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O Sorriso de Amanda

Dia muito quente, típico do verão com sol forte, céu claro e de vez em quando

batia uma brisa vinda do mar.


Rodolfo chegou ao trabalho no mesmo horário de sempre. Aos 55 anos,

casado há quase trinta anos e um casal de filhos, ocupa uma diretoria numa

empresa de grande porte.


Ultimamente vinha passando por momentos sombrios e conflitantes no seu

relacionamento com Cristiane, sua esposa. Pensativo, tentava entender os motivos

daquela situação e se perguntava: Será que nosso amor acabou? Ou isso é só

comigo? O que fiz? O que devo fazer? Será que Cris está com algum problema?


O orgulho que ambos carregavam, não permitia que dialogassem sobre esses

assuntos. Ambos se esquivavam da conversa e fingiam que tudo estava bem. Para

fugir do problema, os dois mergulhavam fundo no trabalho. Ele na empresa e sua

esposa, como Assistente Social, na Prefeitura. Sem tomarem nenhuma atitude, não

percebiam a gravidade do problema.


Certo dia, ao chegar na empresa, Rodolfo cumprimentou a todos com um

aperto de mão e sorrindo bastante, como sempre fazia todos os dias. Apesar de seu

jeito meio sisudo, é uma pessoa de bons sentimentos. Para ele a hierarquia só

existia dentro da empresa. Fora do trabalho, quando havia oportunidade, participava de encontros em bares ou restaurantes, junto com os funcionários mais chegados.


Rodolfo luta para conciliar a razão com os ímpetos do coração, porque é exageradamente racional e objetivo. Depois de cumprimentar a equipe, entrou em

sua sala, colocou a pasta sobre um armário atrás da mesa, serviu-se de café e ficou

observando, através de sua janela, o horizonte.


Sentou-se, abriu o notebook e não havia e-mail urgente. Distraído, não percebeu mudanças na sala: mesa arrumada e um vaso com flores no canto da mesa. Mas com pessoas, é mais atento. Observa como se vestem, se comportam e conversam.


Absorto na leitura dos relatórios, viu uma pessoa entrar na sala, porém não deu importância. Apenas desviou a cabeça do notebook para olhar e retornou ao seu trabalho. Mas logo em seguida desviou o olhar novamente, ao perceber uma mulher desconhecida se dirigindo à sua mesa. Alta, corpo esguio, pele na cor de chocolate com leite e de textura aveludada. Corpo harmonioso, lábios carnudos e o batom vermelho acentuava ainda mais a beleza da boca. Os olhos apresentavam uma tonalidade de mel silvestre. Cabelos castanhos, ondulados até a altura dos ombros.


Caminhava com muita elegância e naturalidade. Vestida com trajes da empresa – saia preta à altura dos joelhos, blusa branca e blazer preto. Ao chegar à mesa com um sorriso bem discreto, estendeu a mão de dedos longos, bem tratada com unhas pintadas de vermelho, e disse:


— Sr. Rodolfo, me chamo Amanda e sou sua nova secretária. Estou começando hoje. Peço-lhe desculpas se a arrumação que fiz em sua mesa não lhe agradou.


Rodolfo, ainda paralisado pela surpresa, demorou alguns segundos para estender a mão em resposta ao cumprimento. Amanda, não demonstrou ter percebido o espanto do chefe e foi concisa em sua fala:


— Fui orientada sobre a rotina de nosso trabalho. Encontro-me aí na frente.


Às onze horas o senhor terá uma reunião de diretoria. Retirou-se da sala com um sorriso silencioso e faceiro, pois havia impressionado o chefe.


Os dias passaram normalmente. Rodolfo envolvido no novo projeto de reestruturação da empresa não teve tempo de pensar em mais nada. Seu problema com o casamento continuava sendo ignorado.


Depois de alguns meses, numa sexta-feira, um dos funcionários o convidou para ir a um bar localizado nas imediações da empresa com o objetivo de festejar o aniversário da Amanda. Ele aceitou, iria em casa trocar de roupa e os encontraria no local. Ao sair da empresa, pegou seu carro, foi até sua casa e convidou sua esposa.


Ela recusou o convite e disse-lhe:


— Você sabe que não bebo, mas obrigada pelo convite. Divirta-se.


— Nesse caso irei só. Vou chamar um táxi.


Quando chegou no bar, viu que a turma reunida em torno de umas mesas com bebidas, petiscos e muita alegria. Rodolfo não conseguiu disfarçar seu encanto pela Amanda, pois estava exuberante num vestido vermelho com um decote generoso que ressaltava sua beleza. Dirigiu-se até à moça, abraçou e beijou-a no rosto como cumprimento pelo aniversário.


— Sente-se aqui ao meu lado, chefe, disse Amanda. O que o senhor deseja

beber?


— Primeiro, suprima o “senhor”, por favor. Use o “você”. Não só aqui, mas na

empresa, também. Tomarei cerveja como vocês. –– Amanda levantou-se e foi pegar uma long neck.


A noitada foi muito animada e por volta de meia noite, já não havia mais ninguém da turma, só o Rodolfo e Amanda.


— Você veio de carro?

— Claro que não. Sabia que iría beber, deixei o carro na garagem de casa e

vim de.

— E você, como vai para casa?

— Pegarei um táxi, também.

— Então vamos no mesmo táxi. Deixo você em sua casa, depois sigo.

— Aceito, se não for nenhum incômodo para o senhor... quer dizer, para você.


— Rodolfo, pagou a conta e saíram, pois o táxi já estava na porta os esperando.

Ao chegarem no prédio da Amanda, ela perguntou:


— Você não quer ir até ao meu apartamento para tomar um café forte antes de ir para casa? Faço num instante.


— Tudo bem, aceito o café.


Ao entrarem no apartamento, Amanda colocou a bolsa e as chaves sobre uma mesinha no hall de entrada, disse para Rodolfo ficar à vontade e foi até à cozinha localizada após um balcão contíguo à sala para providenciar o café.


Observou que Rodolfo sentou no sofá, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos e as mãos sobre a lateral da cabeça olhando para o chão. A moça sentou-se ao seu lado com duas canecas de café, entregou-lhe uma e perguntou:


— O que com você? Pois estou vejo que está muito pensativo e com um

semblante de preocupação. Desculpe-me se minha indiscrição. Só quero ajudar.

— Ah, Amanda, são muitos problemas pessoais. Não sei o que dizer.

— Se você não quiser falar, não se preocupe. De qualquer forma estou à sua

disposição. Pode contar comigo.

— Muito obrigado. Mas acho que você não poderá me ajudar, pois o problema é com o meu casamento. Estamos passando por uma fase muito difícil. Acho que eu e minha esposa não nos amamos mais. Será que o amor morre como uma planta que seca?

— Não sei, lhe dizer, porque nunca amei ninguém, mas se a morte do amor for como a de uma planta, o motivo foi falta de cuidado com essa “planta”, pois se você não colocar água, terra, adubo e outros cuidados necessários, qualquer vegetal sucumbe.

— E se eu não souber tratar de plantas, como resolver?

— Ah, Rodolfo, aí você estará em apuros, mas você sabe muito bem cuidar de quem precisa de atenção. Você está se desdenhando. Deixemos a metáfora de lado e vamos falar objetivamente.


Amanda deu um gole no café, colocou a caneca sobre a mesa de centro, ajustou-se no sofá, virando-se para ele e, ao iniciar a fala, Rodolfo disse:


— Você tem um sorriso maravilhoso.


Amanda enrubesceu, mas logo assumiu o controle:


— Não mude de assunto. Já faz alguns meses que trabalhamos juntos e nesse tempo, foi suficiente observar suas virtudes e seus defeitos. Não vou me ater aos defeitos, porque esses você precisará ter a humildade para identificá-los. Não posso me meter nisso. Mas suas qualidades como diretor e como um ser humano, são muitas e importantes para quem convive com você. Você sabe ser gentil, tolerante, compreensivo, caridoso, nunca se exalta, sempre pensa positivamente quando lhe levam problemas, sejam eles quais forem. Você sempre está disponível para ouvir as pessoas que o procuram para desabafar sobre problemas pessoais e quando elas saem de sua sala, percebe-se que saíram satisfeitas pelo simples fato de você lhes dar total atenção. Portanto, chefe, você tem todas as condições e habilidades para resolver esse problema com sua esposa.


— O que você me sugere fazer?

— Jogue seu orgulho no lixo e seja você o primeiro a romper essa barreira e dialogar em busca do entendimento. Talvez sua esposa esteja precisando de você e não tem coragem de lhe pedir ajuda. Para saber se é isso, precisará iniciar a conversa.


Rodolfo emocionou-se com as palavras de Amanda e abraçou-a fortemente. Depois de algum tempo ela se desvencilhou dele e falou:


— Você está com sorte de encontrar uma mulher como eu. Modéstia à parte,

pois se fosse outra qualquer, me aproveitaria de sua fragilidade e já o teria levado

para cama, porque você não é de se jogar fora. E olha, quem está lhe falando é uma

mulher de 25 anos, que só viveu a metade do que você já experimentou da vida. Mas, fique tranquilo, Rodolfo, que não vou lhe atacar, disse Amanda, sorrindo para

ele.


— Amanda, você está falando sério, ou está zoando comigo?


— Nunca falei tão sério com alguém como agora. Sou sincera com você. Fique certo disso. Pegue seu celular e chame um táxi e vá para casa agora.


Rodolfo chegou em casa, entrou silenciosamente e encontrou a esposa acomodada na cama dormindo e, sem fazer barulho, trocou de roupa, deitou-se ao lado dela e dormiu.


No dia seguinte, quando se levantou, por volta das nove horas, encontrou Cristiane na cozinha, concluindo a arrumação da mesa para o café da manhã. Aproximou-se dela, beijou-lhe no rosto dando-lhe bom dia. Ela sorriu e respondeu o cumprimento.


— Divertiu-se ontem à noite?

— A noitada foi boa. Aquela turma é excelente. São animados e têm uma boa

conversa. Pena que você não estava lá. E você, o que fez?

— Terminei de ler o livro Banzeiro Òkòtó, da jornalista e escritora Eliane Brum. Uma obra sensacional sobre a Amazônia e a devastação que fazem naquela região com a desculpa de levar desenvolvimento e crescimento, em detrimento aos

povos ribeirinhos e indígenas que ocupam aquelas florestas e rios. Destruíram a cidade de Altamira, no Pará, transformando aquele município em um dos piores lugares para se viver. Um lugar onde os mais fortes fazem suas próprias leis e exploram os mais fracos. Esse livro deveria ser lido por todos que queiram se informar sobre o assunto Amazônia onde a autora não mediu esforços e correu riscos para buscar essas preciosas informações.


— Depois do café o que vai fazer?


— Vou ao shopping fazer umas compras e quando voltar passarei num restaurante para comprar nosso almoço.– Dito isso, houve silêncio total entre os dois.


Passou o resto do sábado pensando, na conversa que teve com Amanda. Na manhã do domingo, após o café, Rodolfo convidou Cristiane a sentarem na sala para conversar. Ela tentou fugir da conversa:


— O que temos para conversar? Está tudo bem.

— Não está nada bem, Cris. Tenho urgência em conversar com você.

— O que aconteceu? Vai me deixar? Arranjou outra mulher?

— Rodolfo, riu bastante:

— Não é nada disso, meu amor. Você sabe muito bem que continuo te

amando. Você é a mulher da minha vida.

— Humm, hoje você amanheceu romântico. Gostei.

— Cris, você já percebeu a frieza e formalidade que estamos levando a vida?

— Não entendi aonde você quer chegar.

—Me pergunto: Onde foi parar aquele carinho que sempre tivemos um pelo

outro? Assumo a culpa de ter me afastado um pouco de você. Creio que isso deva

estar ocorrendo desde quando assumi esse bendito cargo de diretor.


— Será que foi isso?

— Acho que foi, porque fiquei preocupado em não suportar o peso da responsabilidade e acabei me afastando de você. Não sabia mais o que fazer, mas ontem, depois de conversar com minha nova secretária...


— Ah! Então você foi buscar conselhos amorosos com sua nova secretária? Ela é especialista em casos de relacionamentos que estão à beira da falência?


— Não, Cris, não seja irônica. Ela apenas me fez despertar deste pesadelo, por isso preciso conversar com você sobre nós. –– Pegou nas mãos da esposa, puxou-a para mais perto, mas ela soltou suas mãos e disse:


— Tudo bem, agora sou eu que falo. Também me afastei de você e fiquei fria, porque não tive a coragem de lhe perguntar o que se passava com você. Fiquei com medo da sua resposta, ou seja, que existia outra mulher. Então fiquei na expectativa de você me procurar e confessar. Peço-lhe desculpas pelo meu comportamento. Dito isso, Cristiane pendurou-se no pescoço do marido e o beijou avidamente, como se estivesse fazendo aquilo pela última vez. Mais calma, ainda com o rosto bem próximo ao do marido, falou baixinho:


— Te amo. Amo seu sorriso espontâneo, sua voz, sua paciência, sua forma de lidar comigo. A todo momento fico contando os minutos até chegar o final do dia para poder lhe abraçar e beijar. Não imagino minha vida sem você, porque sua existência é a minha. Agradeço todos os dias por ter te encontrado. Todos esses sentimentos que nutro por você são incondicionais. Concluiu com mais um beijo apaixonado.


Rodolfo olhou para ela emocionado e com um largo sorriso, lhe disse:


— Também amo você por tudo isso que falou. Pegou-a no colo e foram para o quarto concluir a conversa.

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