top of page

O Banheiro, por Maurício Rosa

Mudei-me para esta casa há muito tempo.

Tempo suficiente para não precisar quando exatamente larguei minhas

malas na cama ou mandei construir a mesa de centro sob medida que decora a

sala. Ao mesmo tempo que, de olhos vendados, posso dançar sem esbarrar em

nenhum móvel, assumo que nunca me detive em nenhum quadro ou rodapé,

nenhum azulejo ou basculante desse lugar. Também olho pouco pela varanda e

as cortinas do meu quarto passam os dias cerradas, de modo que desconheço

a paisagem que circunda esse meu pedaço de mundo. Descobri, portanto, que

desconheço meu próprio teto. Mas percebo que nem tudo é desatenção. Dentre

vários objetos que fui acumulando ao longo dos anos e que agora adornam e

entulham os cômodos, gosto especialmente de uma saboneteira de porcelana

que ganhei de uma tia-avó. Em seu passado, a saboneteira ficava em lugar de

destaque na pia... Minha tia-avó, dona Lídia, tinha um banheiro espetacular.


Minha prima ia cantar lá dentro por causa da acústica. Eu reservava meu

momento de leitura para ficar meia hora sentado no vaso, aproveitando o silêncio

que aquelas paredes encerravam. Havia uma lâmpada amarela no centro do teto

e quatro luminárias antigas em cada parede. Um espelho de bordas douradas,

de corpo todo, ficava atrás da porta. Um outro espelho, mediano, em cima da

pia. O box de vidro, no qual ela estampou algumas figuras marinhas, era um luxo

à parte porque parecia coisa de rico. Dona Lídia havia herdado a casa e cuidava

de tudo com muito afeição, bordando crochês para colocar sobre o armarinho

das toalhas e lustrando semanalmente a famigerada saboneteira que luzia como

uma joia. O mais curioso daquele banheiro era a janela ampla, quase uma

varanda aberta, um palanque devido à altura. Sorte nossa que o janelão dava

para os fundos, onde uma mata fechada nos fazia enxergar ao longe alguns

saguis pulando de galho em galho. Dali também víamos o pôr do sol estendendo

as réstias de luz no ladrilho do piso. Era um lugar realmente especial. Desse

cenário, me foi legada a saboneteira que, agora percebo, me conecta

imediatamente a essas memórias de infância. Talvez falte a minha casa lugares

especiais, os quais sejam capazes de me incitar o inesquecível, uma lembrança,

um pouco de vida. Amanhã lustrarei a saboneteira e, quem sabe, torno essa

residência um lar?


Quem sabe.



Maurício Rosa integra o nosso Grupo LGBTQIA+ do projeto É DIA DE ESCREVER.


Você pode conversar e conhecê-lo um pouco melhor em seu instagram @maurício.rosa.contato

15 views0 comments

Recent Posts

See All

Comments


bottom of page