etapa do ritual. Não bastava cremar as feridas: as borralhas tinham de ser levadas para a água corrente, no simbolismo da absolvição e do desapego.


Luna colocou o material no carro, e seguiu em direção ao rio que cortava a cidade. Para ser um domingo, parecia ter acordado numa segunda-feira. Os carros iam e viam, e a disposição de poluir o rio com as sacolas de plástico doía sua consciência. Dava voltas pelas ruas marginais, esperando o trânsito diminuir. Idas e vindas. O semáforo vermelho. Nenhum carro adiante, nem atrás. Abriu a porta. Inicialmente nervosa, um pouco insegura e depois decidida, pegou as embalagens e as arremessou ao rio.


Surpresa, atinou ter esquecido de amarrar as sacolas: as cinzas se espalharam ao ar e, lentamente, tombaram na água, numa simbiose criminosa perfeita. As bolsas dançavam, leves, arrastadas pelo rio já abarrotado de outros materiais não biodegradáveis, provavelmente assentados à terra do leito do rio urbano.


Sem tempo de apreciar a cena, nem de se despedir dos resíduos doloridos, Luna correu para o carro que deixara ligado, com a porta aberta, na pressa de quem ansiava seguir em frente, mas envergonhada do que estava fazendo. O verde do semáforo solenizou a liberdade dolosa.


— Ninguém assistiu à despedida — pensava, vendo os carros cruzando ao seu lado, já descarregada da afobação e do medo de ser reconhecida.

— Mestre Lan tinha razão — concordou, sentindo o descarrego proporcionado pelo ritual.

Parou o carro. Aproveitou a calma do momento.

— O que significariam as palavras finais do Mestre? — de repente, se lembrou do giro do destino, e a curiosidade bateu à porta de seu pensamento, perturbando a calmaria instantânea.


Distraída, olhou para o tapete do banco do passageiro, e puxou um saco que não tinha reparado antes. Ao puxar, uma carta lentamente voou, e pousou no banco. Virada para cima, a Carta da Sacerdotisa parecia ter adquirido vida própria.





 

Goretti Giaquinto

Desafio # 52 de 365

Tema: Criando Mitos

Invente uma mitologia a partir de um objeto ou indivíduo ao seu redor. Crie lendas e rituais envolvendo esse elemento.


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