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Neve, por César Henrique

A neve caia. Suave, lentamente, branca, a neve caia. Do céu caia os flocos brancos. Todos se abraçavam ao chão. Mas outros escolheram Alan e outros Torres.


- Está cada vez mais difícil chegar até lá em cima.- reclamava Torres .


Alan não respondeu. Apenas continuou a andar sobre a neve espessa.


Aquela neve estava pesada. Inandavel. Mas continuavam a afundar o pé no chão. Aquela massa branca era tão funda que não se achava mais o solo. Onde está o chão? Ele ainda existe? É possível achá-lo algum dia?


Estava difícil andar. Torres sabia disso porque suas pernas estavam congelando e não conseguia dar mais nem um passo sequer. Estava difícil caminhar. Mas Alan era teimoso demais pra desistir no meio do caminho. Ele não deixaria algo como neve o impedir.


Já se passaram duas mil quinhentas e setenta e três pegadas. Por que não chegaram ainda?


Eles andaram mais quinhentos. Alan agora está se lembrando da vista de baixo da montanha quando tinha 6 anos. Era linda. Era grande. Era incrível. E agora com ele ali, vivo, subindo, sorrindo. A vista lá em baixo é linda, enorme, incrível.


- Estamos mais alto agora.- disse Alan esfregando uma mão na outra na tentativa falha de as aquecerem.


- Certo, certo.- o loiro revoltado diz em resposta revirando os olhos.- Você diz isso desde que fizemos mil novecentos e noventa e nove pegadas.


Um silêncio paira no ar. Alan não faz o passo três mil e cem. Ele vira de costa e admira mais uma vez o que está abaixo deles. Neve. Mais neve. Muita, muita neve. Ele volta os olhos para o amigo e os fecha de vagar em sinal de que já está exausto de tanto subir.


Já é noite quando um descanso vem a calhar. A lua repousa no céu tão brilhante e luminosa como antes do passo numero um. Eles acedem uma fogueira improvisada e se aquecem.


O boneco de neve que os faziam companhia depois de longos quatro mil passos também se encosta perto a fogueira para se aquecer. Ele está destruído, chorando em prantos enquanto se lembra de sua família desaparecida dias atrás na esperança de achar um iglu para se afugentarem do frio.


A noite dura. Pendura no céu estrelas. Mas o sol decidiu que quer se esconder. Vai entender. Torres desperta Alan e eles continuam a subir.


Alan nunca achou que estaria tão ansioso para conquistar algo tão alto. Torres nunca achou que seu amigo iria mesmo subir a montanha. Mas ele está ansioso e sim, ele está subindo a montanha.


Já foram mais de seis mil e cem pegadas feitas em neve e todas apagadas pela mesma. Já são seis mil cento e cinqüenta quando Torres se pronuncia em despedida a Alan:


- É aqui que eu fico.- diz ele mostrando um sorriso que demonstra felicidade. Felicidade de uma criatura inventada que conquistou seu objetivo.


Alan não consegue chorar. Suas lagrimas congelaria. Ele não consegue falar. Tem medo de dizer as palavras erradas. Ele não pode se movimentar até seu amigo fictício ou estaria regredindo. Então faz a pegada numero seis mil cento e cinqüenta e um e segue seu caminho.


O tempo parece parar. Porque a lua o abandonou? Por que o sol o deixou? Por que ele teve que crescer justo agora?


Há mais pegadas apagadas e mais passos sendo feitos. Os dias tem passado. Como ele sabe? A comida acabou. Ele se alimenta das próprias palavras para sobreviver.


É difícil fazer o passo numero quinze mil duzentos e três desmaiado. Então ele para.


- Você está bem? Precisa de ajuda?.- Um ser gentil lhe pergunta-lhe preocupado.


- Eu preciso subir.- Alan respondeu baixinho mas a criatura camuflada entre a neve consegue entender perfeitamente o que foi dito.


- Até onde?- Ele olha acima deles


- Até o topo.


Os olhos azuis do ser estão arregalados. Ele levanta o jovem humano da espessura de neve, o ajeita sob os dois pés e tira o branco gelado de suas roupas.


- Não posso levá-lo até lá. Mas pude fazer isso.


Alan olha ainda meio tonto, sem energia o Senhor Abominável Homem das Neves ir embora. Limpa olhos. Come mais algumas palavras e bebe o que tem ainda na bagagem.


Está mais frio mas Alan já fez vinte mil trezentas e vinte e três pegadas quando um som vem de cima, suas lagrimas caindo de emoção. Ele olha para baixo e percebe que ainda faltam trezentos e vinte e quatro mil duzentos e quatro passos para o topo. Mas o barulho é alto, vem do alto. É próximo.


- Sem chance!


-LÁ VEM AVALANCHE.- Grita certa voz que nem eu mesmo reconheci.


César Henrique é participante do Grupo de Jovens do projeto É DIA DE ESCREVER.


Segue ele no @t.bbisborria.

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