top of page
AD.png

Vizinhos, ZAP, Drogas e Quem é Mais Draconiano


Ah, o deleite de viver na rua de brancos, herdeiros e facistas da região do Butantã/SP. Um recanto “idílico” onde as cercas vivas e portões são mais altos que os princípios morais dos seus residentes. Não me interpretem mal, sou um mero observador, um redator em desgraça - uma espécie em extinção nos dias de hoje. Esta rua é um zoológico social, um microcosmo dos delírios conservadores que permeiam nosso país. 




Minha mulher, achou de bom tom (assim que nos mudamos) e que nos seria útil participar do grupo de WhatsApp da rua. Uma verdadeira ópera bufa, onde a tragédia e a comédia se entrelaçam com o mesmo descaso.


Por aqui, nesta rua, vivemos o drama dos “Crakudos” (como costumam dizer no grupo). Para eles, bandidos da pior espécie que nem uma bala na cabeça merecem. Para mim, um grupo de almas perdidas que a sociedade decidiu ignorar e punir, ao invés de ajudar. Não que eu concorde com o que eles fazem, mas também não concordo com a solução arranjada para resolver este problema. Os “Crakudos”, que vivem nas câmeras de segurança dos vizinhos desfilando suas camisetas de futebol, começaram a invadir as casas para roubar itens banais. Mangueiras, escadas, qualquer coisa que pudesse ser trocada por um pouco de alívio temporário e uma viagem de algumas horas. A resposta da nossa distinta vizinhança? Uma histeria coletiva digna de nota. E quando digo "nota", quero dizer uma que valeria a pena reportar, se os jornais ainda tivessem interesse em algo além de manchetes sensacionalistas.


O grupo de WhatsApp da vizinhança é uma arena de gladiadores digitais. O mote de sempre? "Bandido bom é bandido morto." Não se fala de outra coisa. Não dividem receitas, não organizam festas, não limpam a rua, não falam sobre outros assuntos que não seja "Como Matar Esses FDP". Cada mensagem parece competir para ver quem pode ser mais draconiano. A ideia genial - e digo isso com uma ironia que poderia corroer metais - foi contratar policiais para fazer uma "limpeza" …ops, alguém deixou escapar essa palavra ao invés de “Segurança” da rua. Perguntei, ironicamente, se os seguranças trariam escovas e vassouras para tal limpeza. A resposta chegou prontamente: “Vão vir com com balas, não com escovas, caro vizinho do 137”. 


O fascínio mórbido desses vizinhos (e de parte do planeta) pela violência não é surpresa. A disposição que alguns nos tempos de hoje tem para matar e morrer é incrível. O que também não é surpresa é o quão cegos são para a realidade  de fora dos muros de suas casas os que cresceram em berço de ouro, herdeiros de fortunas, privilégios (pela classe e cor), ou apenas herdeiros de belas casas grandes em bairros de classe média das quais não conseguem pagar IPTU. Para eles, a ideia de que alguém pode ser levado ao vício por uma mistura de desespero, falta de oportunidades e um sistema de saúde falido é tão alienígena quanto a possibilidade de lavar as próprias roupas e agradecer um garçom.


Acéfalos!

Malditos!

Repugnantes!


Um deles teve a coragem de anunciar no grupo que comprou uma arma e a próxima vez que visse sua casa invadida ou cruzasse com um “Crakudo”, não iria economizar em balas.


Me sinto mais em perigo com estes vizinhos armados do que com a circulação dos viciados.


Tentei uma, duas, três vezes argumentar e propor outras soluções para nosso problema da rua, mas nada que não termine em morte, linchamento ou prisão é eficaz e justo para eles. O que eles ignoram, ou escolhem ignorar, é que a violência gera mais violência. Estudos e políticas aplicdas em outros países mostram que combater drogas e vícios com educação, cultura e saúde é muito mais eficaz do que transformar ruas em zonas de guerra. Portugal, por exemplo, descriminalizou todas as drogas em 2001 e investiu pesado em tratamento e prevenção. Resultado? Queda significativa no consumo problemático de drogas, nas mortes por overdose e inclusive na diminuição da incidência do HIV. Mas, claro, ciência e dados são coisas triviais demais para nossos justiceiros do Butantã.


E então, temos a cereja deste bolo amargo: A polícia (raça do caralho, como diria o poeta). Ah, sim, a polícia, braço direito, esquerdo e pernas da força de repressão da elite branca. Não é coincidência que as vítimas de violência policial sejam, em sua maioria, pessoas negras e pobres. Nossa rua, majoritariamente branca, herdeira, de descendência oriental, não enxerga o próprio privilégio e, portanto, não compreende as raízes da desigualdade e do vício.


A cereja no topo desse bolo de insanidade é a falta de consciência. Cada vizinho, no fundo, acredita estar no lado certo da justiça, sem perceber que são, na verdade, cúmplices de um sistema que perpetua a miséria e a violência. A noção de que matar é uma solução justa é a doença real, uma que nem todos os medicamentos do mundo poderiam curar.


Então, aqui estou eu, narrando essa tragédia com a amargura de quem vê a irracionalidade humana se desdobrar dia após dia nos portões ao lado da minha casa. Falei no tal grupo do whats sobre o meu temor de que uma destas armas vizinhas, ou que a tal “Segurança / Limpeza” feita na rua pudesse atingir amigos e familiares pretos e pretas que tenho, e a resposta que tive neste grupo foram risadas, pedidos para não fazer deste problema da rua uma pauta da esquerda e que se forem “pretos do bem”, não precisam temer nada.


Olha, serei franco, mas se "for do bem" for andar ao lado destes vizinhos, prefiro sentar no colo do capeta.


A nossa rua é um microcosmo de um país que ainda não aprendeu que a empatia e a compreensão são armas muito mais poderosas do que qualquer bala. Mas, enquanto isso, o grupo de WhatsApp segue fervilhando, uma panela de pressão prestes a explodir, enquanto os verdadeiros problemas continuam a ser varridos para debaixo dos tapetes persas sujos, furados e herdados de seus luxuosos lares.


Desconsolado,

Bob Wilson



2 comentários

2 comentarios


O problema continua sendo "os outros"...😔 Ninguém acha que pode fazer algo. Melhor sair desse grupo, se é que pode ser chamado de "grupo".🤔

Me gusta
Bob Wilson
Bob Wilson
24 may
Contestando a

Já pensei várias vezes em sair desse grupo. Mas confesso que me alegra ver a hipocrisia desse povo desesperado por justiça sendo eles também criminosos em algum nível contratando policiais para fazer esse tipo de serviço, instalando seus gatos de internet, tv a cabo, parando seus carros em cima da calçada, na contramão. Gosto também de provocar o caos no grupo ao meu modo sendo uma voz contrária a tudo ali, gosto de saber o rostinho de quem mora em qual casa...Enfim, essa tortura faz parte dos meus pequenos prazeres da vida rs.

Me gusta
bottom of page