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O Que Há Por Trás de Aparências?

Updated: May 16

Um homem andando na rua, com uma máscara e um aviso
Será que as aparências realmente enganam? (Imagem IA DAL-E 3/ajuste no Canva)

— Excremento!

Essa era a palavra que o vizinho desengonçado gostava de sapecar, quando dava topada na rua, diante de todos. Bastante polido, não conseguia incluir, no seu palavreado esdrúxulo, palavras que considerava ignóbil, de baixo calão, que corrompessem sua inescrutável efígie.


E não adiantava se abismar com essa forma bisonha dele falar, que, por si só, já engendrava da figura um pedido imediato de desculpas, pelo baixo calão proferido tão candidamente.

— Escusem-me!


Papear com o distinto cavalheiro era um desafio fleumático. Precisava da tradução simultânea, mesmo sendo na mesma linguagem coloquial — com alguns séculos de distanciamento. Aliás, um parrudo distanciamento. Chegava a ser hilário ver a cara das pessoas, uma empáfia que seguia o pronunciamento estrambólico.


A via de comunicação com ele ou era lacônica, ou heteróclita. Nada profícuo, já que galhardo se mostrava uma mistura entre ser culto e ser exótico. Numa época em que os jurássicos precisam se atualizar, seria bem mais prático para ele, um senhor aparentemente solitário, aprender a se comunicar conforme o público com quem falava.


Mas, não: ele era assim, e ai de quem o escutasse. Buscasse um dicionário, dizia ele. Vivia sozinho, enclausurado em sua campânula que se referia como vivenda. Poucos sabiam o que fazia. Desconhecia o nome do homem da venda onde comprava diariamente, ou da botica onde o viam comprar remédios, sem fazer questão de intimidades.


Não tinha cartão de débito nem de crédito, achava que os bancos roubariam seu dinheiro, guardava todo em casa, em algum lugar resguardado de curiosos. Todos o consideravam munheca. Não dava esmolas, não gastava nem palavras.

— Que matusalém sovina! — era como o chamavam pelas costas, se equiparando ao vocabulário após uma pesquisa coletivamente realizada, para uniformizar o apelido ao vizinho.


Um dia, não apareceu na venda, nem na rua. Nem no portão foi visto. A vizinhança, mesmo sem desfrutar de sua amizade, tinha apreço pela figura arredia, vizinha de tantos anos. Mesmo sendo um ermitão, estavam acostumados em suas topadas diárias, seus palavrões educadamente disfarçados.


Dona Luneta, a vizinha de muro que constantemente se esgueirava na tentativa de ouvir ruídos e sons da habitação sempre silente, tomou coragem e bateu no portão do vizinho, sensibilizada com a falta de notícias.

— Ô de casa, seu Eustáquio — como era conhecido — o senhor está aí?

Sem resposta.

Segunda tentativa. Terceira. Quarta.


Decidida como ela só, a vizinha resolveu adentrar no recôndita morada do vizinho, mesmo sem convite. Não queria sentir remorso por algo que depois pudesse ter sido feito. Deus que a perdoasse pelo ato fatídico pressentimento. Se estivesse morto, estaria fedendo. Não estava. Se estivesse doente, chamaria ajuda. O salvaria. Se não estivesse em casa, pelo menos saberia que não estava morto, não ali. Entrou, assim pensando. Não era sirigaita, nem queria quiproquós com aquele tipo de homem.


Passou pelo alpendre, a porta estava entreaberta. O lugar era meio chumbrega. Uma vitrola sobre a mesa dos anos pra lá de cinquenta, alguns cacarecos dispersos pela estante da sala. Ela parou, para se asseverar de que não estava invadindo o recinto, já que não tinha permissão. Passeou pelos aposentos, esperando um sinal de vida. No que parecia um dormitório, ceroulas sobre a cama de solteiro, espalhadas numa fuzarca, e copos e garrafas largadas no assoalho, insinuavam mais uma carraspana que uma morte sem defunto.


Um barulho no sanitário vizinho ao quarto denunciou vida.  Dona Luneta deu um passo para trás, temia um ataque violento ou um tiro de susto. Tropeçou numa cadeira fora do lugar, e o pandemônio se instaurou. Não sabia se ficava ou corria. Fechou os olhos, ouvindo o ranger da porta que se abria, à sua traseira. De lá saíram uma dondoca e o vizinho ex-defunto, serelepe e vivíssimo, ambos enrolados em toalhas puídas como o palavreado do vizinho agora escroto. Ninguém nunca o vira assim.

— Dona Luméria, que diachos a senhora está fazendo aqui? — o pudico vizinho esquecido de nomes gritou, já demonstrando sinais de acabrunhamento. — Está biruta? Que porra é essa?

— Perdão, seu Eustáquio. Não queria me intrometer na sua existência, mas estávamos todos preocupados, ninguém lhe vê há uns três dias. Não imaginávamos essa situação tão ... pândega. O senhor nunca foi disso. Mil perdões.


E foi saindo, de fininho, a vizinha, ávida por espalhar a novidade recém-descoberta. Pensava, em seus botões, que a vida, mesmo caótica, ainda surpreende. Afinal, as aparências enganam, dizem os sábios. E o que viu, era inenarrável. Era preciso ver pra crer. E rezar pela alma do dissimulado. Ou aproveitar o momento de serendipidade que a faria arrancar uns tostões, talvez, pra guardar um segredo tão vil.





 

Goretti Giaquinto

Desafio #117 de 365

Tema: Palavras rebuscadas

Escrever usando só palavras chics, obsoletas, arcaicas, das antigas.

1.      Utilize o máximo possível de palavras rebuscadas e pouco utilizadas em nosso vocabulário. Use e abuse do nosso rico vocabulário;

2.      Gênero, tema e Caracteres Livres.

Não custa lembrar: tudo é ficção...

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