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Um Carnaval do Além-Terra



Carnaval. Todo um ano sonhando para me esbaldar na folia dos quatro dias, e tudo acabar na quarta-feira...


Mas, hoje é sexta-feira e tem encontro de blocos pre-carnavalesco. Participo anualmente do Bloco dos Sem Rosto, que a cada ano atrai mais foliões. Todo mundo tem que usar uma máscara que não seja de ninguém conhecido. Não vale por a máscara do Trump, ou de algum personagem de quadrinhos. Tem que ser uma máscara do João-ninguém, ou Joe Doe – assim chamada, pelos policiais, a vítima sem identificação nos seriados de crimes da TV.


Encontrar uma máscara assim é difícil pra caramba. Pensa que é fácil encontrar uma máscara de alguém que a gente não associe a um nome? Nana-nina-não! Mas encontrei a minha, lá na lojinha da esquina que vende artefatos para festas de crianças. Lá,as máscaras tem que ser bonitas, para não assustar as criancinhas; mas tem uma área escondida, onde podemos encontrar máscaras de monstros, tipo bicho-papão-sem rosto, onde somente vai lá quem sabe das coisas.


Saio de casa cedo, para não encontrar trânsito, e já vejo um monte de gente com máscaras de João-desconhecido, algumas interssantes e outras nem tanto. Chego no ponto de encontro, onde a orquestra fajuta já tá no esquente. Orquestra assim é muito bom, carnaval de rua não é para ter coisas muito certinhas, tem que ser mais pro tipo esculhambadinhas para a gente ficar doido de pedra, e bem bêbados – se você tá sóbrio, procure outra turma, vá para uma praia chique ou pro cinema, porque o lema número 1 deste bloco é o de “entre bêbado e saia trocando os pés pela cabeça”.


Encontro meu pessoal – reconheço o grupo porque é o que está mais bêbado àquela hora do dia. Depois dos cumprimentos entusiásticos, saímos atrás do grupo maior, fazendo a maior baderna e arruaça permitida - ou seja, sem dar motivo para sermos presos.


Cumprimentamos os outros grupos na maior farra, e tome mais bebida guela abaixo. O sol tá forte, suamos muito, então temos que manter a ingestão de líquidos constante – no caso, qualquer bebida exceto água ou refri.


Bagunça geral, todo mundo no maior pique. Olho em volta e noto algo estranho. Será que alucinei? Esfrego os olhos, tentando focar melhor. Não, tô vendo certo, não alucinei. Olho à minha direita para chamar a atenção dos amigos, mas todo mundo tá doidão, e o barulho tá demais. Olho de novo pra me certificar do que vejo. Daí me apavoro com o que vejo. Saio correndo, finjo que não vi, enfrento? Não precisei decidir. De repente, como se tudo fosse coordenado, todo mundo começou a olhar e ver.


Uma luz que começou fraquinha se intensificou, como uma névoa envolvendo todo mundo. Houve quem gritasse, mas no geral todo mundo paralisou. Olhei para cima como que para pedir ajuda divina, e choquei. Tinha um disco voador, UFO, OVNI, dê o nome aos bois que você quiser. A gente tava embaixo do dito cujo e ninguém havia se dado conta. Nessa hora, vi mais gente olhando e deixando a máscara cair – literalmente.


Não deu nem tempo pra resistir. Fomos abduzidos em 30 segundos. Ou 1 minuto. Ou seja lá o quanto foi, mas foi. A coisa foi rápida, e eu nem me dei conta que aquele grupo com máscara de marcianos eram marcianos. Ou de outro planeta, sei lá. E pensando bem, tinha mais deles à volta da gente,me dei conta, quando a minha máscara caiu.


Não sei muito bem o que houve depois, sinceramente. Os gritos forma abafados. Quando nos demos conta, estávamos num outro planeta, acho. Não era Marte, porque a areia não era vermelha como dizem. Parecia com a terra, melhor cuidada. Será que estávamos num Universo Paralelo?


Pra encurtar a história (e não fazer vocês dormirem com meu relato), a abdução existiu, de verdade. Fomos transportados por invasores travestidos de marcianos, que nunca deixaram a máscara cair.


Mas, sabe o que e por que?


Neste planeta-que-não-sei-onde-fomos-parar, o pessoalzinho queria mais era se esbaldar com a gente no carnaval. Eles entraram na folia, brincando sem parar, derramando um líquido de não-sei-de-onde que a gente engolia somente abrindo a boca, com gosto de tudo que é bebida que você possa imaginar. Pense num uísque de uma cacetada de anos – parecia ser o cara. Ou cachaça da melhor marca, não aquela fajuta e baratinha. Você se concentrava e bum, o gosto era daquela bebida.


Tinha lança-perfume da melhor qualidade, que eu jamais tinha experimentado na vida. Serpentina que não sei do que era feita, e confeti. Se eram pedaços de papel, não eram mesmo. Pedaços de pele humana, talvez? Resolvi nem pensar. Pra não acabar com a fantasia. E sofrer por antecipação.


 


Gattorno Giaquinto

#39: Invasão Carnavalesca



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