Médica Misteriosa
- Edu Mussi

- 8 de jan.
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Lá estava ela, linda, de uma beleza quase surreal. Bela e maravilhosa, sentada à beira da praia onde a água do rio Tapajós, de quando em vez, beliscava a pele acetinada de suas pernas e coxas, bronzeada pelo sol de Santarém. E para tornar aquela paisagem ainda mais esplendorosa, estava sobre a areia branca da praia de Alter do Chão e à sua frente o majestoso rio Tapajós.
Ninguém resistiria diante daquela imagem. Não me contive, aproximei-me da moça, cumprimentei-a com um bom dia e pedi para sentar-me ao seu lado. Não muito perto, pois não queria que ela percebesse meu nervosismo, causado pela emoção.
Ela olhou-me com um sorriso inebriante e disse:
— Pode sentar-se, fique à vontade.
Depois virou o rosto em direção ao rio que naquele momento estava azul como se fosse mar e após alguns minutos calada, o olhar fixo no horizonte, virou-se em minha direção e perguntou:
— Você acredita em Deus?
Fiquei desconcertado com a pergunta, porque me pegou de surpresa e a resposta seria complicada. Porém, mas logo me recompus e respondi:
— Claro que acredito, a prova disso é a existência desse lindo lugar que ficou ainda mais belo com a sua presença.
Ela caiu na gargalhada e respondeu sem parar de rir:
— Lhe faço uma pergunta séria e você me responde com uma cantada. Mas
gostei dessas palavras sedutoras, foi muito original, muito obrigada.
— Desculpe, lhe contrariar, não estou lhe seduzindo. Não queria lhe responder simplesmente que acredito, e complementei a afirmativa dizendo isso.
Mas acredite, fui espontâneo e verdadeiro.
— Obrigada, mais uma vez, pela gentileza de sua resposta. Estou tão inebriada com a beleza deste lugar, a praia, o rio, essa vegetação ao longo da orla que me remeteu a essa reflexão sobre Deus. Tudo é lindo. Nunca tinha visto nada tão bonito como essa paisagem.
— De onde você é?.
— Sou de Belém. Apesar de estar perto, nunca tinha vindo a Santarém. E
você, de onde é?
— Sou daqui. Crie-me nessas praias. Aqui foi meu parque de diversão e minha escola de natação. Sem professor, porque aprendi a nadar sozinho. Atualmente moro em Belém.
— O que a fez viajar aqui para Santarém?
— Desestressar. Sou médica, clínica geral, trabalho em tempo integral no Pronto Socorro Municipal. Por falta de profissionais, ultimamente tenho prestado atendimento por cerca de 12 a 14 horas por dia, e às vezes passo 24 horas lá. Eu estava quase entrando em colapso. Uma amiga que é santarena me recomendou vir para cá. Pretendo passar uns quinze dias por aqui. Desculpe, mas não sei seu nome.
— Me chamo Pedro, e você?
— Meu nome é Ana Beatriz, mas todos me tratam por Bia. No hospital sou a Dra. Bia. E você faz o que em Belém?
— Sou dentista, autônomo. Tenho meu consultório próprio. Não poderei passar quinze dias aqui. Preciso voltar amanhã para Belém.
— Por que você já vai embora?
— Não posso ficar muito tempo parado, afinal, tenho que pagar minhas contas. Mas poderemos nos encontrar em Belém, será possível?
— Claro que sim. Me informe seu telefone e, quando eu chegar em Belém, lhe passo uma mensagem.
— Aguardarei ansioso. Agora preciso ir pois tenho alguns assuntos para resolver antes de partir.
— Lamento você ter que ir.
— Fique certa de que me afasto com o coração partido, pois gostei muito de ter me encontrado com você. Sua companhia é muito agradável. Até lá por Belém. Quando estava me afastando, Beatriz levantou-se e gritou:
— Espera!
Parei e esperei-a. Quando chegou perto de mim, quase tocando seu corpo ao meu, jogou seus braços em torno do meu pescoço e me beijou na boca. Surpreso, fiquei estático nos primeiros segundos, mas logo em seguida correspondi ao longo beijo.
Depois do êxtase, ela afastou-se de mim, disse-me que isso era para não a esquecer. Virou-se e retornou ao local onde estava sentada. Fiquei por alguns instantes olhando para ela caminhando, tentado a segui-la, mas achei melhor continuar meu caminho.
Um mês depois, quando estava saindo do meu trabalho, por volta das 18 horas, recebo uma ligação de um número desconhecido. Atendi e, para minha surpresa, era a Ana Beatriz. Reconheci pela voz.
— Oi, Pedro, tudo bem com você? Ainda se lembra de mim?
— Claro que sim, como poderia esquecer?
— O que você está fazendo agora, ainda tenho duas horas antes de ir para o Pronto Socorro. Você não quer tomar um café aqui no meu apartamento?
— Quero. Qual seu endereço?
— É um prédio em frente à praça Batista Campos, na tv Padre Eutíquio.
— Chegarei rápido, meu consultório é perto.
Ao chegar no endereço dela, encontro um apartamento bem estruturado. Sala ampla, numa das extremidades um sofá vermelho de dois lugares e uma poltrona em cada lado. O apartamento inteiro era decorado com produtos caros. Através de um pequeno corredor, tinha-se acesso à cozinha e ao fundo a suíte.
Sentamo-nos no sofá e na mesinha de centro já estava uma bandeja com uma garrafa térmica, alguns biscoitos, torradas e patês. Conversamos sobre amenidades, trocamos informações sobre nossas profissões, locais de trabalho e outras trivialidades. Como nossos corpos estavam quase colados, virei-me pra ela e disse:
— Não esqueci daquele beijo lá na praia. Você me deixou pensando nele até hoje.
— Foi? Pensei que tivesse esquecido, pois só agora você foi falar nele.
— Por isso, não. Segurei-a pelo rosto e beijei-a intensamente.
Esse beijo deu início a uma troca de carícias que estavam se intensificando, mas de repente Bia estancou e disse:
— Vamos com calma, Pedro. Hoje não. Marquemos outro encontro qualquer dia.
— Quando, Bia?
— Eu lhe procuro. Preciso sair agora para meu trabalho e já estou quase atrasada. Ainda vou tomar banho e me arrumar. Levante-se e vá embora, por favor.
— Se você quiser, deixo você no Pronto Socorro.
— Não precisa, estou com meu carro na garagem. Vá embora, por favor. Levantou-se e foi abrir a porta para eu sair.
Quando eu estava ultrapassando a porta, o celular de Bia tocou. Ela atendeu imediatamente, virou-se de costa para mim e falou baixo: “daqui a meia hora”. Desligou o telefone e disse-me que já estavam cobrando a presença dela no
hospital.
Depois desse encontro, passaram-se dez dias e eu não conseguia mais tirar esta mulher da minha mente. Não sei o que estava acontecendo comigo, pois a saudade intensificava cada vez mais. Evitei de telefonar, porque ela me pediu enfaticamente para não fazer isso. Que eu esperasse, pois ela me procuraria. Não quis contrariá-la.
Passados mais alguns dias, eu estava na Estação das Docas tomando um sorvete e uma moça aproximou-se de mim vendendo rosas vermelhas.
Instintivamente comprei uma e pensei: Ah, vou levar essa rosa para a Bia lá no Pronto Socorro. Ela disse-me que trabalhava à noite, quase todos os dias.
Ao chegar no hospital, fui até o balcão da recepção procurar pela doutora Bia. A atendente olhou para mim interrogativamente e falou:
— Não conheço nenhuma doutora Bia que trabalhe aqui, meu senhor.
— Com certeza? Doutora Ana Beatriz, insisti.
— Meu senhor, eu trabalho aqui há mais de vinte anos e não há nenhuma doutora Ana Beatriz e nem doutora Bia.
Pedi desculpas e sai cabisbaixo e ao mesmo tempo intrigado. O que está acontecendo comigo? Isso é muito estranho. Preferi não ir até o apartamento dela. Achei prudente esperar passar a surpresa e aguardar o contato dela.
Num domingo, quinze dias depois do último encontro, Ana Beatriz telefona e me pergunta: Vamos nos encontrar hoje às 18 horas na Estação das Docas para tomarmos um sorvete?
— Você não vai trabalhar hoje no Pronto Socorro?
— Não. Estou de folga hoje.
— Ótimo. Espero você lá.
Pontualmente às 18 horas chega a Bia, linda e deslumbrante. Sua beleza era tanta, ao ponto de fazer qualquer padre se ajoelhar e pedir a Deus que o livrasse da tentação. Já me encontrava sentado à mesa.
Levantei-me, abracei-a e beijei-a no rosto. Depois de saborearmos nossos sorvetes de bacuri, disse a ela que gostaria de ir até seu apartamento para terminarmos aquilo que havíamos começado no sofá. Ela caiu na gargalhada, mas concordou:
— Também estou desejosa disso.
Ao chegarmos no apartamento, as carícias preliminares aconteceram na sala, mas logo em seguida fomos para o quarto e fizemos sexo várias vezes. Eu nunca tive uma transa tão intensa como essa. Bia tinha algo especial de fazer qualquer homem se arrastar por ela.
Por volta da meia noite, Bia levantou-se e entrou no banheiro. Depois de tomada banho, falou para mim:
— Gostaria que você fosse dormir na sua casa, pois pela manhã bem cedo terei que sair para o trabalho. Não gosto que ninguém durma comigo.
— Para que trabalho você vai de manhã bem cedo?
Ela virou-se pra mim, sem demonstrar surpresa, mas séria com olhar fixo em mim. De seus olhos partiam raios invisíveis e não permitiam que eu mantivesse meu olhar fixo nos dela. Era um olhar intimidador.
— O que você quis dizer com essa pergunta? Por que não faz a pergunta
mais direta?
— Estive no Pronto Socorro outro dia procurando por você e me disseram que lá não trabalha nenhuma Ana Beatriz.
Bia sentou-se na beira da cama e falou pausadamente:
— Tudo bem. Vamos acabar com esse jogo do esconde-esconde. Não trabalho no Pronto Socorro. Não sou médica e nem me chamo Ana Beatriz.
Ergui-me da cama surpreso com essa avalanche de revelações, mas Ana puxou pelo meu braço e continuou a falar:
— Agora você vai ouvir minha história. Sente-se, por favor.
— Meu nome verdadeiro é Maria José e moro no bairro da Pedreira. Aqui não é minha residência. É meu local de trabalho, usado para receber meus “fregueses”.
Sou garota de programa de luxo, em outras palavras, sou uma puta cara. Meus clientes são só executivos, grandes empresários e políticos. Para você ter uma ideia da estirpe deles, uma hora de atendimento custa cinco mil reais. Esse é o valor mais baixo e minha agenda está cheia.
— Por que você se deitou comigo, Bia? Foi para se divertir?
— Não foi bem assim. Eu tive uma atração muito forte por você, mas logo eu neutralizei esse sentimento. Não posso me envolver emocionalmente com ninguém.
Até porque não tenho coração.
— Não diga isso, Bia.
— O que faço não é por prazer é profissionalismo. — Ignorou meu comentário e continuou:
— Ganho muito dinheiro com esses machões endinheirados que, neste quarto, se arrastam igual a uma minhoca pelo prazer que lhes proporciono. E, sem falsa modéstia, sei fazer isso muito bem e ainda me trazem as bebidas mais caras do mercado.
— Quanto ao seu desempenho, só tenho a elogiar.
— Naquele dia em Alter do Chão, — continuou Bia, sem dar trela pro meu comentário — estava acompanhando um grande empresário da soja. Ele foi a um almoço de negócios na cidade e só retornaria à noite. Por isso você me encontrou
sozinha na praia.
— Então Santarém lhe era familiar.
— Já conhecia aquele lugar, portanto tudo que falei para você naquele encontro foi inventado para romantizar o encontro. Ah, outra coisa: não sou de Belém. Sou do Rio de Janeiro. Instalei-me em Belém há dois anos porque o custo aqui é mais baixo e o número de empresários da soja, garimpo e da madeira cresceu muito aqui na região e eles não sabem o que fazer com tanto dinheiro fácil que chega às suas mãos, fruto das falcatruas nas quais estão envolvidos. Alguns deles, depois de tomar várias doses de uísque, me contam seus negócios fraudulentos como se fossem atos heróicos.
— Já falei muito sobre mim. E você, o que me tem a dizer Pedro?
— Primeiro quero lhe dizer que não sou dentista e muito menos tenho consultório e também não me chamo Pedro. Meu nome é Roberval. Sou balconista numa loja de materiais de construção.
— Filha da puta! Bia caiu na gargalhada.
— A única verdade que lhe falei é que sou de Santarém, mas moro em Belém.
— O que você estava fazendo em Alter do Chão?
— Estava em férias e retornaria para Belém, no dia seguinte. Quando te vi, pensei: Vou já tirar uma ”casquinha” com aquela moça bonita e o resultado foi esse.
— Seu crápula insensível. Aquele beijo que te dei foi verdadeiro.
— Aquele beijo que trocamos lá na praia, me deixou maluco. Fiquei apaixonado por você.
— Pois trate de se desapaixonar, porque não haverá nada entre nós. Esqueça este endereço, por favor, e nunca mais venha aqui. O máximo que pode acontecer, já que nos misturamos nas mentiras, é sermos amigos, e nada mais.





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