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O Que Não Passamos Por Boas Amizades!


Fui à Europa passear com um namorado. Na França, resolvemos visitar um casal de amigos que moravam  em uma  cidade pitoresca. Felizes com nossa visita, passeamos com um deles, enquanto o outro ficou em casa, preparando um jantar tipicamente francês. Chegamos exaustos do passeio, e, depois do banho à la francesa, estávamos prontos para o delicioso banquete.


Saboreamos um vinho leve, para acompanhar a entrada, servida em pratos individuais de porcelana branca, com seis concavidades nas bordas, repletas de um molho que cheirava a alho e ervas. O molho aromático rodeava uma iguaria mole, de cor cinza-amarronzada, em cada uma das concavidades. Escargot, delícia típica da região. Encarei o namorado com olhos suplicantes, pois ele sabia que eu detestava caracol. Com um gesto, entendi direitinho a mensagem: "deixe de ser fresca, coma!".


Para não ser indelicada, abri pedacinhos da baguete, enfiei os bichos com muito molho, fechando o miolo do pão para esconder e, zap, engoli sem mastigar, cada um deles. Umedeci com vinho, para aliviar a descida goela abaixo. Respirando fundo, com gosto forte do alho na boca, procurei esquecer o que havia comido.


O prato principal veio numa travessa  funda coberta com uma tampa, exalando aroma delicioso de especiarias (não pude identificá-las, até hoje não sei cozinhar). A travessa era belíssima, com desenhos coloridos retratando cenas da região. Fiquei encantada, até a tampa ser levantada. Vi um misto de batatas cozidas entremeadas com pedaços de uma carne gordurosa. Nosso amigo anunciou, com orgulho, ser um ensopado de carneiro, receita especial da sua mãe.


Nunca comera carneiro, mas fiquei enjoada ao avistar a gordura sobrenadante. Olhei de novo para o namorado, que repetiu o gesto de momentos antes. Resignada, catei as batatas, tentando separar a gordura do molho, sem as carnes. O ensopado parecia delicioso, todos enchendo seus pratos com elogios. Ninguém notou o meu. Lá se foram mais goles de outro vinho delicioso acompanhando o prato principal.


Esperei pela sobremesa, antevendo uma apetitosa patisserie francesa. Em um prato redondo vieram diversos tipos de queijo, a maioria deles exalando aroma adocicado, com pedaços irregulares de cor azul- esverdeada. Quase cuspi ao por um pedaço na boca, pelo gosto forte. Enchi mais meu copo com o vinho de sobremesa, para diluir os fungos que arrisquei comer.


Todos ficaram empanturrados, menos eu. Dormi com muita fome e bêbada. Mas contente por rever meus amigos queridos.


Gattorno Giaquinto

#20: Comendo com as palavras

 

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