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Vinte Minutos



Numa mesa de cabeceira, o celular marca oito horas e oito minutose
Sincronicidade (imagem IA elaborada em DALL-E-3)

O alarme toca. Adio por dez minutos. É minha rotina de criação, penso, enquanto cito meus mantras diários, aguardando o sono recém-conquistado ir embora. Histórias passam pela cabeça sonolenta, misturando passado e presente.

Após a aposentadoria não existe futuro.

O presente é o que há, para agora.


A palavra desistência tem sido uma companheira fiel. Não lembro se antes ou depois de aposentar, ou durante o processo de viver até o dia de aposentar. Todos os dias continuo desistindo de algo. Enquanto trabalhava, desisti de viver alguns sonhos esboçados enquanto a pele ainda tinha viço. Correr para viver não permite muitos sonhos.

Quando o alarme toca — o que tem som — o dia exige escolhas imediatas, não há como adiar por mais dez minutos. Não há tempo para ensaios. O roteiro está pronto, as improvisações acontecerão, certamente.

Quando o alarme é o que independe do som, os minutos são usados para vidas paralelas: entender o sonho ou pesadelo; reviver um momento que insiste em doer; escrever, na mente, histórias a partir da própria história, tentando me convencer de que o ânimo virá quando palavras e imagens florearem o presente sem frescor.


Conviver com a desistência faz parte da terapia de vida.

Uns, conseguem ânimo do nada; outros, dependem de pílulas.

Romantizam. Somatizam. Desperdiçam. Desistem.


Adio o alarme por dez minutos. Na vida que se aposentou não há rotina que não possa ser quebrada. Mas rotinas não podem ser desistidas, para não haver antecipações de atos. 
Vive-se uma vida inteira sem muito tempo para planejar, e o tempo — estendido em horas libertadoras — passa a ser a corrida contra o final que vai chegar para todos. O tempo que não depende de rotinas para se abreviar.

Quando o alarme for desligado, será hora de levantar e aproveitar no que não pode ser realmente adiado. Há pratos e roupas que se acumularam, pelas outras prioridades que se adiantaram. Há algum lugar previamente agendado, e que não tem como adiar.

Há sempre o que fazer. Escrever as memórias antes de sumirem. Arrumar a casa entre os espaços que a diarista não vem. Passar o dedo nos posts de vídeos — que parecem tão ficcionais como filmes e livros. Assistir cursos e mais cursos comprados — no vício de fazer do tempo morto um aprendizado. Dizem: "Criar sinapses é necessário". Para ter a mente saudável.


Ver as horas, a semana, o mês, o semestre, o ano, todos passando,

e a culpa abrir a cortina.


Ler algo motivador dá um up, e a desistência se engaveta, entre as listas, num adiamento temporário. Não há glamour na vida fora dos palcos. Se soubéssemos disso antes, muitas escolhas nem seriam feitas. Talvez esse seja o plot: o adeus é inevitável. É o que precisa ser dito, quando se vive entre tralhas acumuladas.


Não há recuperação de tempo, porque o tempo é abstrato. Os momentos são pensamentos guardados enquanto ainda há espaço e vida nas células desgastadas ao longo do próprio tempo. É inevitável. Os momentos são retidos em memórias, mas a vida, não: ela passa. Ela corre, e não espera por bons ou maus momentos. Estes são meras escolhas de papéis, os principais, ou não.


Ainda faço listas —viraram uma agenda da memória que vai escasseando como um gradiente de cor, desbotando até fundir com o background. Ainda uso desculpas — falta de dinheiro, de tempo, de ânimo, de coragem. Desculpas do passado viram outras, criativas. Prioridades do não feito se acumulam, sem desculpas. Muito do disfarçado numa desculpa anterior, permanece.


E não há muito a fazer: na ficção tudo pode, tudo muda.

Na vida, o personagem é o autor da própria história —

e não é clichê.


Corre-se atrás de filmes, de livros, para buscar inspiração para a própria vida, ou para fugir dela. Ou por outros motivos além do próprio entretenimento. Aposentar parece aquele momento do filme em que as legendas vão subindo, a música vai emocionando — na maioria das vezes a música do final é a melhor — e a pergunta vai cutucar por dias: “e agora”?


Não há regras, não há templates. Só há um hardware meio obsoleto, onde não caberão softwares mais modernos se não houver atualizações do hardware. Mesmo os softwares que antes rodavam bem, param de funcionar, se não houver um novo setup. Fazer ou não a atualização não dá certeza da utilidade do novo a ser instalado. Nem no mundo atual há clareza: a ajuda da inteligência que atualiza os softwares não bate com as controvérsias do que há por trás.


Quando o corpo inicia o processo de aposentar — e não sabe o que ainda virá, assim como, quando jovem, ousava experimentar, atrás de respostas — não há garantias de que o remédio será assertivo. Pode haver falhas no diagnóstico, erros de comunicação, panes no sistema.


A única certeza é que, se agendado, o alarme tocará —

se a bateria estiver funcionando.


A minha vida se transformou em muitas caixas papéis, contas, fotos, e coisas que acumulei com algum propósito que não me serve mais. E que passou a me fazer perder tempo em rasgar, e decidir o que ainda fica ou será rasgado.


Não sei por que não me tornei minimalista.


O ter provavelmente se disfarçava no quero ser. Notas fiscais desbotadas, guardadas para servirem de prova, de garantia, não me garantem mais nada: só, que irão para o lixo. Não sei de onde veio a dificuldade de me desfazer de papéis. jogava em caixas, em gavetas, com a desculpa de falta de tempo. Agora, penso se vale a pena me perder entre essas tralhas, rasgando, ou deixar que outros façam por mim. Uma simples decisão — parece fácil, mas não é. Me apego ao passado, à falta de garantia de futuro, para decidir depois.


São papéis que me lembram os que tive de encenar, durante a vida, e ainda não desapeguei.


Entre o sonho e a realidade há um alarme que toca, sempre. Que volta ao tempo da importância da carreira versus a maternidade — desculpas para o tempo espremido, na luta diária para dar certo, de qualquer jeito. Sem tempo para pensar numa aposentadoria como parada obrigatória, ou em separações, lutos, esvaziamentos e tudo o que pode acontecer, inclusive o declínio do corpo.


Hoje, os exercícios que faço, não foco nas alterações na balança: são os necessários para não definhar, para se locomover, para não criar dependências. Degradação, para quem viveu independente, e batalhou para gerar independências.


Dez minutos viram vinte. Movo o corpo para a frente. Se eu pegar o caderno para anotar os pensamentos que se acumulam, a memória se volatizará. Acontece com todo mundo, dizem. “Você não é todo mundo” — a acusação da infância me esbofeteia, e giro o rosto lembrando de culpas cada vez mais resgatadas.

Mudo de lado como um controle remoto acionado, procurando um canal menos doloroso. Memórias e sonhos se alternam, em flashes de cenas recortadas pelo tempo perdido nessa breve intenção de acordar.  


O medo de desistir me impele à mesma cobrança interna,

que também diz “Eu avisei”. Essa voz me causa pesadelos,

no brainstorm criativo das manhãs.


Algumas memórias eu gostaria de retomar, mas elas escaparão quando eu desligar o alarme. A mão, no gesto automático, pega o celular e confere a hora: 08h:08min. Essa sincronicidade abre outros portais, me remete ao espaço de outras crenças. Tento fechar os olhos — então semicerrados, para não despertar de vez, e para retornar às ideias, às palavras, aos sonhos que poderão desvendar pistas criativas.

A maioria se vai no relance não aproveitado, no virar o corpo para mudar de canal, no movimento da cabeça para afastar uma cena mal resolvida que volta à mente, me cutucando, me assombrando, e me dizendo — no silêncio das gavetas dos arquivos mortos não rasgados —: ali estão, até que eu decida fazer algo por elas.


O alarme dispara, e leva embora a sonolência esticada.  O despertar me sacode e me joga a rotina na cara ainda inchada. Me sinto como um prisioneiro sentenciado colocando "X" nos dias do calendário, para vê-los passar mais rápido. Despertei. Agora, me resta todo o dia anunciado pelo alarme que insiste em me retornar à realidade.

Dizem: “a vida é um presente”. Finjo acreditar. Ou acredito, não sei. Foram poucos os presentes ofertados nela, ao longo do corredor da minha morte, em vida. Meu alarme se tornou o algoz de rotinas necessárias para não desistir de presentes.

Tento relembrar algo importante da lista de tarefas. Algo que me obrigue a levantar.


A lista é o meu alarme de viver. Para quem não precisa mais levantar correndo para trabalhar — um sonho de muitos, tão desejado — esse momento se torna a rotina do caminhar entre o corredor da desistência e a contratação de um novo advogado.

Tornou-se necessário me agarrar a cordas invisíveis, para não chegar ao fundo de vários poços cavados no meu subconsciente, em momentos que me impedem de desligar o alarme, aproveitar a sonolência que lutei tanto para aproveitar, e que ainda travo batalhas para aceitar.


Momentos que me impelem a ligar o alarme ou desligá-lo, saboreando o que o corpo quiser, a mente pensar e a vida quiser me levar.


Melhor levantar, e não me deixar seduzir mais pela cama. Os últimos vinte minutos causaram uma revolução em mim. Vou ter que pôr na lista a compra de um novo colchão, que adiei até o momento. As dores no corpo reclamam, mais fortes. Um ciclo me espera. Não tão novo, nem velho a ponto de descartar, como as tralhas.

Olho para a lista feita quando o ânimo está alto e desisto de algo, para diminuir a lista. Adio, como adio diariamente o alarme que me lembra das rotinas do viver um dia de cada vez.



 

Goretti Giaquinto

Desafios # 166 a # 167 de 365

Tema: Um Novo Ciclo

1. O desafio é escrever uma história ou ensaio que explore o tema das mudanças e ciclos da vida. Os participantes devem criar narrativas envolventes e reflexivas que captem a essência das transições pelas quais passamos ao longo da vida.

2. Pode ser uma história ficcional ou um ensaio não-ficcional, mas deve seguir uma estrutura clara com início, meio e fim.

3. O enredo deve focar em pelo menos três fases distintas: Ponto inicial - Ponto de transição - Ponto de mudança, destacando como essas mudanças moldam sua personalidade e perspectivas.

 

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