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Uma vida de histórias - Uma breve autobiografia, por Yasmin Lula Souza

Uma vida pode ser contado e medida por diversas formas. Alguns escolhem pelo início, outros suas vitórias ou derrotas, todas labutas e penúrias que viveu e ainda há certas pessoas que escolhem eventos ou coisas que foram as responsáveis por quem elas são hoje em dia. Eu me encaixo nesse último caso, afinal, depois de uma vida marcada pela arte, em especial a literatura, não sei qual outro modo poderia contar a história de alguém rodeada de histórias.


Desde meu nascimento estou cercada pelos livros e o meu primeiro eu não tenho nenhuma lembrança sobre ele. Minha mãe, uma baiana forte, resiliente, inteligente e amorosa, me deu uma bíblia infantil, afinal, de família católica algumas coisas quase são impossíveis de não acontecer. Eu não conseguia ler, nem tive interesse nisso, mas, afinal, um bebê não tem tanta noção do que faz ou deixar de fazer.


Mas o tempo passa e minha memória mais antiga numa livraria aparece. Devia ser numa biblioteca de um shopping de São Paulo, já que sou nascida e criada nessa metrópole caótica. Foram três livros específicos que minha tia por parte de pai, que mora junto de mim até hoje e naquela época dividia a casa de aluguel com minha mãe e meu pai. Era um pequeno dos Smilinguidos, outro maior com capa dura, páginas que deveriam ser ter papelão de tão grosso e que era sobre o que éramos melhores e o último livro era simples, com animais com texturas em alguma parte deles, poucas letras, cores vivas e com olhos que faziam barulho. Como eu amava esses dois últimos livros.


Cresci mais um pouco e ganhei outros livros. Um em especial que me encantou e ficou marcado na minha cabeça por anos. Mila & Sugar: Bruxa mais fada. Provavelmente a primeira fantasia que li na minha vida. Uma mescla de fadas, bruxas, duende, um vilão, mundo real com fantasia escondido, páginas com desenhos vibrantes e uma história emocionante. Eu sabia que tinha uma continuação, até mesmo encontrei em uma outra ida à livraria, mas não ganhei e não em saiu da cabeça até um aniversário meu muito há muito tempo atrás.


Nesse aniversário eu recebi somente as outras cinco continuações de Mila e Sugar, mas também Percy Jackson e os Olimpianos. Paixão à primeira vista. Virei fã, entrei e participei do meu primeiro fandom, deve ter sido aí que me converti para literatura fantástica, amém. Entrei no chalé de Atena e conheci tantas outras histórias que me tiraram o fôlego. Nessa época já fazia alguns anos que eu estava na minha casa própria, um antigo casarão que havia sido transformado em 12 casas germinadas. A quarta casa contando do alto da rua. Ainda vivia com minha tia e meu pai, que também são baianos, e minha mãe.


Estar naquela casa foi uma verdadeira benção. Passei muitos momentos felizes lá dentro, alguns outros que me traz lágrimas de múltiplas emoções, mas nada que eu queira um dia esquecer. Ainda espero chegar o momento que voltarei para a minha casa, pois ela ainda é minha. Foi naquela casa que eu passei meu Ensino Fundamental, conheci amizades que carrego até hoje, minha mãe iniciou a faculdade, eu me formei e era quase a Yasmin que conheço hoje.


Naquela casa tínhamos o nosso primeiro carro. Um Grand Siena prateado que meu pai havia escolhido. Não era ele que dirigia porque não havia feito uma carteira, mas quase todas as noites que minha mãe estava em casa ela o buscava. Eu gostava muito de acompanhar, de andar, ver a cidade e tudo o que ela guarda, principalmente de noite. Mas teve um dia, após uma leitura, que decidi não o fazer.


Eu tinha terminado Espada de Vidro, segundo volume da saga A Rainha Vermelha e não tinha mais livros para ler da escritora. Eu tinha ficado revoltada com o final, desacredita. Como um livro poderia terminar daquele jeito? Até chorar, chorei. Antes de sair, pouco segundos depois de eu encerrar minha leitura, minha mãe me chamou para buscar meu pai no posto de gasolina que ele trabalha em São Caetano. Eu dispensei, o que era relativamente raro. Antes de sair, ela me deu um conselho: Se eu não gostei do final, eu que mudasse. E eu fiz.


Aquela foi a primeira vez que decidi seguir o conselho de minha mãe e ele mudou minha vida completamente. Eu sabia o que eu queria fazer para mudar o final e escolhi escrever. Naquela época eu era viciada em ler no Wattpad, uma plataforma online de leitura e criação de histórias originais e fanfics. Aquela seria a primeira vez que escreveria uma história. Para ser sincera, não durou mais de dois capítulos e nunca cheguei a publicá-la. Mas o primeiro passo havia sido dada em uma direção que eu não poderia prever o que aconteceria.


Eu fiquei fascinada em saber que eu poderia criar histórias, que escrever era quase como ler, com a diferença que eu decidia o que aconteceria. Tolo engano meu, pois pouco tempo depois descobri que você escuta uma história e não a cria. Todavia, vamos não vamos pegar no pé da Yasmin de 12 anos e poucos meses.


Eu cheguei a criar ainda, escrevendo pelo meu celular, duas histórias. Uma baseada nos meus sonhos, tão incoerentes naquela época quanto hoje em dia. Depois outro que misturava realidade e ficção, meu tipo de fantasia preferido até hoje de escrever. Essas histórias chegaram a ver a luz do dia, quero dizer, foram publicadas nessa plataforma. Porém, depois de um tempo, eu apaguei todas, menos uma: Rainhas de Sangue Irmãs de Coração.


Uma fantasia feudal com realidade onde minha melhor amiga e eu erámos as protagonistas. Era incrível e eu não me matava mais escrevendo capítulos pequenos no meu provável Moto G2. Eu mudei da tela apertada do smartphone para a grande do computador que ficava no meu quarto na minha escrivaninha. Não sei sinceramente o porquê de eu não ter começado a escrever por ele, era muito mais confortável e eu já tinha há anos o bichinho.


Eu sempre fui criatura noturna então aproveitava a partir das nove da noite até um pouco mais da meia-noite, às vezes uma da manhã, para escrever. Eu começava ouvindo Smooth Criminal versão Glee porque minha melhor amiga amava e eu passei a amar essa música também. Minha postura era ótima; meus dedos, rápidos. Não via as horas passarem. Meu pai chegava mais das dez da noite do posto, principalmente quando minha mãe, técnica de enfermagem, estava de plantão. Ele chegava, comia, assistia alguma coisa, fumava uns cigarros às vezes, me via, beijava minha cabeça, via que eu estava escrevendo e dizia para eu não ir dormir tarde. Eu dizia que sim, que não deveria se preocupar, mas muitas vezes eu escutava o ronco dele a música do rádio que ele escutava enquanto escrevia.


Terminei Rainhas de Sangue, que não tinha mais Irmãs de Coração e já havia passado por mais de dez capas, todas feita por mim, até aquele momento. Não me lembro com precisão a data, mas devia ser no primeiro dia de aula, cinco de fevereiro ou sete, do meu nono ano. A história já havia sofrido diversas revisões e modificações e hoje em dia está caminhando para sua última para que uma promessa seja cumprida.


Nono, eu disse. Nono ano foi meu último ano no sobrado, que havia sido pintado de lilás. Era o ano que meus pais finalmente iriam se casar. Iriamos para Bahia, eles se casariam no São João depois de mais de dez anos juntos, olha que eu iria fazer 15 naquele ano e meu pai sempre esteve comigo. Mas uma grande tristeza aconteceu. Triste para mim que ficou, mas eu sabia que um dia aquilo aconteceria, pois não é possível fugir de tudo, menos da morte.


Aos 45 anos meu pai morreu de AVC. Sábado de manhã eu voltava do ballet com ele, era um dia quente e a gente estava a pé. O carro tinha sido roubado meses antes, mas não era um grande problema. Passamos numa quintada e na padaria, onde ele comprou um chá gelado de limão para mim. Descobriu que eu amava chás gelados de limão. Disse que compraria para mim outros chás gelados no serviço dele. Naquela mesma noite, enquanto eu, minha tia e minha mãe estávamos assistindo, alguém ligou. Não lembro quem atendeu, deve ter sido minha mãe, só sei que logo que desligou, mãe saiu. Ela foi no serviço de pai, ele estava na ambulância e eu fiquei com minha tia esperando notícias.


Meu pai tinha muitos problemas de saúde, mas ele estava saudável naquela época. Ninguém entendeu como aquilo pode ter acontecido. Fui apenas um dia para o hospital, não o vi, tirei fotos das flores em frente ao hospital porque sempre perdi o foco muito fácil. Depois a única coisa que me lembro é de estar na casa da minha melhor amiga e passei segunda o dia inteiro até terça de tarde com ela. À noite um parente meu me buscou e fui para casa, lá tomei banho, chorei e esperei. No dia seguinte eu, à tarde, saindo do banho, descobri que meu pai tinha morrido na terça de noite.


Não sei quando exatamente eu fiz a promessa de publicar Rainhas de Sangue, mas eu fiz. Anastásia, minha protagonista, tinha perdido a avó, viveu o luto e eu também.


Meu pai doou seus órgãos, eu fiz vigília de noite, o mundo mudou para mim, eu o enterrei, mas até hoje ele não saiu de perto de mim. Hoje escrevo isso com seu casaco do São Paulo porque a minha história envolve a dele e meu futuro também. Agradecerei minha mãe, minha tia, meus amigos e professores quando eu finalmente o livro, mas somente dedicarei para meu pai.


Ele foi provavelmente a pessoa que mais me viu escrever até hoje. A memória, vida e nome são a razão de não me desapegar de uma história que foi a razão de eu estar aqui. Meu primeiro livro que encerrei e descobri que eu poderia escrever histórias que inspiram os outros e a mim mesma. Rainhas de Sangue. Uma vida de histórias me formaram e nunca poderei me desfazer delas, apenas as abraçar, como tudo que faço até hoje nos meus quase 18 anos. Quase seis anos com o objetivo de ser uma escritora e outros sonhos que agregaram aquele da pré-adolescente. Hoje histórias me movem, elas são o que sou e quem desejo ser até o fim.



Yasmin Lula Souza é participante do projeto É DIA DE ESCREVER e integra o Grupo de Jovens.


Segue ela lá no instagram @yas_ls17.

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