top of page

Mandando Ver!

Marina estava muito abatida, pelo término de seu namoro de cinco anos com o Felipe. Para piorar seu ânimo, ela teria que participar da festa de confraternização do congresso, que participara nos últimos dias. Seria um jantar formal, onde seus colegas levariam seus respectivos pares, fechando as atividades da conferência médica, que durara quatro dias.


Quem ela levaria para o jantar? Pensou em não participar, mas fora intimada por seu chefe a estar presente. Além disto, era uma chance para networking, tão importante na sua profissão. Não era de ter muitos amigos homens, suas amizades eram poucas mulheres, que recusaram seu convite para ir. Pensou, repensou, e decidiu pelo Roberto, que aceitou o convite de imediato. Ele era distinto, tinha um bom papo, grande amigo e companheirão de longa data. Era gay assumido, e achava que era importante ela saber que "ele iria embora logo, se a reunião fosse careta".


(Referência: Imagens de Mídia do WIX)



Como o jantar era muito formal, ela pediu para ele maneirar

na escolha do seu terno, já que ele adorava roupas

coloridas e bem leves, tão importantes no calorão insuportável de verão do Rio de Janeiro. Os colegas eram muito chatos com relação a dress codes. Ainda, ela pediu para ele ser discreto - não que ela se importasse pelo fato dele ser assumido, mas ela queria evitar dar desculpas para os outros, sobre seu acompanhante - o  (Referência: Imagens de Mídia do WIX)

ambiente era muito formal, e fofocas iam longe

no meio em que ela fazia parte, naquela época nos anos 80.


Já na festa, foram logo convidados para sentar na mesa do chefão onde ela trabalhava. À mesa, além do boss, estavam outras pessoas importantes e a filha do chefe, a Mônica. Que foi logo perguntando para Marina se o Roberto era seu namorado. Parecia que o charme de seu amigo estava fazendo sucesso, logo de saída. Marina esclareceu que ele era seu amigo querido de longa data.


A conversa na mesa fluía bem, o jantar estava delicioso. Foi então que as luzes do salão apagaram, e a música começou a esquentar a atmosfera. Mônica convidou o Roberto para dançar, e ele disse não. Ela não entendeu direito o porquê. Vale a pena um parêntesis aqui: na época, ser gay não era uma escolha fácil, e as pessoas não eram muito abertas sobre o fato. Piadas eram contadas, sem respeito pelas pessoas. Roberto preferiu ficar quieto - mas confidenciou à Marina que não iria dançar com "aquela perua", que "estava dando em cima dele descaradamente". Para aliviar a tensão, Marina puxou os dois para a pista de dança.


Mônica se insinuava para o Roberto, e ele disfarçava e corria para o outro lado do salão, aproveitando o ritmo alucinante da música. Marina tentava puxar todos para o grupinho deles, no meio da pista. Até que o DJ mandou ver o que era considerado o hino dos gays, na época - a música YMCA, do Village People. Roberto se soltou, e quando Marina olhou, ele estava se esbaldando na pista com o colega do terno pink - que era assumidamente gay. Ela largou os dois na pista, puxou a Mônica para a mesa, dizendo que estava cansada. Na mesa, Mônica ficou quieta, e logo em seguida, ela e o pai saíram, de mansinho.



De volta à mesa, Roberto disse: "minha amiga, deste mato não sai cachorro". Sem entender direito, ele teve que lhe explicar, apontando para um monte de colegas dela, acompanhados de suas respectivas esposas: "vê aquele ali? Gay. Aquele outro? Gay". E mostrou para ela um monte de número de telefones, que ele colecionou na pista, enquanto se embalava no ritmo frenético da música-hino.


Foi então que Marina tomou uma decisão: daquele dia em diante, o Roberto seria seu companheiro preferido, para lhe indicar os possíveis candidatos-a-futuros-namorados. Assim, ela pouparia tempo e desgaste, por relações sem perspectiva futura de rolarem.


A festa tinha sido boa, afinal. Sorridente, ela agradeceu ao seu grande amigo pela companhia, já marcando para aquele final de semana uma saída a quatro.




 

Gattorno Giaquinto


# Desafio 82/365: Folga da Caneta

1. Texto livre de tema e caracteres;

2. Mostrar qual seu tipo de escrita preferido.


 

Gosto de escrever com pitada de humor, respeitando as diferenças entre as pessoas. Este texto deve ser interpretado como tal, e em nenhuma hipótese ser um texto deletério à imagem de pessoas com outras preferências sexuais.


Este é o meu estilo preferido. Humor, sempre.

Recent Posts

See All

댓글


bottom of page