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O Retorno dos Ibejis, por Tamires Batista

Verão de 2046, às 16hrs da tarde.


A anciã jogou os búzios no tabuleiro e riu… até parecia uma pomba gira com aquela profunda gargalhada.


- O futuro é mesmo ancestral.


...

Tempo é Orixá. Mas nem todas as preces e nem todas as oferendas serão capazes de fazer voltar no tempo. Antes do fim. Antes das cinzas.

Ninguém poderia imaginar que aquela porcaria de coronavírus seria capaz de causar uma destruição em massa no planeta, nem nos mais terríveis pesadelos, nem os mais loucos da conspiração.

A evolução constante do vírus criando variantes incontroláveis, a fome e o desemprego que causaram guerras civis espalhadas no mundo. E o estopim foi quando um grupo de hackers vazaram informações dos governos de que o corona e outros vírus estavam sendo usados para matar os povos no mundo. Os povos melaninados, como eu. Ainda existe mais alguém como eu?

Os yurugus se especializaram em matar e construíram armas químicas, biológicas, nucleares e não pensaram duas vezes em usar contra nós. Como eu queria que fosse um pesadelo. Como eu queria que fosse mentira.

Mesmo nascendo no início do fim, do caos, eu não posso me conformar. Esse ódio parece que vai romper minhas veias, é como se estivessem me cozinhando num caldeirão. Estou andando há horas sem parar com uma frota de homens pálidos falando esquisito atrás de mim prontos pra me fuzilar. Estão perseguindo uma mulher grávida como cães de caça atrás de um coelho.

Mataram minha família, mataram meu homem… e me pergunto, como não conseguiram me matar ainda? Pelo menos quando eu encontrar a mata poderei descansar melhor, sob o afago do axé de Ossain.



A anciã reunia todos os mais velhos da pequena vila dentro da mata e depois se reuniu com os mais novos, todos sobreviventes do massacre yurugu. Aos poucos desenvolviam tecnologia não rastreável pelos satélites inimigos para se defender, mas também se utilizavam das medicinas das matas e do auxílio dos espirítos, dos “encantados”. Eram pessoas diferentes, de diferentes lugares, de diferentes etnias, mas que tinham a pele escura e melaninada em comum. Desde que os projetos yurugus foram expostos ao mundo eles não hesitaram em perseguir declaradamente os povos não brancos no mundo. Todos os contratos de paz caíram por terra!

E ali estavam eles, lutando pela vida. O nível de dominação do inimigo chegava ao seu limite máximo e a morte, Iku, já não botava mais medo em ninguém, porém, ainda sim a queriam bem longe.


- O início e o fim são gêmeos idênticos. Peço que alguns se espalhem pela mata com panos, tesoura e água. Teremos convidados ilustres essa noite.


Finalmente, um lugar que eu possa descansar. A mata aqui não é densa, mas preciso me sentar um pouco. Encontrei algumas araçás pra comer bananas, minha barriga está enorme. Nem nasceram e já estão sofrendo tanto... mas pelo menos aqui eu posso respirar um ar mais limpo e fresco pra vocês.

Pensando bem, vou entrar mais na mata, ainda estou vulnerável.

Engraçado. Olha como a noite está linda,

Olha como canta a mãe da Lua.


...


As corujas cantavam agitadas, parecia vir do fundo da terra o canto doscaboclos. Os encantados faziam a festa...

Os aldeões correram em direção aos gritos de uma mulher e lá estava ela, numa clareira na mata com a pele preta reluzindo a luz da lua, acolhida pela maciez das folhas como uma rainha. Ela estava parindo e gritava como se estivesse lutando na guerra. Todos correram para ajudá-la. Nasciam ali os gêmeos, a redenção.


Era o retorno daqueles que um dia venceram Iku.

A anciã esperava na vila, com uma coruja na mão e ria.


-O futuro é mesmo ancestral.



Tamires mora em Ibiúna interior de SP.


MC, poeta e mãe da Olívia Nyara de 3 anos, Tamires está no nosso grupo de Negritudes do projeto É DIA DE ESCREVER.


Gostou do Texto? então segue ela no instagram @guerrera.tami.

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1 Comment


Maria Clara Martins
Maria Clara Martins
Apr 23, 2021

Um conto muito bonito, sua escrita é bem poética e o enredo ficou muito bom. Parabéns, Tamires!

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