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Razão x Preconceito


Mulher trazendo bagagens internas e sonhos
Nossos sonhos não podem ser descartados por outros

Imagem gerada com IA na plataforma de Dall-E 3


Entro no elevador, no prédio onde moro, e uma mulher me olha de cima a baixo. E solta uma pergunta:


–– Você vive de quê, mesmo?


Olho inocentemente para ela, e respondo:


–– Ajudo a realização de sonhos. Sou arquiteta.


Esse fato me remonta ao tempo em que esperava à porta do colégio, para pegar meu filho, escutando a conversa entre as mães paulistanas que reclamavam que viver em Recife era um caos. O motivo? Não encontravam o que queriam nos supermercados e lojas. Eu as ouvia, muda, até que um dia não aguentei, perguntei por que ainda moravam na cidade. Na minha cidade. Elas me olharam de cima a baixo, sem responder. Me ignoraram. Tive de me conter para não mostrar o lado "cabra da peste" que gritava para se mostrar.


De novo, me sentia excluída. O elevador me levava à minha casa, no interior de São Paulo. Larguei a cidade onde nasci, para trabalhar na área em que me formei. Fiz um trajeto que muitos fazem. Homens, mulheres, pessoas que agarram oportunidades.


A mulher que me perguntou o que eu fazia da vida só me encontrava no elevador, quando eu saía ou voltava do trabalho. Nunca me deu um bom dia sorridente, nem falou do tempo ou outras bobagens típicas para superar constrangimento de morar junto de desconhecidos. Nunca nos encontramos numa reunião de condomínio –– primeiro, porque locador não podia. Depois, porque ela nunca ia. Era esposa de um primo de um político corrupto, que, por sinal, era dono do apartamento onde ela morava. Eu soube depois, mas nunca devolvi a pergunta pra ela.


A mulher do elevador representa a parte de nós que rejeita, que julga, que se acha superior. Um olhar atravessa sentimentos, dispara palavras sem som. Grita a inconveniência de suportar diferenças sequer existentes. Um olhar que engaiola e desnuda, que invade a privacidade sem empatia, desvendando a curiosidade que empacota preconceitos ilegítimos. Mentes que alimentam personagens separatistas, arcaicas e prejudiciais à convivência saudável.

Esse gatilho me traz à mente os conselhos que recebia de minha irmã, que emigrou primeiro para esse Brasil fora de época. Quando ia visitá-la, recebia o conselho de dar ao taxista o endereço para onde iria, e fechar a boca. Para não ser enganada pelo motorista, que, descobrindo minha origem, certamente faria o maior trajeto, pra me enrolar.


Carrego meu sotaque nordestino e minha luta diária sem culpas, mas lembrar desses momentos de exclusão, em pleno século 21, me faz perceber como o preconceito ainda existe. Independente de gênero e região. Pensar na pergunta no elevador ainda baixa minha resistência, me iguala aos que lutam por um olhar imparcial, amoroso, que desnude preconceitos e dê liga à empatia. Me desperta muitos gatilhos:  mistura sentimentos de inferioridade –– impostos quando nascemos fora do sul e do sudeste do Brasil –– com lembranças do quanto penei para chegar aonde estou.


Tenho orgulho em ser uma imigrante que conseguiu se aposentar com dignidade e trabalho árduo, na própria área de minha formação. Sem depender de outros, numa luta pela afirmação pessoal e profissional como milhões de brasileiros que refazem seus lares em terras com maiores oportunidades. Que abandonam o que têm para ganhar o que podem vir a ter, mesmo que seja obtido com suor e lágrimas. Que passam uma vida inteira para dar à família o que deveria ser básico.


Igualo-me aos sobreviventes do holocausto que dizimou parte de uma população em prol de uma depuração ideológica. Sinto um olhar de desprezo, que me diz que não pertenço àquele lugar.

O neuropsiquiatra Víktor Frankl descreveu, em seu livro Em Busca de Sentido (https://www.ebiografia.com/biografia_viktor_frankl_criador_logoterapia/) sua experiência em campos de concentração nazista. Suas perdas e sofrimentos, compartilhados também por outros sobreviventes do holocausto, transformaram-se em desafios que transmitiu através do livro. Levantou uma questão motivacional que transcende linguagens: acreditar nos outros e em si. Ressignificar. Fazer a diferença na vida de outros. A abordagem do livro traz reflexões de sobrevivência: o propósito que nos faz sobreviver às barbáries de nossas vidas, e que moveram os sobreviventes à vida, durante e depois do inferno nazista.


O propósito de vida. O que faz uma pessoa não desistir, mesmo em condições inimagináveis de sobrevivência como as que os judeus enfrentaram nesse período. Ou como a dos civis que estão desviando de bombas e explosões durante essas guerras irracionais que (ainda) acontecem no mundo em que vivemos.

O holocausto foi uma forma cruel de preconceito que vitimizou inocentes sob uma falsa, incorreta e desprezível percepção de limpeza genética. As guerras que persistem neste século também se baseiam em conceitos irracionais de dirigentes ou de grupos que insistem ser correta a sua visão. Isso ainda está impregnado. E talvez demore a desaparecer, infelizmente.


Lembrar de minha luta pela afirmação num outro lugar onde não nasci me traz questões em aberto.

— Quantas vezes os preconceitos ainda vão matar –– física, moral e emocionalmente?

— Quantas vezes ainda vai persistir a opressão pela distinção, propiciando massacres aos civis que querem viver em paz, como todos queremos?

— Mais a fundo, para que impor opiniões que separam, enquanto somos meros invólucros de universos desconhecidos com propósitos semelhantes de qualidade de vida?  

— Somos diversos, mas não individualistas. Ou não deveríamos ser. Podemos conviver com opiniões contrárias às nossas, mostrar pontos de vista sem brigar, não podemos?


Eu ainda acredito nisso. Alguns preconceitos que aguentei me arrancaram forças e me transformaram. Foram brigas internas para aceitar o que eu não podia controlar. Baixei a cabeça e chorei . Não fiz do que não agradava outras pessoas, o motivo para disparar a metralhadora. O baixar a cabeça nunca foi uma bandeira da paz, mas o recolhimento para repensar as estratégias do viver. Sofri guerras internas. Mas não me armei.


Impor não traz mudanças.
Impor não faz crescer.
Impor não traz liderança.

O processo deve respeitar propósitos individuais necessários e — por que não lembrar — inseridos no livre-arbítrio que nos diferencia. Nas escolhas que fazemos a cada minuto, levando-nos às jornadas que nos transformam, mesmo que, como filhos pródigos, retornemos ao ponto de partida. Amadurecemos.


Ninguém se perde no caminho da volta.
Só erra quem ousa.

Frases que, muito além de motivacionais, me relembram o propósito que me impulsiona. Mesmo sem saber se será alcançado. A despeito de comentários maldosos, de pensamentos trazidos pela própria história de cada povo, não podemos nos furtar a iniciar mudanças em nós, para gerar as mudanças nas gerações futuras.


Ou viveremos outros holocaustos. Mais guerras ceifarão vidas inocentes. E teremos mais vizinhos alienados pelo isolamento social que só demonstra a falta de estudo da história do Brasil, do Mundo, e da vida que se desenrola na porta ao lado.

Respondo a perguntas fora de propósito com um olhar tranquilo, direto nos olhos de quem pergunta, mesmo que, internamente, gritando:


–– O que você tem com isso? Quer pagar minhas contas?



 

Goretti Giaquinto

Desafio #27 de 365

Encontro em memórias do holocausto


 

Referências e sugestões de livros/filmes sobre o holocausto:


Em Busca de Sentido - Víktor Frankl (Livro)

A menina que roubava livros – Markus Zusak (Livro e Filme)

O Menino do Pijama Listrado – John Boyne (Livro e Filme)

A vida é bela (Filme)

Violências retratadas para não serem esquecidas nem repetidas ...




































































1 comentário

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1件のコメント


Gattorno Giaquinto
Gattorno Giaquinto
1月31日

Agora vc tem que me mandar os pdfs dos livros que não li…. A vida é bela também foi um filme tocante, ganhou Oscar se não me engano ( e o ator)

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