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Sem Cor, Na Rua, A Vida...


Morador de rua num cenário sépia
Pessoas que a gente não vê (Imagem gerada na ferramenta mídia mágica, no Canva)

Acostumara sua vida na rua. A calçada da cidade era a sua casa. Andava daqui para acolá, buscando a sobrevivência no resto de outros. No rastro de alguma dignidade, acostumara-se a viver.


Acostumara-se a ferir as pessoas com facilidade assustadora, sem sombra de remorsos. Sombrio era seu jeito de ser. Acostumara-se à escuridão dos pensamentos. Vestira de preto a própria alma. O preto tornara seu mundo opaco. Não merecia a luz. Iluminava-se com o pensar enegrecido, e o manto negro do ser cobria qualquer luz à sua volta.


Acostumara-se com o marrom da dor, com o vermelho da morte que assistia na porta de casa. Não havia cores alegres no seu mundo. O verde da natureza misturara-se ao escarlate da sua angústia e trazia-lhe o marrom da monotonia. Assim viveria, assim morreria.


Acostumara-se com “nãos”, e não acreditava não os merecer. Não merecia o sol, porque não conhecia o amarelo da inspiração. Não enxergava o azul, porque não havia céu no seu espaço. Não sentia o branco, porque seus conflitos internos tiravam-lhe a paz.


Quando seus pensamentos gélidos se juntavam ao fogo da sua raiva, sua alma inebriava-se com a fumaça cinza da solidão. Marcas roxas em seu corpo pálido denunciavam a traição, mostravam-lhe a razão.


Acostumara-se, e, assim, era quase feliz — não sofria, por não querer ser diferente. Sentia-se igual a todos os outros, dentro do espectro de cores que poderia sentir. Ser diferente era ser igual aos outros, que pensavam ser diferentes encharcando-se com o brilho falso do poder. Assim, os outros ofuscavam a própria essência marrom, enegrecida com o manto etéreo da felicidade furta-cor.


Ser igual era acostumar-se a ferir, sem remorsos, para se defender da indiferença. Ser diferente era ainda ser carente de cor, mesmo amortecido pela dor, e corroído pelo desamor.


Talvez nunca conhecesse o magenta do desejo, nem o púrpura da paixão ou o violeta da sabedoria.


Mas conhecia-se bem. Acostumara-se em viver na rua.
Era a sua casa,
o quadro sépia da sua imaginação.



 

Goretti Giaquinto

Desafio #66 de 365

(Texto de 2013)

Tema: Folga da caneta

Meio da semana e a cabeça tá como?

Escreva o que quiser, como quiser e do tamanho que quiser

 

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1 Comment


Texto lindo👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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