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Náufrago Sem Lar, por Darla Monique

Ontem a tarde observei minha janela de vidro fechada os respingos de chuva, caminhavam lentamente tirando o embaçado que o vendaval produzia. Há cerca de dois metros havia um papel higiênico, pensei em buscar para amenizar o caos do vidro, porém, o chão aparentava escorregadio para andar, As gotas de água alertaram que estavam prestes a começar corrida de São Silvestre. Invadiram minha casa, os passos se apertaram, as poças de água amadureceram e criaram ataques no meu telhado, tiros alarmantes e descontrolados, baldes por todo lado, a minha casa mais uma vez inundou. O papel higiênico se encharcou e perdeu-se pela enchente dos cômodos.

Meu rosto se desconfigurou quando as gotas de água que caiam sobre o telhado encontraram com minhas lágrimas, a água do meu corpo se apaixonou pela semelhança das gotas e as convidaram para morar em meu lar. Se apuseram do meu coração, ocasionando ansiedade e eletrocutando minhas partículas que formam a hipoderme. Temperatura do meu corpo que resguarda minha energia e estabelece motivos para aguentar mais um dia viva, sem ter que secar minhas lágrimas.

Livros e cadernos que estavam em uma caixa de papelão se abriram, letras e palavras se afundaram no vazio e frio. Perdi móveis, eletrodomésticos e eu. Sim, me perdi. Eu perdi forças de continuar sendo a pessoa que abraça o mundo e diz que vai ficar bem, quando na verdade, não está a muito tempo e tudo que preciso é fugir da minha mente e de mim. Ser sensitiva às vezes me preocupa, sentir a veracidade do que o mundo carrega é grave, é como pilotar avião desgovernado sem dizer o último "eu te amo" para a pessoa amada.

As manhãs de sol das 10 horas por esses dias não vieram visitar meu quarto, talvez porque acalentar minha vida seja desgastante, ter que pegar na mãozinha para eu não me afundar no mar de cobranças, inseguranças e crises, prolonga sofrimentos que devo enfrentar.

A última notícia que prestei atenção foi no Jornal Nacional da semana passada, Maju Coutinho informando que o Brasil passa de 300 mil mortes e que se for possível, ficar em casa. Não estranhei a reportagem, afinal, estamos nesse pesadelo já faz mais de 365 dias. Talvez relembrei porque as notícias recentes se encontram velhas.

Hoje, olhei para minha janela de fora, avistei gotas de água escorrendo de dentro. A tristeza me expulsou de casa e o sol não se comoveu com a inundação.

Eu sou robô, meu programador faleceu ontem de covid. E, por ironia do destino, eu faço lives comentando o quanto odeio máquinas e a chuva que despejou do meu lar, afinal, devo ficar em casa, mas não tenho onde morar.



Darla é poetiza, tem 17 anos e é moradora da COHAB II.


Ela integra o nosso grupo de Jovens do Projeto É DIA DE ESCREVER.


O instagram dela é bem legal e lá você encontra muito mais arte e poesia. Segue ela no @darla_monique.

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Puella

2 Comments


Stela Alves
Stela Alves
Apr 25, 2021

Uau, só respiro. Sem palavras.

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Camila Uribe
Camila Uribe
Apr 25, 2021

Texto poderoso e vivo! As letras respiram (ou choram/chovem) na página. Amei!

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