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E Quando o Carnaval Passar ...


Fantasia esquecida numa gaveta
E quando o Carnaval passar ....


 

Faz anos que não sou lembrada.


Houve uma época em que eu brilhava. E todos me elogiavam. Eu transmitia alegria, dançava e festejava até, muitas vezes, ficar ensopada. Mas isso não me incomodava. Eu queria que as alas se abrissem, para eu passar.


A música me tornava viva. O sol, quente, queimava a minha cara. E o balancê, a roda, a dança, me contagiavam. A cada ano, algumas mudanças pequenas se agregavam, pra que não reparassem que eu ainda era a mesma. Eu fingia. Dava certo. Deixava a vida me levar, às vezes com confusão — bebia até cair. Pensava que cachaça era água.


O mundo era só meu!


Fui abraçada muitas vezes. A vida era só samba, suor e cerveja. Acreditava que morrer era não ir atrás de um trio elétrico. Eu era tão sincera! Eram tantos risos, tanta alegria, mais de mil palhaços no salão no salão, e eu nunca me sentia só. Alas se abriam para minha passagem esfuziante.

Só fazia o que meu coração mandava.


Tudo me contagiava. Águas rolavam. Apesar do curto período de brincadeiras, eu fazia planos para que logo chegasse o próximo, e o outro, e, logo, todos os demais. Quando aparecia uma semana fora de época, eu matava a saudade. Envolta em uma máscara negra — que escondia o meu rosto — queria beijos sem me levarem a mal. Era Carnaval... e eu fiz tudo para gostarem de mim.


Tudo começou a mudar, e me senti despedaçada.


A falta de grana não era empecilho. A alegria era a bandeira branca. Bastava que houvesse música ou algo para bater como pandeiro. Depois, o grupo foi se dispersando, cada um seguiu um rumo, e eu fiquei só. Lantejoulas sozinhas não fazem brilhar o que morreu com o tempo. Plumas não fazem voar pensamentos melancólicos.


Não foi o tempo que tirou meu brilho: foi a solidão.


Eu comecei a virar outras coisas. Reaproveitada. Numa vida diferente, pedaços de mim se desfizeram sem o propósito original. Virei partes de outros alguéns.


Me senti esfacelada pelas porções de mim que saíram pra um caminho solo, sem alegria. Se quem parte leva saudades de alguém, prefiro não lembrar mais. Que bom que era!


Eu tive que ir embora. Trocaram meu coração cansado de sofrer.


 

Goretti Giaquinto

Desafio #36 de 365

Tema: Fantasia para Vida

Criar uma fantasia/personagem. Escrever um texto de como seria sua vida sendo esse personagem/fantasia.

Imagem criada com IA na plataforma DALL-E

O texto foi totalmente baseado em letras de músicas antigas de carnaval, retirada do site abaixo:




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