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O Anti-herói

Antes que a sociedade entrasse em decadência, eu era pequeno e estudava numa escola cheia de regras. Seguia entre aspas as inúmeras normas obrigatórias daquela instituição pública.

Na minha sala, que eu lembre, tinham poucos colegas presentes, uns 22, comigo 23. Eu tinha 2 professoras, uma de manhã e a outra a tarde que eu conhecia e com quem eu tinha mais vínculo. Eu chegava cedo na escola, sempre de mau-humor com cara de poucos amigos, fazendo o meu social para com os adultos, já com as crianças, do mesmo jeito que eu apanhava eu batia.

Nunca fui de muitas regras, achava aquilo tudo uma baboseira. Em casa não era diferente, meu pai era pastor, me levava para o culto, eu cantava e sabia decor todas as músicas, mas quando eu saía olhava com desdém as pessoas que cumprimentavam meu pai e a minha família. Com a minha mãe e a minha tia, era diferente, elas diziam que eu tinha que seguir regras, mas na primeira oportunidade elas quebravam em nome do Senhor. Eu sempre entrava na escola com um chocolate ou brinquedo mesmo não podendo levar nada de casa para escola porque elas passavam na venda do Sr. Ronaldo e me davam para guardar na mochila para comer na hora da saída da escola e eu para infernizar as professoras contava para os meus colegas o que eu tinha dentro da mochila.

Na verdade eu era o herói que nenhuma professora tinha paixão e era o mais popular da sala porque todos os outros queriam ser igual a mim.

Quando a sociedade veio ao óbito, eu sobrevivi porque era esperto. Consegui me esconder, vivia de casa em casa e passava desapercebido. Em cada casa que eu entrava procurava comida, armas, remédios, água até o dia que encontrei aquele menino mentiroso que era o meu colega, aquele do cabelo colorido que chorava todo dia para entrar na escola.

Eu provocava ele o dia todo até o ponto dele perder a paciência e me bater. Um dia saímos na mão. Eu peguei ele na porrada dentro da sala com a professora da manhã, eu não sei ela tinha saco para me aguentar e eu sei que eu era muito chato, mas ela me conhecia bem.

Naquela manhã de sei lá que dia, eu saí de casa para procurar comida na vizinhança mais distante, armado até os dentes, até o mercadinho que eu sabia que tinha um porão onde guardavam mantimentos, mas naquele dia foi diferente porque assim que eu entrei percebi que tinha gente mexendo no pequeno estoque.

De longe em meio as prateleiras caídas, eu via um topete, aquele cabelo vermelho, azul e verde me lembrava alguém dos tempos remotos e para minha surpresa o danado do moleque continuava com a mesma fisionomia e eu frente à frente com meu maior inimigo de todos os tempos.

Enquanto eu pensava minha raiva crescia. Eu me lembrava todas as vezes que eu te provocava, te xingava sem as professoras perceberem e você revidava quando eu estava distraído. Você me socou a cara, me deu tapas, rasteiras. Eu me lembro como infernizei a tua vida e sabia de todas as tuas manhas para ir à escola, me lembro quando chegava atrasado tentando enganar a sua mãe com o papinho de dor de barriga e dor de cabeça, o choro falsificado igual uma nota de três reais.

Me lembro da tua cara vermelha quando a tinta do cabelo saía, teus olhos vermelhos quando você chorava na tentativa da professora avisar a sua mãe que você passava mal. Mas. agora você estava na minha frente e eu com sede de vingança e com fome. Hoje só vai sobrar um e esse um sou eu.

Fui me esgueirando por corredores apertados e mal cheirosos, caminhando sem deixar rastros e sem fazer sons, e te peguei de costas, enfiando a lâmina nas tuas costas vendo você sangrar até a morte. Me lembro até hoje esse dia, que sentei na tua frente enquanto você me suplicava por ajuda, contando histórias e mentindo como sempre fez.

Te lembrei de todas as nossas histórias, aquelas que vivemos nos tempos da escola, mas não sinto nada vendo você ali porque sua amizade sempre foi tóxica.

Enchi minha mochila de suprimentos, de água, de tudo que pude carregar e levei o seu corpo para enterrar no jardim atrás da igreja onde meu pai dizia que todo homem volta ao pó da terra...e, se fosse eu no seu lugar, perguntei antes do último suspiro e ele me respondeu, eu ia chorar por você que ia ficar ali no meio da farinha apodrecida...



Mãos com pó de farinha
Farinha




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