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O Que Achei do Filme "Ficção Americana"

Fala meus xuxus.


Aproveitei o feriadinho para assistir o filme, “Ficção Americana”, uma adaptação afiada e irreverente do romance "Erasure" (2001), de Percival Everett, que está disponível na Amazon Prime. O filme foi indicado a 5 Oscars: Melhor Filme, Melhor Ator (Jeffrey Wright), Melhor Ator Coadjuvante (Sterling K. Brown), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha.


E se liga, ao meu ver, tão certo viu! Ótimos atores, trilha delicia e filme maravilhoso (o livro não li, então não posso dizer nada sobre a adaptação).


Sinopse do Filme: Farto de ver a sociedade lucrar com o entretenimento "negro" que se baseia em estereótipos ofensivos, um romancista frustrado decide escrever um livro "negro", o que o leva ao cerne da hipocrisia que ele despreza.


Para pessoas negras, acredito que o filme conversa em um ponto muito particular, e para quem não é preto ou preta, vale a pena assistir para acompanhar os dilemas não só de um escritor preto (personagem principal do filme), mas como é difícil a  nossa vida seja no campo artístico ou no profissional. O filme aborda de forma maneiríssima a complexidade da experiência negra na América, especialmente no que se refere às pressões para se conformar com o as expectativas do mercado editorial, da mídia e das redes sociais em relação as pessoas pretas. Com sua narrativa incisiva e cheia de camadas, o filme expõe as nuances do conceito de "Black Trauma Porn" e a hipocrisia da indústria literária.


No cerne do filme está a crítica ao "Black Trauma Porn" – a exploração das dores e traumas das pessoas negras para consumo e entretenimento das massas, majoritariamente brancas.


Migas, migues e migos, se você não percebeu ainda, se liga nisso: A indústria cultural frequentemente exige que autores negros escrevam sobre suas experiências de opressão, violência e pobreza, perpetuando estereótipos e fetichizando o sofrimento. Pessoas pretas não podem simplesmente escrever sobre um romance bobo de um mecânico e uma suburbana que precisou arrumar o carro no meio da madrugada?  


Isso é centralizado no protagonista (Monk), um escritor negro cuja as obras não vendem por se negar a fetichizar e retratar o povo preto de forma esteriotipada. Monk vive uma luta constante contra essas expectativas sufocantes do mercado literário. Já tendo lançado outros ótimos livros, ainda não conseguiu ganhar prêmios, vender milhões e vive o dilema de "Se eu não escrever sobre o que eles querem, não vendo. Mas se eu escrever, estou traindo minha própria verdade." É um dilema que muitos autores e autoras (e profissionais) negros enfrentam, entre manter a integridade artística ou se dobrar às demandas do mercado.


Puto da vida, e pressionado a escrever uma obra que venda, o escritor, decide escrever um livro cheio de esteriótipos e clichês raciais (policia matando pretos, por exemplo) e entrega ao seu editor. O personagem principal de tão envergonhado que fica de escrever algo assim, cria um pseudônimo para não misturar sua imagem a este livro. Tem uma passagem neste momento onde o editor faz uma comparação das obras do, Monk, com o Whisky Red, Black e Blue Label. Ele meio que diz que os livros atuais do Monk são um Blue Label, o melhor whisky, porém, o público não paga por isso, no final todo mundo quer só ficar bêbado e pagar barato por isso, então o que mais vende é o Red Label. Concordam?


"Ficção Americana" também toca na questão da receptividade branca às narrativas negras. Quando autores negros falam sobre racismo estrutural ou desigualdade, muitas vezes são rotulados como "muito radicais". O filme não poupa críticas à fragilidade branca e ao desconforto com a verdade nua e crua da experiência negra.


Uma cena marcante é quando o protagonista, durante uma entrevista, menciona que "as pessoas não querem ouvir a verdade, elas querem um conto de fadas que reafirme suas crenças". Essa é a dura realidade Sisters & Brothers. A resistência de muitos em confrontar as duras realidades do racismo, faz com que procurem livros e entretenimentos mais palatáveis e menos desafiadores.



No filme, a relação do protagonista com sua família é retratada com uma profundidade que até parece minha vida (risos). Seu irmão é um chapacrazy. Sua irmã é maravilhosa, mas rola uma reviravolta que não vamos contar aqui. Já sua mãe é uma figura central no filme com a qual o protagonista passa a ter que estar mais presente.


Seus irmãos trazem perspectivas diversas sobre como navegar a vida em uma sociedade racista, enquanto a mulher com quem ele se relaciona acrescenta outra camada de complexidade emocional e intelectual.


Gostei muito de uma passagem onde o protagonista e sua mãe conversam algo como: "Você tem que ser verdadeiro consigo mesmo, não importa o que o mundo espere de você." Isso encapsula a luta interna do personagem, entre ser fiel à sua própria voz ou sucumbir às pressões externas.


"Ficção Americana" é um filme divertido que traz uma profundidade a questão racial e mercado editorial que faz pensar e questionar. Ele usa o humor, a sátira e o drama para lançar luz sobre questões profundas e muitas vezes desconfortáveis. É uma obra que desafia tanto o espectador quanto a indústria cultural a reavaliar suas expectativas e preconceitos.


Para quem cresceu nos anos 90 (feito eu), o filme ressoa com uma familiaridade estranha, misturando gírias e referências culturais que trazem uma nostalgia agridoce. É um lembrete poderoso de que, apesar das mudanças ao longo das décadas, muitas lutas continuam as mesmas, não é mesmo manas e manos?


Enfim, para mim o filme traz questões válidas, promove reflexões, tem um fundinho de drama, e comédia que adoro. Indico assistir. Nota 8/10.

 

Não poderia perder essa deixa e trazer um contexto da situação editorial do Brasil referente as publicações de autores e autoras pretos e pretas por aqui.


Sisters & Brothers, para compreender melhor a realidade dos autores negros no Brasil, trago uma pesquisa recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e a Universidade de Brasília (UnB), publicado em 2023, que revelam dados sobre a publicação de autores negros, indígenas e orientais no Brasil. A pesquisa traz para gente que nos últimos cinco anos, apenas 3% dos livros publicados foram de autores negros, enquanto autores brancos dominaram com 90% das publicações. Autores indígenas e orientais também estão sub-representados, com menos de 7% combinados.


QUE F0D@ ISSO GENTEEE! F0D@ DE RUIM!


Esses números evidenciam a desigualdade no mercado editorial brasileiro, onde as vozes negras, indígenas e orientais ainda são marginalizadas. A luta para encontrar espaço e reconhecimento é real e urgente e que os e as autoras pretos e pretas e indígenas não precisem apenas escrever e falar sobre os fetiches e esteriótipos que a população branca quer.


Pensando Sobre,

Milly Alves

1 comentário

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1 Comment


Eu gostei muito do filme. Quase não assisti, pelo título. Mas valeu a pena. Ótima resenha👏👏

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