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Quando Pimenta é Refresco Assassino


Alguém comendo uma pimenta
Quando se pode morrer pela boca. Cuidado! (Imagem IA da plataforma DALL-E 3)


— Quem comeu minha marmita? Sumiu da geladeira!


Silêncio constrangedor. Bem no início de mais uma semana difícil.


— Você deve ter comido e se esquecido — alguém grita do fundo da sala.


Ele vai direto para a sala do dono da empresa, que todos pensam apadrinhá-lo.


— Chefe, quero fazer uma reclamação. Não estão me respeitando, estão comendo, sem me pedir, o que deixo na geladeira! — Vadão desabafa, na sala do chefe.


Voltando à sala, ele fica em sua mesa, olham ao redor pra se certificar que não está sendo observado.


— E aí, cabuetou com o chefe? — a colega, MariEva, sentada em sua mesa apartada dos demais, logo pergunta, desconfiada.

— Não te interessa — curto e grosso, ele finda o papo.


Pouco depois, a colega se levanta e sai da sala. Ele a segue com olhar curioso. Sabe que ela também tem as costas quentes.


— Foi falar mal de mim? — ele pergunta, quando ela retorna, mordendo a curiosidade — sei quem você é, nem precisa fingir.


Os colegas sabem que a dupla tem tido embates só recentemente.  Desconhecem o motivo, pois não havia fofocas explicativas. De repente, os dois passaram a ficar estressados entre si, piorando após o episódio de sumiço do que Vadão colocava na geladeira. E que ninguém gostava muito, achavam a comida excêntrica. Só podiam pensar na máxima Quando um não quer, dois não brigam — na tentativa de não se envolverem e piorar o ambiente coletivo.


MariEva e Vadão, os brigões do escritório, tinham um passado em comum, desconhecido pelos colegas do escritório. Eram amantes, antes da mulher do dono entrar na empresa.


MariEva era casada há vinte anos. O marido, dono da empresa onde atualmente decidira trabalhar, passava mais tempo fora de casa do que qualquer mulher apaixonada toleraria. Os primeiros anos do casamento foram bem — porque ele ainda não tinha a tal empresa, que lhe consumia o tempo. Depois de cinco anos, o casamento amornado, e a empresa, recém-montada, MariEva sentiu que não era mulher pra ficar quieta em casa, esperando a traição. Partiu para o campo de batalha, o plano B das que sabem onde o marido recicla o fôlego. Era fogosa demais pra se submeter a uma dieta restritiva. Daí, conheceu Vadão, homem bonito suficiente para a dieta paralela de quem ardia em fome aos vinte anos.


Vadão, escorpiano, sedutor assumido, se considerava o tempero de qualquer mulher em dieta de abstinência. Tempero pra uma ou outra refeição, pois gostava de variar. Solteiro aos trinta e cinco, esperava ficar nesse estágio até sentir que não havia pimenta suficiente para temperar sua vida com a quentura que precisava. Pulava de empregos. Se achava jovem e esperto pra se prender a regras também na área profissional. Até ser contratado pela empresa de transportes que um amigo indicou, onde o seu currículo brilhou. O serviço era desafiante, e batia com sua formação profissional. E não teria que viajar constantemente, somente para cursos de atualização no exterior.


Num jantar de evento comemorativo da empresa, Vadão conheceu a mulher do dono, MariEva, e se encantou desde o momento que o cheiro da fome se misturou em seus olhares.


O encontrou se tornou necessário pra ambos, dentro de suas fantasias gastronômicas. E rendia desde refeições completas a lanches rápidos — com abastança de quero mais. O limite entre os dois, num acordo verbal estabelecido no terceiro encontro — quando ambos sentiram que estava sendo bom demais para parar — era o respeito às suas vidas privadas.


MariEva nada sabia sobre o que acontecia com Vadão, entre os intervalos dos encontros. E vice-versa. Não havia cobranças, apesar de, com a curiosidade feminina despertada a cada encontro-com-gosto-de-repetição, MariEva sentir a carência de exclusividade do menu. Queria Vadão para seu apetite paradisíaco, e o marido, para sua anorexia emocional. Afinal, estava caminhando para a fase em que os homens se lançam a aventuras extraconjugais. Não podia ser vítima na história.


Vadão se permitiu ficar exclusivo, na relação com MariEva, até o ponto de conhecer novos cardápios. Com o posto assumido na empresa, viajava para lugares onde conhecia mulheres com sabores exóticos, que refinavam sua compulsão pela degustação variada. MariEva começou a ficar insossa para seu paladar. E controladora, fugindo às regras assumidas bilateralmente.


Até que MariEva decidiu entrar na mesma empresa onde o marido era o dono. Onde Vadão trabalhava. A mulher era uma dondoca insaciável, e decidiu assumir o cargo na tentativa de controlar os dois homens que pensava ter em suas mãos. Não queria perder o controle da boa vida que levava, estava com a fome saciada com um parceiro que se proclamava temporário — mas que já compunha um menu de degustação com dez anos de excelente adubação.


A entrada de MariEva na empresa desconcertou Vadão. Parte do encanto entre eles se alimentava do furtivo — como bem sabem os que estão em dieta de restrição, e que se ludibriam com assaltos à geladeira no escondido da madrugada.


MariEva, controladora como boa ariana, sentiu cheiro de comida estragada quando o amante começou a desmarcar encontros, e o acordo — que parecia estar a caminho de

dissolução unilateral — mexeu com sua sensibilidade feminina. Podia arcar com os compromissos do marido, mas não com a traição do amante. O acordo entre eles era bom, rendia lucro para ambos, e ela não podia deixar isso se evaporar. A quebra de confiança doía.


Vadão — apesar de não ter assinado nenhum contrato — não queria compromisso, mas também não queria confusão com a mulher do chefão. Iria fazer de um jeito que ela tomasse à frente do rompimento do contrato inexistente. O outro contrato, o que lhe permitia pagar as contas e conhecer alimentos internacionais, era mais importante. Brigar com a mulher do dono da empresa, de onde não queria sair — a despeito de seu gosto de variedade — não estava em seus planos.


Ambos tentavam manter um clima amigável de colegas, na relação manda-quem-pode-obedece-quem-tem-juízo. O passado entre eles não podia ser revelado, nem atrapalhar, ambos sabiam. Mas cada um pensava diferente. Não se conheciam, apesar de um estreito passado em comum.


Vadão tinha um excelente relacionamento com o marido-chefe de MariEva. De vez em quando participavam de happy hours, antes da entrada da esposa na empresa. Até criaram uma relação de amigo-que-desabafa. Vadão sabia de tretas do marido da amante, mas aquele não sabia de nada desabonador por parte do empregado-amigo-de-happy-hour. A velha relação de confiança masculina. Mas qualquer coisa que virasse o caldo estremeceria o lado profissional — e não podia acontecer.


O triângulo — principalmente dentro da empresa — não podia ser abalado. As partes

tinham interesses individuais que abasteciam o coletivo triangular. Não poderia haver batalhas dentro dessa relação. Não poderiam aparecer vilões para estragar o acordo profissional.


Mas vilões não se criam onde não há motivos. E, ali, havia. O triângulo tinha três lados, mas cada vértice se desdobrava em retas com outras direções, ambiente propício para uma guerra onde a ponta fraca era um emaranhado de lados e vértices.


A tensão não tinha como ser controlada, no ambiente profissional. Um olhar, uma palavra, um movimento eram observados do lado onde havia intenções contrárias de maior força: MariEva e Vadão eram o lado do embate de vida ou morte. O marido, o lado neutro, preferia não se envolver. Ou fingia não enxergar. Ou tinha algum trunfo escondido, tão bem escondido, que não transparecia. Aí começaram as picuinhas. O sumiço de comida do Vadão na geladeira da copa, usada por todos na empresa.


MariEva e Vadão tinham o mesmo protetor: o marido dela, o dono da empresa. Que não sabia de nada da tensão entre os dois. Que conhecia a mulher — pelo pouco que passava em casa — e confiava no empregado.


Quando os sumiços da comida se tornaram frequentes, MariEva e Vadão passaram a ter conversas mais frequentes com o marido-chefe. Vadão relatava o sumiço de sua marmita, com cuidado para não transparecer a relação escondida que mantive com a esposa do dono. Mas sabia, no íntimo, que ela era a culpada do roubo, motivada pela quebra do contrato de encontros paralelos, que se tornou bilateral entre as partes, mas sem conciliação.


Vadão e MariEva tinham os gostos semelhantes também na comida — a que se come para alimentar o corpo físico. Era muita coincidência, nenhum outro funcionário tinha o gosto tão peculiar. Só podia ser birra da MariEva, Vadão tinha certeza. Ela queria guerra, por terem encerrado o caso extra de tantos anos. Ele sabia, mas comentava, com o chefe, que alguém

que tinha o mesmo paladar que ele queria ferrar com sua paciência. Torcia para que o chefe entendesse subliminarmente seu comentário inocente, e que, se fosse o caso, punisse a esposa como responsável por birra, sem motivo. Ela não seria maluca em se contradizer como esposa fiel.


MariEva, tranquila, só acompanhava, de longe, as expressões do ex-amante na sala do seu marido. Seu olhar calava intenções. Se tinha uma coisa que Vadão sabia, era esse lado dela: não deixava um ponto sem nó no que fazia. Tinha sido assim por todos os anos que passaram juntos, sem o marido dela desconfiar de nada.


Vadão resolveu agir por conta própria, e resolver o embate da forma que entendia como melhor opção. Mudou o cardápio da comida que levaria para o trabalho. E caprichou na pimenta, que sabia que a ex-amante não gostava. Ansioso, aguardou o momento em que ela, com certeza, se autodenunciaria. Ele nem precisaria ser o dedo duro.


Num dado momento, após uma ligação atendida por MariEva — que, tranquila que estava, certamente ainda não tinha degustado a pimenta — o ambiente ficou agitado. Ela e outros dois funcionários correram para a sala do chefe, que se debatia no chão e a todos assustava.


MariEva chamou a emergência, e se dispôs a acompanhar o marido, chorando, deixando Vadão sem entender o que havia acontecido. Antes de sair, passou ao lado dele, e sussurrou algo, que o deixou mais intrigado.


Assassino! Meu marido é alérgico a pimenta! — e seguiu com os enfermeiros, com ar de viúva inconsolável.



Imagem de mídia do WIX

 

Goretti Giaquinto

Desafio #61 de 365

Tema: Vilões em Guerra

 Crie 2 personagens vilões

Trabalhe e diferencie suas características e pelo que eles lutam

Conto de ação e terror de no mínimo 2.000 caracteres

 

 

 

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2 comentários


Goretti Giaquinto
Goretti Giaquinto
08 de mar.

Melhor uma dieta equilibrada rsrs😉😉

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Nisso que dá quando a gula é maior que a fome🤣🤣🤣🤣

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