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Caos Total de Uma Vida Amorosa

Updated: May 16

Sexta-feira abençoada chegou e com ela um final de semana inteirinho para mim. Mochila arrumada, moto abastecida com destino às cachoeiras, "lá vamos nós". GPS ligado, segui pela estrada a fora com algumas paradas para completar o tanque, abastecer o estômago e fazer uns "pipis".


Seguia feliz e saltitante pelas estradas lindas e arborizadas de Minas Gerais, sabendo que eu estava só começando. Parei para almoçar, comprei uns queijinhos e uma garrafa de azeite para acrescentar o que eu carregava na mochila como arroz, lentilha, pão integral, creme de castanha, uma pequena garrafa de vinho tinto seco.


À caminho da paz e do sossego, mal sabia o que me esperava. Depois de aproximadamente cinco horas de viagem, já com o corpo dolorido de tanto pilotar, cheguei ao centro da cidade de Aiuruoca, olhei o mapa do celular e ainda me faltavam quarenta e cinco minutos de estrada. Segui à diante por rampas, descidas e subidas, estradas pitorescas de terra, curvas, depressões, buracos mil até que encontrei o casarão, ponto de encontro dos turistas que tem que deixar os carros e as motos e seguir à pé e como eu estava chegando ao anoitecer, me deixaram subir até a hospedagem.


Passei três porteiras, buracos com lamas fazendo com que eu e a moto ficássemos o próprio caos.


Chegando lá fui recebida pela Maria do Rosário no Vale do Matutu, uma senhora muito simpática que me acompanhou até o chalé que arrumou para mim. Tirei da moto os alimentos e a sacola de roupa/sapatos e segui para meu "alojamento provisório".


Me organizei no espaço, tirei toda roupa lameada, limpei e coloquei para secar na varanda da casinha pequena e simpática, tomei um banho e fiz um rango para descansar para as aventuras do dia seguinte.


Lá o dia amanhece cedo, eu tive essa impressão. Pulei da cama com certa preguiça, mas como tinha horário na visita monitorada na Fazenda das Oliveiras, eu precisava correr. Tomei café da manhã, um banho rapidinho, vesti minha roupa que por incrível que pareça estava seca, peguei a bota, coldre com documentos, cartão e dinheiro e saí de dentro da pousada sem lembrar do caminho que eu tinha feito na tardinha anterior. Perguntei para um, perguntei para outro, perguntei para outro ainda qual o caminho que eu faria para chegar no Casarão, e mesmo depois de tantas explicações eu entrei num porteira errada, achando que era o caminho certo e assim que eu passei o muro e as plantas, dei de cara com um homem sentado na rede da varanda da casa que me olhava sem entender nada, mas eu vi um bonitão sentado naquela rede.


Ele me olhou sem entender nada, mas me disse que eu estava no lugar errado, mas isso eu sabia. Pedi desculpas, voltei para porteira até identificar a estrada esburacada e enlameada por onde eu tinha passado na quase noite do dia anterior.


Depois dos meus compromissos de um dia inteiro, que foram maravilhosos, voltei quase à noite para o chalé com o estômago nas costas. Na sequência de toda tardinha, limpeza da bota e da moto e banho, segui para procurar um rango que alimentasse minha fome e para minha surpresa, quem estava lá era o homem bonito da rede vermelha da varanda da pequena casinha simpática.


Me sentei numa mesa só minha quando o bonitão me convidou para sentar com ele, então eu fui "vamos ver no que vai dar". A conversa começou bem, nomes, cidades, lugares que conhecemos, o que gostamos de fazer, nossas profissões, até a vírgula da próxima página, devia ser bipolar, sem ofensas. De uma conversa interessante e produtiva passou a ser uma entrevista de emprego, "tenho a impressão que o bonitão não tem muito jeito para dialogar com uma mulher", no meio dos questionamentos eu fiz um gesto com mão para ele parar, sem futuro, me levantei pedi minha comida para viagem, paguei, segui alguns passos até o meu chalé onde tranquei a porta e aliviada disse para mim mesma que ali eu estava segura, porém não tão aliviada porque no dia seguinte a gente ia se esbarrar de novo.


Nossos encontros na micro cidadezinha duraram o feriado todo, eu já estava cansada daquilo, a conversa começava bem até as ideias mirabolantes daquele ser. Num dia uma entrevista de emprego para saber se eu tinha sido casada, quantos anos juntos, filhos, etc; na outra falava de política conservadora, alienada; no outro começamos a falar de amor, comida vegana, mas ele adorava uma carne suculenta durante meu almoço no espaço curupira onde eu comia comida vegana, do almoço à sobremesa. E não era eu que puxava assunto, ele pegava uma cadeira e se sentava na minha mesa sem se convidar ou ter sido convidado, muito chato. Aliás, no dia seguinte à entrevista de emprego do não promissor jantar nem para uma amizade, nos encontramos no Casarão às 9h para iniciar a subida à Cabeça do Leão, até o alto do morro para ver a cachoeira e a cidade toda. Ele ia com uma gurias, mas como tinha chovido elas não apareceram e ele não quis subir sozinho e aparentemente nem comigo. Como para mim não tem tempo ruim, desprezei sua presença assim como ele fez comigo naquela manhã e iniciei a subida sozinha, até a quinta curva porque meu sapato tinha a sola lisa e a trilha molhada e escorregadia. Voltei para o Casarão e fui tomar café da manhã no armazém que vendia produtos locais, sentei numa mesa ao lado da janela que dava para ver a trilha que levava ao chalé sentindo o vento fresco e vendo as pessoas descerem para seus destinos matinais. Enquanto eu saboreava um smoothie de amoras e uma fatia de pão aquecido com manteiga ghee derretida, adivinha quem apareceu por entre a portinha da venda? Ele, o satanás vestindo Prada, o homem cheiroso, elegante no modo de vestir e nenhum pouco no modo de falar.


Entrou me viu e como se tivesse um imã foi até mim e disse "ah, te encontrei de novo", me olhou de cima e embaixo e completou "não estou vendo ralados, nem barro". Olhei para ele incrédula em ouvir esse tipo de comentário. Balancei a cabeça sentindo asco daquela criatura e continuei comendo meu saboroso pão. Ele foi em direção a porta como se estivesse indo embora, graças ao bom Deus, mas por uma estranha vontade voltou para minha direção, "será que posso me sentar com você?", antes que eu pudesse responder de boca vazia, é claro que ele se sentou, "sabe, você é uma pessoa estranha, eu te trato mal e você não revida. Eu estava indo embora, mas precisava te falar isso". Eu olhei com seriedade para ele, com os cotovelos sobre a mesa segurando as mãos para não perder a minha Santa Paciência e respondi "você me considera uma pessoa estranha porque eu não sou igual a você. Todos esses dias ao invés de você tentar pelo menos ser gentil, respeitoso e fazer amizade comigo, você só encheu o saco".


Não satisfeito com toda essa conversa, o bonitão, deselegante e "abençoado" ser, termina a frase dizendo "você é bonitona, deselegante e "abençoada" sujeita que anda numa moto suja, faz barulho à noite toda e ainda não dá valor às pessoas que querem fazer amizades.


Para não perder a minha decência ou compostura, preferi ter paz do que razão, me levantei, paguei a conta, deixei a pessoinha falando sozinha e eu bonitona que sou, fui embora na minha moto suja que estava mesmo, na minha elegância de ser voltei para casa.


Casa antiga amarela feita de armazém numa cidadezinha de Minas Gerais
Casa amarela


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