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Solidão a Dois na Madrugada





Nunca se sentira tão sozinha. Sim, ela vivera a maior parte de sua vida sem muita companhia à sua volta, mas agora era diferente. Aquele lugar estava despertando nela toda uma gama de emoções que há muito tempo não sentia. Seu rosto estava encovado, e sentia as rugas do seu rosto acentuarem, mesmo sem se olhar no espelho.


Era madrugada e ela estava acordada – quando deveria estar dormindo, em sua confortável cama. O cubículo em que se encontrava era despojado de móveis. Apenas um trolley que servia de cama, com colchonete fino, sem nenhum lençol no colchão nem para cobrir o marido. Ele reclamava o tempo todo, querendo ir para casa. Ela, firme, dizia para ele ficar quieto. A dor emocional era maior do que a física. Ele sabia que tinha pisado na bola feio.


Sentada numa cadeira de ferro desconfortável, com muito frio – porque tirara seu casaco para cobrir um pouco o esposo, e estava com pouquíssima roupa por baixo -, seus dedos pousavam no pulso dele, para acompanhar o ritmo do coração. Sabia ser necessário, porque não tinha nem um monitor cardíaco no pequeno espaço dedicado aos pacientes. E era parte do protocolo detectar arritmias do coração, depois daquele acidente. Mas, sem o aparelho, ela pensara, seus dedos fariam o papel da máquina. Não tão sensível, sabia, mas era o que dispunha naquela madrugada, num lugar não familiar, evidentemente mal equipado.


Nenhum quadro nas paredes frias, o que era esperado no decadente hospital público. Sem janelas para fora, apenas um basculhante minúsculo que dava para algum lugar, provavelmente cheio de baratas. Seu corpo começou a tremer, com a visão de alguma barata voadora adentrando o espaço. Nem queria pensar nisto. Uma porta dava entrada para o ambiente, mas não permitia ver outros quartos ou salas. Não via ou ouvia nenhum movimento de enfermeiros, nem de médicos. Apenas um deles veio checar o marido, no começo. E uma enfermeira, para colocar o soro no braço dele. Depois disso, nenhuma viva alma se aproximara. Ela mesma teve que trocar o soro, quando este acabou.


Sem muito mais o que fazer, olhava à sua volta para detectar as minúcias do quarto. Paredes descascando, pela umidade. O hospital era perto de uma praia, e a cidade oferecia clima quente e úmido. Naquela noite, para piorar, caia uma chuva forte e constante. Que havia contribuído para o acidente. Ela começou a relembrar tudo, e afastou a lembrança com um movimento da mão no ar - como se isto fosse apagar da sua memória o que havia acontecido, algumas horas antes.


O ferro dos pés da “cama”e da cadeira apresentava sinais do tempo, com partes de ferrugem aparecendo sob a pintura branca. Começou, inconscientemente, a descascar os pedaços da pintura, para focar sua mente no momento. O chão começou a ficar sujo com os pedaços descascados, mas ela não se importava. Era como se fosse sua vingança pessoal contra aquele ambiente inóspito. E uma maneira de passar o tempo. Enquanto suas unhas faziam o trabalho freneticamente, tomou uma decisão. Não queria ter que passar por aquilo, de novo.


O amanhecer trouxe, finalmente, um médico, com o resultado dos exames solicitados na admissão.


- “Seu marido precisa ficar mais tempo hospitalizado. Os exames de sangue estão alterados”.


- “Obrigada doutor”. Ela agradeceu o médico – no íntimo, xingava-o por não ter feito o trabalho correto. Como ele tomara a decisão de manter o marido, se nem se aproximara para examiná-lo? Nem naquele momento, nem antes, vira o jovem plantonista fazer um exame minucioso, nem sequer cobrira as feridas expostas com curativos.


Com firmeza, ela tomou os papéis com o resultado sos testes das mãos do jovem, acordou o marido, recolheu seu casaco, e pediu para assinar a papelada de alta à revelia. Seria melhor ela mesma checar as condições do marido em casa, sem aparelhagem, do que permanecer naquele hospital desumano.


Encaminharam-se para a porta, a contragosto do jovem plantonista. O marido ficou pálido, ela notou. Não deu tempo para mais nada.


 

(referência de imagens: unsplash, no wix; youtube audio:https://www.youtube.com/watch?v=czjk2V8d1Rc )


Gattorno Giaquinto

#51: O que se Sente, Mas não Enxerga

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3 Comments


Cátia Porto
Cátia Porto
Feb 22

Caramba! Fiquei curiosa...

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Que bom que ficou… queria terminar com um impacto ( na vida real, o impacto foi menor😉)

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Noite de horror...😬

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