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A Fenda


Alguns vultos aguardando em frente ao local, uns conversando outros parados observando quem chegava.


A luz amarelada não permitia que se visse nitidamente quem estava no seu interior, causando certo desconforto  e a sensação de estar no lugar errado, na hora errada e com pessoas que talvez não fosse aquilo que se procurava. Chegando, logo na entrada, um ou outro rosto conhecido, típico de cidade pequena.


Os olhos buscavam nas mesas aquilo que em seu interior não queria ser encontrado. As mãos geladas  e suadas, tornavam  o ambiente ainda mais incômodo, e talvez deixasse transparecer a intenção.  Na mente a imagem se reproduzia como em um sonho, se esvaindo em  pensamentos não lúcidos. Como obsessores, elocubrações  perturbadoras invadiam a alma, separando o real do imaginário. Em pouco  menos de duas horas  as soluções das equações de Navier –Stokes davam espaço aos pensamentos traidores e fora da realidade. Uma pergunta aos olhos de fora... será que havia percepção da mente doentia, ou realmente um rompimento como uma fenda onde a realidade submergisse no íntimo mais profundo da mente aguardando para retornar ao amanhecer quando a necessidade da subsistência falava mais alto.


Naquele momento, o ambiente proporcionava tudo aquilo de mais perturbador, a batida da  música, o aroma estratégico  dos destilados, a mistura de perfumes e rostos das mais variadas formas, alguns aparentemente embriagados, traziam em seus olhares varias interpretações armazenadas no subconsciente da mente desconexa com a realidade.


Na barra interna da calça roçava ao tornozelo algo estrategicamente escondido, fazendo conjunto com a bota Tractor Riking, cujos cadarços soltos aguardavam apenas a tão esperada aparição daquilo que se buscava, mas aparentemente não estava lá. Surge a dúvida...aguardar, se misturando aos demais,  ou continuar a busca pela certeza daquilo que não se tinha, mas que deveria ser desvelado naquela noite,  criteriosamente preparada durante meses. A mesa ao final do corredor quase imperceptível aos olhos de quem chegava foi o alvo perfeito de quem premeditava algo. Naquele momento uma dose de bebida doce e forte se fez perfeita e necessária  para concretizar o que não havia de concreto, fazendo parte de um enredo desenvolvido pela mente doente ou por uma imaginação assombrosamente incrível e assustadora, ou ainda pela junção de fatos que poderiam fazer parte de uma realidade nua e crua. Quem sabe? Não havendo mais a possibilidade de interpretações e buscas por verdades, nada mais poderia ser feito naquele momento muitas vezes repensado.  Os olhos fixos na roleta, não acreditavam na cena a sua frente, seria efeito do destilado? E o breu absorveu seus olhos que fitavam apenas naquilo que sua mente não conseguia enxergar....amanhã...amanhã de manhã a realidade do acontecimento da noite anterior daria espaço as verdades buscadas na noite arrebatadora. Somente amanhã a fenda traria a tona algo submerso no emaranhado de dúvidas e certezas talvez de uma mente doentia? E o cadarço foi amarrado.


Vanessa Martyniak

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1 Comment


De médico e louco, todos temos um pouco…..

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