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Nos Braços do Rei dos Sonhos, por Priscila Brito


Ele caminhou na minha direção de maneira lenta e precisa, com a mesma destreza e

elegância de um felino que circunda a sua presa. Por algum motivo não consegui me mover. Estava hipnotizada por aqueles olhos dourados e os lábios que exibiam um sorriso ao mesmo tempo malicioso e feroz e pareciam prontos para me devorar.


Meu coração disparou antecipando o perigo que aquela proximidade denunciava. Havia medo em mim, mas também curiosidade em saber porque ele me parecia tão familiar.


- Finalmente, minha querida – a voz aveludada do ser me atingiu com uma carícia

inesperada ao mesmo tempo em que ouvi o meu nome ser repetido de maneira cada vez mais insistente.


- Marina!


Fui atingida por um cutucão em cheio nas costelas que me trouxe para a realidade

brusca e dolorosamente. Me virei incrédula para a minha melhor amiga que exibiu um

olhar de advertência.


Olhei em volta e reparei que todos estavam me observando com curiosidade - alguns

com um inegável sorriso de deboche.


O professor de Filosofia nos levara para a quadra do colégio como sempre costumava

fazer quando queria proporcionar uma aula mais descontraída. Para ele, o ar sério e

hierárquico das salas de aula, não combinavam com o conteúdo reflexivo e disruptivo

de seus amados filósofos.


Naquele momento, no entanto, ele me encarava com um olhar severo e estava pronto

para fazer um comentário que, com certeza, me deixaria mais constrangida do que eu já estava. Contudo o estridente alarme do intervalo soou como uma trombeta salvadora, me poupando de um sermão.


Enquanto me levantava e guardava o colchonete em que estive sentada durante os

infinitos 50 minutos que aquela aula durou, pude ouvir uma das alunas da turma se dirigir ao professor e anunciar em alto e bom som que “não entendia como alguém poderia dormir enquanto ele explicava algo tão fascinante quanto a alegoria da caverna de Platão.”


O “alguém”, no caso, era eu que pelo visto – e mais uma vez naquela semana – havia

me perdido em devaneios e não prestara a mínima atenção na aula. Não que eu fizesse aquilo de propósito. Eu juro que não era o caso. Mas a minha mente vagueava tomando um rumo próprio sem que eu sequer percebesse.


- Eu nunca vi o professor tão furioso – tagarelava Duda em meu encalço. Com certeza

ela era a única ali que não me achava uma completa maluca. – A sua cara estava tão engraçada! Era como se apenas o seu corpo estivesse ali e o professor deve ter repetido o seu nome umas dez vezes.


Duda riu com gosto e eu a acompanhei com um sorriso amarelo. Pensava comigo

mesma que aquilo - os meus sonhos - já estavam ficando fora de controle. Falei de maneira inexpressiva que eu só havia me distraído. Nos dirigimos para o pátio da escola que estava tão gelado quanto uma pista de gelo.


- Distraída sou eu, amiga – debochou Duda. – Você parecia hipnotizada. Estava com

os olhos arregalados e vidrados – ela imitou a minha suposta expressão de maneira

abobalhada e um rubor de vergonha subiu pela minha face quando demos de cara com o namorado dela e o melhor amigo dele.


Eduardo e Duda trocaram um beijinho discreto e ficaram se encarando com aquela

expressão enjoadamente apaixonada. Como se aquela bizarra coincidência entre os nomes deles não fosse motivo suficiente para deixar qualquer um desconcertado, eles ainda eram encantadoramente perfeitos um para o outro.


Eric, por sua vez, me lançou um olhar entediado e questionou se era verdade que eu

dormira na aula de filosofia. Pisquei perplexa com a rapidez com que aquela escola espalhava as fofocas e, sem me dar ao trabalho de responder, fui para a cantina em busca de algo para me fazer aguentar o segundo turno de aulas. Afinal se eu fosse pega devaneando mais uma vez, não escaparia de uma advertência.


Não deixei de pensar também como eu havia sequer cogitado ter alguma coisa com

aquele insensível do Eric. Não que a ideia tivesse partido da minha mente fértil e iludida. Fora Duda quem plantara caraminholas na minha cabeça, desenhando um cenário de amor e perfeição que estava longe de existir na minha vida. Porque era óbvio que o garoto me desprezava totalmente.


Uma garota rodopiava pelo pátio tentando chamar a atenção de todo mundo. Alguns

colegas observavam divertidos. Outros, lhe lançavam palavras de advertência.


********


Minha cabeça estava recostada sobre um macio travesseiro de plumas. Me espreguicei sentindo meu tronco e pernas se entrelaçarem em lençóis de incontáveis fios de algodão que me envolviam como um abraço reconfortante.


Uma névoa circundava a cama de ébano sobre a qual eu estava deitada. Me levantei

apoiando-me sobre os cotovelos, mas não consegui enxergar nada. Até que ele surgiu: a princípio como uma sombra turva, seus olhos dourados brilhando maliciosos como dois faróis.


- Eu sabia que você retornaria, Marina – ele disse num sussurro sensual que me

arrepiou inteira.


O bem-estar foi substituído por uma sensação de pavor que percorreu a minha

espinha como um dedo gelado me acariciando.


- Não!


Levantei de supetão até reparar que havia gritado no meio de uma sessão lotada de

cinema. As pessoas começaram a me vaiar e para evitar ainda mais o constrangimento, ou que começassem a jogar coisas sobre mim, eu me retirei apressadamente da sala.


Eu não devia ter concordado com a ideia maluca de Duda de um encontro duplo após

a aula. Ainda mais para assistir esses filmes de herói que eu tinha que fazer um esforço absurdo para ficar conectando as histórias dos filmes antecessores. Sem falar no fato de estar evidente que Eric não se sentia nenhum pouco confortável com aquela situação.


Infeliz, me recostei em uma pilastra perto da bilheteria e levei um susto quando reparei

que Eric havia me seguido. Ele me encarava como se estivesse me avaliando ou escolhendo com cuidado o que iria falar. Os olhos cor de caramelo, que no sol assumiam um tom quase dourado, estavam bem escuros, quase pretos.


- Você está indo por um caminho muito perigoso, Marina.


Tentei questionar se ele achava que eu estava metida com drogas ou alguma outra

coisa ilícita. Aquilo era absurdo até mesmo para o meu histórico de esquisitices. Entretanto, com a mesma seriedade com que me abordou, ele voltou a exibir a expressão entediada de sempre quando Duda e Eduardo apareceram para conferir se eu estava me sentindo bem.


*******


Antes mesmo de abrir os olhos eu já sabia onde estava. As sensações eram as

mesmas de todos os sonhos anteriores. Eu já conseguia sentir a presença provocadora, os olhos penetrantes sobre mim, o sorriso cínico e a maneira como a voz parecia brincar com os meus sentidos. Ele sussurrou meu nome me deixando completamente em alerta. Porém quando tentei me mover, reparei que minhas pernas e braços estavam imobilizados.


- Você não precisa ter medo de mim, querida – ele se aproximou. Seu hálito adocicado

percorrendo o caminho da minha orelha até o pescoço enviando pequenas ondas elétricas pelo meu corpo.


Tentei me afastar, mas ele parecia estar em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em

lugar nenhum. Meu coração estava tão disparado que cada batida martelava o meu peito dolorosamente.


- Quem é você? – questionei surpresa por minha voz soar alta e mais confiante do que

eu estava me sentindo.


- Querida – ele gargalhou. – Como você me ofende.


Finalmente aquela presença incorpórea foi ganhando forma em meio a névoa e eu

pude divisar a silhueta familiar de um rapaz.


- Rei dos Sonhos - disse ele finalmente se revelando pela primeira vez e me saudando

com uma mesura um tanto afetada – Muito prazer, minha cara.


A surpresa morreu nos meus lábios quando o reconheci.


- Eric? – sussurrei desconcertada.


Ele gargalhou extasiado com a minha confusão.


- Eu posso ser quem você quiser, Marina. Não há limites para o que eu posso te

proporcionar.


Os olhos dele se insinuaram por meu corpo.


- Desde que você decida ficar aqui comigo – seus olhos brilharam. Mas não havia

mais aquele tom dourado. Eles agora eram gélidos e calculistas. - Pra sempre... Como num passe de mágica, surgiu em sua mão esquerda um botão de rosa vermelha. Mais uma vez ele se aproximou lentamente de mim e percorreu a lateral direita de meu corpo com a rosa... Porém o toque não foi nada agradável e eu gritei quando um dos espinhos da flor arranhou o meu braço enviando ondas de dor por todo o membro e além.


Não queria que ele se aproximasse mais ou me tocasse. Desejava de toda a minha

alma acordar. Mas a perguntava que pairava na minha mente era: como conseguiria sair daquele pesadelo?


- Parece que você não está apreciando a minha presença, querida – disse o Rei dos

Sonhos me encarando como se, de fato, eu o tivesse ofendido de alguma maneira.


- Eu só quero acordar – sussurrei temerosa, imaginando qual a situação

constrangedora que eu me metera após cair no sono novamente. - Eu preciso acordar.


- Por que não me disse isso antes – ele apoiou a mão no queixo como se me avaliasse pela primeira vez, de verdade – Você é livre para acordar quando quiser, mas te aviso que isso será doloroso. Bastante doloroso.


- Eu não me importo – falei sentindo uma lágrima intrusa rolar pela minha bochecha

esquerda. Quando eu havia começado a chorar? - Eu preciso acordar – repeti mais

uma vez.


- Seu desejo é uma ordem, querida – O Rei dos Sonhos se aproximou e sussurrou em

meu ouvido. - Acorda, Marina...


Quando acordei me vi encarando de perto um par de olhos caramelo que se

arregalaram assim que perceberam os meus movimentos.


Ele saiu correndo do quarto e logo em seguida retornou com uma enfermeira.


- Ela acordou! - ele dizia em êxtase.


A mulher me examinou de maneira fria, apontando uma lanterna para os meus olhos

me cegando momentaneamente – pelo visto ela não compartilhava do mesmo entusiasmo do garoto.


Eu ainda não conseguia me mexer. Estava deitada em uma cama de hospital. Reparei

nos lençóis brancos, no bip das máquinas que me rodeavam, no cheiro antisséptico misturado com mais alguma coisa. Rosas. Havia um buquê de rosas brancas ao lado da cama, enviando para o quarto um cheiro adocicado. Reparei que meu braço estava imobilizado pelo que pareciam ser pinos de metal e minha cabeça estava enfaixada.


Tentei questionar o que havia acontecido. Mas a enfermeira expulsou Eric do quarto

assim que tentei dizer alguma coisa, sem sucesso. Parecia haver algodão amortecendo a minha boca.


Ela aplicou um sedativo e adormeci um sono sem sonhos. Recobrei a consciência o

que me pareceu horas mais tarde, porém fui informada que fora exatamente dois dias depois. Ao lado da minha cama estava Duda.


- Oi de volta, Bela Adormecida – ela sorriu.


Eu tentei dar um sorriso, mas aquele gesto simples pareceu me custar uma energia

imensa.


- O que aconteceu? - consegui perguntar baixinho.

- Você não lembra de nada?

Duda suspirou e depois tocou a minha mão esquerda.


- A gente saiu para patinar naquele parque novo do shopping. Marina, como você é

idiota! O Eric ainda tentou te alertar que estava fazendo manobras perigosas demais... Reparei no semblante cansado dela. Duda explicou que em uma das manobras eu havia perdido o controle dos patins e saíra derrapando pela pista desenfreadamente, até que caí, batendo a cabeça e com um braço em um ângulo impossível. Aquilo explicava os pinos. Eu ficara três dias sedada.


- Sério, eu não entendo por que você é tão teimosa. Ficou tentando chamar a atenção

do Eric a todo custo. Pois conseguiu...


Senti uma pontada de dor no meu braço direito. Com certeza o efeito da morfina

estava passando. Alguns flashs começaram a vir na minha mente. Realmente eu fora uma imbecil. Tudo para chamar a atenção do garoto que eu gostava. Mas havia aprendido a lição. Ou quase. Duda me disse que Eric não largara o meu leito desde o acidente e inclusive toda a equipe médica havia achado que ele era o meu namorado.


E eu tinha de admitir que aquilo era bem fofo.

Quando Eric apareceu na porta do quarto timidamente, segurando um botão de rosa

branca, Duda me deu beijo de despedida e em seguida nos deixou a sós. Ele e eu ficamos nos encarando por algum tempo, num silêncio absolutamente constrangedor até que uma enfermeira veio anunciar o fim do horário de visitas e que eu precisava descansar.


Eric me entregou a flor e me deu um beijo no rosto.


- Bons sonhos, minha querida – ele sussurrou em meu ouvido. - Me ajeitei sonhadoramente nos lençóis brancos e macios, recostei a cabeça no travesseiro de plumas e olhei uma última vez para a rosa vermelha ao meu lado.



Priscila Brito é escritora e uma das participantes do projeto É DIA DE ESCREVER.



Ela faz parte do Grupo de Negritudes e você pode conhecê-la e baixar o seu livro através do seu instagram @apriscilabrito.

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