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O Diário de Ana Franca



Segunda-Feira, 15/1/2084

Arrependi-me tremendamente de ter casado e vindo para este país miserável, deveria ter ficado com minha irmã.


Não aguento mais as câmeras em todas as ruas e dentro de casa, menos no banheiro. Agimos como múmias dentro da nossa própria casa, que fica dentro de uma 'caverna' anti-mísseis. Ninguém pode sair de casa depois das oito da noite e antes das sete da manhã. Há metralhadoras apontadas em cada esquina, com foco ajustável por infravermelho captando movimento e calor do corpo. Ninguém se atreve a desafiar a regra e arriscar morrer, somente uma pessoa desesperada ou insane.


Ontem, o vizinho se vestiu de urso e saiu de casa. Conseguiu driblar a câmera, pois a fantasia tinha proteção térmica que evitou a captação de seu calor. Hoje, saiu a notícia em todos os meios de comunicação que as ruas estavam cheias de ursos de verdade, mortos. Alguém denunciou a estripulia do vizinho - consequentemente, as metralhadoras foram ajustadas para identificar todo urso que estivesse na rua, real ou de fantasia. Pobres ursos. Provavelmente, as lojas de fantasia vão ser todas lacradas, e mais animais vão morrer.


Acabei de ouvir um estrondo próximo....vou checar...


A casa do vizinho-urso acabou de implodir! Não tem mais nada lá, somente fumaça! Toda ruína foi sugada por um aparelho-vácuo, inclusive os corpos. Tudo sendo triturado e jogado no espaço pela espaçonave chamada pelo povo de "catadores de rebeldes". Família tão jovem para morrer desta forma, que horror!


Vou guardar este diário, estou ouvindo ruídos lá fora.


Terça-Feira, 16/1/2084

O ruído não deu em nada, mas estou aterrorizada.


Meu marido trabalha para o governo, tenho receio de que ele esteja envolvido com a denúncia. Ele não recebe nenhum benefício por ser da nata do governo; é pior. Nossa casa tem janelas de vidro dentro da caverna-mãe, com mais câmeras apontadas. Microfones por toda casa, que não sabemos identificar por serem invisíveis, feitos com tecnologia interestrelar. Antenas enormes são conectadas a satélites que funcionam em tempo real.

Nossa casa recebe imagens das casas vizinhas, por causa do marido-espião. E cada casa recebe imagens uma das outras. Assim, todo mundo age como um "big brother", que nem naquele livro famoso de 100 anos atrás - nunca li, mas no país onde vivia livre ele era ainda famoso.


Enquanto isso, o comitê do governo fica numa ilha, afastada de nossos bairros. A ilha é à prova de som e imagem, não sabemos o que se passa por lá, mas imagino que eles tenham o que não temos, e vivam muito melhor do que nós, da prole. Recebemos o básico por drones uma vez por semana, e temos restrições de água (banhos uma vez por semana), aquecimento (o teto tem controle automático de temperatura e é ajustado para ser ligado apenas à noite), entre outras coisas. No dia-a dia, um jato de um líquido holográfico retira os resíduos do corpo, mas não tira o cheiro azedo  que fica permeando pela casa inteira.


Vou dormir com fome hoje. E sem coragem de tentar conseguir comida.


Quarta-Feira, 17/1/2084

Estamos comendo esquilos, que vêm à noite em busca de restos. Atraímos os bichos com carcaças de insetos colhidos e que não conseguimos comer na semana passada. Mas eles estão rareando, pois o inverno está chegando. Estou com a pele emaciada e amarelada, pela falta de sol. E tendo desmaios e náuseas.


Espero não estar grávida, pois a regra daqui deste país é que jovens casais são proibidos de ter filhos nos primeiros 10 anos de casamento. Os homens têm que se dedicar ao governo de alguma forma, e as mulheres trabalham nos silos e fábricas que não são automatizadas pela inteligência artificial, que domina na tecnologia. Eu mesma trabalho numa destas. As outras mulheres me olham com desconfiança, pois qualquer uma pode denunciar a outra por qualquer coisa.


Não tenho amigas, e ninguém frequenta a casa dos outros, com medo. E eu que era louca por uma farra, antes de casar...Pergunto-me como fui enganada pela corte do marido. O fato dele ter vindo deste país conhecido pela tirania, disciplina extrema e falta de liberdade individual deveria ter aceso uma luz vermelha no meu cérebro, mas não sei o que me cegou.


Será que fui escolhida como alvo? Será que ele me dopou toda vez que nos encontramos? Só pode ser, não tem outra explicação. Eu jamais entraria nesta furada de cabeça limpa e sóbria.


Ouvi um zum zum zum outro dia dizendo que os homens daqui vão à caça de mulheres em países livres, para serem escravas - já que as famílas são restritas em número, por um tempo. Será verdade?


Quinta-Feira, 18/1/2084

Meus sintomas estão mais fortes, decididamente estou grávida. E agora? Nem pensar em falar pro marido, ele me mataria, para não ser preso por desafiar as regras. Vou ter que pensar em algo, mas não sei como alcançar ajuda de minha irmã para me dizer como fugir daqui.


Não quero morrer, não quero perder a criança que carrego em mim, não quero mais viver aqui. Mas com toda esta parafernália de segurança, como vou me esquivar e correr? A sorte é que trouxe um dinheiro de minha terra natal, escondido dentro dos meus cabelos longos quando vim para cá - eu era expert em penteados, foi fácil para mim. Se me pegassem, eu estava frita e torrada, mas me saí bem. Parece que estava adivinhando o que estava à minha espera.


Vou ter que fazer um bom plano e segui-lo à risca. Não posso escrevê-lo - tenho que memorizar, sem chamar a atenção do marido nem das câmeras. Pensando bem, posso escrever no banheiro, pois lá não temos câmeras. Vou deixar meu plano detalhado num saco dentro da descarga, que nem nos filmes de antigamente que assistia quando jovem (ainda bem, pois agora posso por em prática).


Espere um pouco  - lembrei que guardava relíquias que adquiria em mercados livres, trouxe algumas que escaparam da revista ao imigrar para cá. Será que encontro algo útil para me ajudar na fuga?


Sexta-Feira 19/1/2084

Depois de revirar minhas coisas - tive que colocar embaixo da roupa e ir pro banheiro vasculhar - achei um aparelho bem antigo e usado, dentro de um saco com instruções complicadas mas que posso acompanhar. Chama-se "código morse", e foi usado em países em guerra no começo do século. Pelo que entendi, se alguém tiver um receptor do outro lado, com certeza vai receber meu pedido de ajuda.


Lembrei agora que minha irmã tem um igual! Vou ler o manual e tipar uma mensagem pedindo ajuda. Toda vez que usar o banheiro, passarei a mensagem.


(mais tarde)


Passei  10 mensagens, nenhuma resposta até agora. Tenho que desenhar um plano B, até porque estou vindo ao banheiro muitas vezes. Mesmo em casa hoje, por estar doente e não ter ido ao trabalho, posso despertar suspeitas dos vizinhos nas imagens projetadas em suas casas. Não posso correr este risco.


E se o marido escutar a resposta, o que digo a ele? Será que ele conhece o código? Não posso perguntar, ele vai ficar com o pé atrás comigo.Ele já está me olhando com cara estranha, por causa dos meus sintomas. Até me perguntou o que tenho. Desconversei. Falei que estou "naqueles dias", termo que aprendi com a geração de minha avó. Ele nao entendeu, ainda bem.


Sábado, 20/1/2084

Meu plano vai dar certo. Consegui contato com minha irmã (parece), vou escapar amanhã bem cedo, pela janela do banheiro. Minúscula, mas perdi tanto peso que passo facilmente através dos espaços. O marido sai cedo na sua ronda pela vizinhança - em cada ponto estratégico tem uma pessoa do governo fazendo as rondas e se comunicando com o quartel-mor.


Não vou levar nada comigo, para não levantar suspeitas e, também, porque não tenho nada para levar. As roupas que uso são iguais a de todas as mulheres daqui, ninguém tem roupa melhor ou pior. Meu único sapato está surrado, mas a sola ainda resiste se a caminhada for longa, até eu chegar na fronteira. Não posso usar nenhum transporte, pois assim que derem pela minha falta vão usar a tecnologia para me achar: identificação do meu rosto, captada em cada esquina pelas câmeras de reconhecimento facial; identificação de minhas pegadas, por reconhecimento pedal, e assim vai.


Depois de escapar pela janela, terei que andar calmamente depois das sete, com cabeça baixa e rosto escondido por um lenço. O trajeto vai ser longo, mas sempre pratiquei esportes, então minha resistência ainda é boa. Espero. Minha irmã ficou de me aguardar logo depois da fronteira. Ela pagou propina para o pessoal da fronteira me deixar passar.

Parece que propina é a única coisa que resiste aos tempos e aos regimes. Ainda bem.


Domingo, 21/1/2084

O plano está em ação. Marido saiu sem suspeitar de nada. Vou dar um tempo e sair, para não dar nas vistas, ou melhor, nas câmeras.


Não vou ter saudades daqui. Quero um futuro melhor para o filho que carrego no meu ventre, num país livre, mesmo que corrupto. País que permanece subdesenvolvido até perto de acabar o século. Ainda bem, pois a tecnologia pode ser assustadora, se cair em mãos erradas e mentes paranóicas.


Meu filho (ou filha) vai ser livre para escolher o que quer ser e como viver. Ninguém vai olhar para a casa dos outros, a não ser para fofocar de bem - como ainda chamamos o livre arbítrio de falar mal da vida alheia. Vai poder escolher trabalhar no que quiser - ou não trabalhar e viver com os pais, no meu caso, comigo. Como é mesmo o nome daquela geração que ficou famosa por isto?  Não importa. Viver, sim, é o que importa.


Este diário vou deixar aqui no banheiro, como registro do terror que vivi longe de casa e do meu país. Quem sabe um dia um rebelde o encontre, e se inspire para seguir adiante como eu?

Tenho que me apressar, mas que ruídos são estes que escuto lá fora? Parece o barulho de uma máquina de sucção

(aqui acaba o diário, ou melhor, fica inacabado...)



 

Gattorno Giaquinto

#13. Diário distópico de irmãos

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Stela Alves
Stela Alves
26 janv.

Senti o mundo se findando. Afundando

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