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Reiniciando o Sistema ...


Uma figura de humano robotizado
Não muito distante daqui ... (Imagem DALL-E 3)

DIA 01


— Você está no estágio 01 do Ciclo 15 da Função 200. Parabéns, chérie! — ela me cumprimentou, ao lhe dar o papel para ler.


Tinha acabado de receber minha aprovação na fase quatro do Ciclo Desenvolvimento Profissional. Nessa etapa, teria direitos e deveres mais complexos, e retribuições compatíveis com a fase. Em outras palavras, estava evoluindo bem no sistema, no estágio social-financeiro.  Na nova fase, o pessoal e família seriam o foco. A aprovação era um bônus de competência antecipado, e eu tinha apenas trinta anos.


— Obrigada, darling. Você sabe o que significa, não é? — Perguntei, sem querer perguntar.

— Sim. E estou muito orgulhosa de você. Agora podemos iniciar nossa família! — ela parecia muito feliz e segura.


Seria o passo normal, nesse Ciclo. Aguardei muito para chegar até aqui. Havia regras a serem seguida, justamente para que todos obterem os benefícios coletivos que nossa sociedade finalmente atingiu. Mas eu não estava pensando nisso quando perguntei a ela o significado.


Para cada setor da economia, há o que chamam de “controle de desenvolvimento”. Cada controle tem uma espécie de espelho nos setores planejamento, educação e família. Todos agem em conjunto, para que cada pessoa tenha um crescimento individual e profissional em ciclos de crescimento. A Inteligência Artificial Maior — IAM — disponibiliza todas as etapas a serem cumpridas, e acompanha mensalmente, emitindo alertas para desvios de conduta ou de caminho. A confiança é primordial no sistema, para que a coletividade seja beneficiada com a soma das individualidades.


Com isso, foram abolidos vários problemas que meus ancestrais tinham. Ninguém morre de fome. Ninguém precisa trabalhar no que não gosta, para ter seu sustento e de sua família. Não há insegurança em andar nas ruas. Não há muros isolando casas. Não há portas fechadas. Não há competição com arapucas para derrubar colegas. Se o processo for seguido direitinho, a felicidade é um bônus colateral. Quem não quer isso para a própria vida?


Chérie, no que você está pensando, tão absorto? — a pergunta me trouxe de volta — Eu lhe fiz uma ... Proposta!

— Desculpe, darling. Sim, está na hora de começarmos a pensar nos nossos filhos — respondi, meio sem convicção.


Ela não parecia perceber. Mas eu fugia do assunto como podia.


— Então, amanhã vou começar a nova função.  Estou muito animado, sonho com isso há tempo — mudei a conversa, esperando não a irritar.

— Por que você sempre foge do assunto? — não deu certo. Ela percebeu.

Darling, depois conversamos, com calma. Hoje só quero comemorar. Vamos sair, dançar e nos divertir.


Tem algumas coisas sobre mim que ela desconhece. Sinto que não me encaixo perfeitamente nesse sistema. Não que ele não funcione. Tudo certinho. Planejado. E eu, desconectado. Sinto falta de algo que nem eu mesmo sei. Lá dentro, sabe? Talvez eu seja dessa geração que vai mudar o que existe. Como houve uma antes da minha, que implantou um novo sistema, chamado de Desenvolvimento Sustentável de Relacionamentos — DSR. Foi revolucionário, e deu certo. Pelo menos, aparentemente. Talvez eu seja o peixe fora d’água. Com essa sensação esquisita. Com esse sufocamento interno que me traz frustrações.


Saímos. Dançamos. Evitei fazer amor, não quero ser pego de surpresa, antecipando o que ainda não tenho convicção em iniciar. Ela ficou chateada. Paciência. Minha desculpa, porre de comemoração.


DIA 02


Acordei cedo e disposto à nova função. Sou engenheiro de software, amo a tecnologia e lutei para atingir o novo objetivo. Agora, faço parte do grupo que dá suporte imediato à IAM. Tenho acesso máximo ao sistema. Isso é … tentador.


Fui bem recebido no novo ambiente de trabalho. Ganhei uma sala privativa, com excelente suporte tecnológico e conforto material. Senti que estava no lugar certo, no momento certo. Maravilha! Se não fosse … a etapa a cumprir que eu estava inseguro. Formar família. Ter filhos. Isso me incomodava. Só em pensar senti uma nuvem negra no peito. Por que teria que fazer isso?


Sim, eu sabia que faz parte da manutenção do sistema. Gerações futuras para sustentar a sociedade. Tinha que ter algo para mudar ou burlar o sistema. Eu tinha essa possibilidade, agora. E iria fuçar até descobrir!

 

DIA 10


O ambiente estava estranho, hoje. Ninguém fixava o olhar em mim. Fui até minha sala, e uma mulher estava sentada em minha cadeira. No meu posto. Não a reconheci. Fui adiante, mesmo assim.


— Olá! Quem é você, e o que faz na minha sala, no meu lugar — perguntei em pé, na frente da mulher.

— Bom dia. Eu sou a nova colaboradora do sistema. Estava lhe aguardando para o novo procedimento.

— Que procedimento? — minha surpresa estava estampada na voz estridente que saiu.

— Sente-se, por favor.


Obedeci, sem muita paciência.


— O sistema detectou uma falha em um de seus componentes. Você sabe, somos analisados e acompanhados em cada nova função alçada. Você tem duas opções, que chamamos Livre Estorno Instantâneo, a LEI, ou o Funcionamento de Única Intervenção, o FUI. Você decide. Mas tem 15 minutos para isso. O sistema foi ativado a partir de agora. Depois disso, não terá escolha.


Eu tinha esquecido desses detalhes. Tentei ganhar tempo.


— Qual componente está com falha? — blefei.

O blefe seria simultâneo.

— A escolha da função. Seu próximo passo.


Olhei em volta. Olhei para o relógio. Nadei tanto pra morrer na praia, pensei.  O sistema não pode impor decisões tão arbitrárias. Voltamos à estaca zero! A escolha a tomar seria injusta, de qualquer forma — tanto LEI como FUI. Ainda não sabia a resposta, nem o que o próprio sistema faria, se eu não optasse por alguma das duas opções.


Não queria ter filhos, não nesse momento. Também não queria renunciar à função recém conquistada. Nem queria abandonar minha namorada, com quem estava junto há algum tempo. Gostava muito dessas duas coisas. Mas, não da ideia de ter crianças ao redor. Ainda estava em processo de construção da minha paciência — talvez esse seja o componente em falha.


Absorto nos meus pensamentos, não olhei mais para o relógio. Foi o tempo dos alto-falantes espalharem a voz estridente, dessa vez, da IAM.


— Iniciando Reboot no sistema do funcionário número 114 da Função 200.


Senti uma tontura na cabeça, e apaguei.


DIA 11


Abri os olhos e não reconheci de imediato onde estava. O Reboot tinha me trazido ao ponto -180 do sistema. Mas eu não sabia disso. Iria recomeçar na Função 199, já que não escolhi nenhuma das opções automáticas que me foram disponibilizadas.


Um recomeço dentro do sistema, escolha randomizada que faz o melhor para que o componente com falha identificada não use seu livre arbítrio para escolher.


Tempo para repensar a vida, e permanecer dentro do Sistema. Para não contaminar o que estava bom. Com novas variáveis, e exclusões necessárias.


Para não atrapalhar o desenvolvimento do outro, minha antiga namorada foi reprogramada para outro ciclo, onde poderia dar continuidade à sua jornada.


E quanto a mim, que fui reprovado nos caminhos da paciência e egocentrismo, teria um longo caminho à frente. De novo. Sem reclamar, para começar.



 

Goretti Giaquinto

Desafio #58 de 365

Tema: texto utópico

Conto com um futuro próximo (ou não) otimista

Escrever utopia, e otimista, é um desafio. Pelo menos para mim, que sei que, mesmo em conjecturas de ambientes futuros onde todos tenham seu lugar ao mundo, desconfio que nunca deixará de ter alguém que pense diferente. Até que o Sistema invada tudo e todos. Ainda bem que na ficção tudo pode mudar...

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1 Comment


Cátia Porto
Cátia Porto
Mar 01

Acho que tem razão, as utopias otimistas são difíceis. Já vimos tanta coisa! Talvez nos falte o olhar da ingenuidade. Não sei...

Ótimo texto!

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