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Machos Alfas, Mulheres no Futebol, Várzea e Comunidade

Caros leitores e leitoras que ainda insistem em mim.


Hoje, enquanto enfrentava 15ºC às 16h na padaria para beber uma cerveja e ocupar o tempo do futebol na TV (que está suspenso por conta das enchentes no RS), "oreiava” dois Plaboys silenciando uma mulher e suas opiniões sobre futebol e em específico o futebol de vázea (que ela praticava e eles insistiam para ela parar de jogar).


Interessado que sou em futebol, histórias banais e na vida dos outros, fiquei ali escutando aquela conversa interessante só para nós quatro.


Concordando e baseando as pautas deste texto no que trouxe a mulher sobre o futebol e o futebol de várzea, escrevo e defendo junto à vocês leitores e leitoras, o por que, nos dias atuais, é infinitamente mais prazeroso assistir a um jogo no campinho esburacado do seu bairro do que se espremer em um estádio moderno, polido e absolutamente desprovido de alma.


Ah, o futebol de várzea. Esse território de Terrão Sagrado (ou muitos Society hoje em dia) onde a bola rola de buraco em buraco, não tão leve e nem tão solta, desobedecendo a lógica mercantilista e política que tomou de assalto o esporte mais merda de bom deste planeta e o mais amado do Brasil.




Primeiramente, é bom dizer que o futebol jogado, o esporte em si, não tem culpa do que fazemos com o pobre coitado. O futebol é tipo o planeta, o homem estragou. Não tenho nada contra o futebol.

A moça da padaria confrontava os machos alegando que os clubes e federações perdem uma grande oportunidade de fazer do esporte e da paixão dos torcedores pelos seus clubes, uma forma de reverter esses número e paixão em contribuição social. Times em geral vivem e crescem em uma Região. Imagina o Corinthians investido na região de Itaquera e no estado de São Paulo. Por meio do esporte, da educação… Os playboys acham isso uma utopia. “Clube tem que ganhar título e fazer dinheiro”, e complementavam com "E futebol feminino é só prejuízo".


Playboy joga em quadra de apartamento, né gente? Falta a coragem da mulher sentada com eles na mesa para colar em um campo de várzea e soltar um grito bem alto de "próximo!". Falta coragem de largar seus confortos, falta a ousadia de furar bolhas e falta principalmente o futebol no pé para colar nas quebradas ou em um futebol de várzea.


A magia da várzea reside na sua capacidade de unir pessoas. No futebol de elite, somos todos meros consumidores, entorpecidos por um espetáculo artificial. Já no futebol de várzea (que ainda não chega ter a força do carnaval), somos parte de uma comunidade, respiramos juntos cada conquista do time: Um uniforme doado, uma jogada em campo, o nascimento do filho de alguém do grupo. Também sofremos as dores dentro e fora do campo de cada companheiro e companheira do time. Companheiras, isso! Aqui, o futebol ainda é de todos (mas também não dá para tapar o sol com minas cuecas furadas e negar o machismo na várzea). 


Ir assistir aos jogos de um time da sua região em um centro esportivo, por exemplo, vai te levar a conhecer, vivenciar e desfrutar de história e personagens únicos. De onde surgem esses heróis anônimos que tentam se igualar aos deuses do futebol com dribles todos tortos, desconcertantes (para quem tentou driblar e caiu) e golaços improváveis?


Heróis que como o esquadrão do time "Subúrbio Geral", reuniu elenco, familiares e amigos em uma campanha de doação de sangue (#SangueSuburbano) doando litros e mais litros de sangue no último fim de semana. Cada jogo na várzea é uma novela, com seus dramas e comédias, superações e brigas homéricas, que você pode se envolver e se apaixonar. Seja jogando o jogo jogado, ou na beirada das 4 linhas, nas arquibancadas ou colaborando para as ações do time no bairro.



Se der a sorte, este timeco aí do seu bairro ainda revela o próximo, Dener, que brilhou e deixou lances marcados na história do futebol pelo Vasco e Portuguesa. Ou do Romarinho, que prefere a pelada de fim de semana do que qualquer jogo profissional que já fez. Nomes que surgem destes campos e você vai poder falar "Conheço ele, hein! É meu Amigo". Campos que simulam a vida, campos de improviso, de garra, união, resiliência, paixão, suor e lágrimas que dividimos com torcedores e juntes levamos para a vida.


"Já vi clubes de várzea fazer mais pelo seu bairro do que qualquer político e gestão".

Moça da Padaria.


Enquanto na várzea a resenha, histórias e personagens únicos que ela nos apresenta, estão a sua disposição gratuitamente e você ainda pode beber na arquibancada, a TV nos apresenta aquele tal do futebol moderno.


Corinthiano apaixonado que sou e não nego, assisto desde o esquenta até o pós jogo de cada jogo do timão. Porém, assisto com nojo e a náusea já vem do momento que tento comprar os ingressos.


O primeiro golpe no fígado do pobre torcedor ao se envolver com os times “profissionais” é ter que pagar um ingressos custando um rim, estacionamento mais caro que o lanche gourmet do intervalo e, claro, aquele combo de chuva com pipoca murcha que só sai barato para o magnata da Premier League que comprou um time de Série B.

Na várzea, não. Aqui, você tem ingresso de graça para a maioria dos jogos, a cerveja é liberada (se bobear e a depender das regras do campeonato, é liberada até dentro de campo) e ainda sobra troco para um espetinho mal passado e uma água de coco. Futebol raiz, meus caros leitores, e ainda acessível e para a família.


A moça na padaria também tocou no assunto Corrupção, algo que para ela era desmotivador torcer para um time que notoriamente é corrupto ou tem apoio de corruptos, ou apoia presidente facista corrupto. Não dá para concordar quando o torcedor deixa de ter voz nas decisões do time e campeonato para meia dúzia de dirigentes engravatados de traz das suas mesas assaltarem o povo, tirarem o acesso dele ao clube e estádios enquanto os putos enchem os bolsos e seus fantoches de chuteiras de ouro fazem dança no Tik Tok e ficam rodando clubes mais que a bola que chutam. Na várzea aí do lado da sua casa, o campinho é humilde, de terra batida, mas a corrupção não passa da porta. A única treta que tem é um para dividir o custo do campo e a conta do pós jogo. Na várzea, a honestidade, respeito e lealdade do time e com os adversários é tão dura quanto o cimento dos vestiários improvisados. Quem tenta quebrar esse cimento é naturalmente expulso. 


Aqui ninguém quer ser jogador influencer e ser idolatrado. Geral é mãe e pai de família que tem no futebol uma, duas vezes por semana um momento extra-vida, onde usam essas duas a três horas para movimentar o corpo, se reunir com sua comunidade e fazer a vida valer a pena de ser vivida. Em geral, somos bem diferente destes "astros" de hoje, com seus cabelos esculpidos a laser e nomes compostos que parecem ter saído de uma novela mexicana. Estão mais preocupados com likes no Instagram e com contratos de patrocínios do que com a bola no fundo da rede. Ninguém nega que todos do meu time aceitariam esses contratos e ser esse fantoche. Dinheiro é bom e todo mundo gosta. Mas, se estamos na várzea, o e a jogadora é gente como a gente.


Tem o “Tanque”, um cara enorme que fica responsável por organizar a bebida e música pós jogo. A Tia Cris, dona do bar e torcedora fanática que xinga o juiz com a sabedoria de quem já viu de tudo nesse mundo, adora criticar o time na resenha pós jogo e cuida das crianças enquanto entramos em campo. Tem o "Pé de Pedra" que todo jogo e a cada falta deixa time e torcida na esperança de que ele fure a rede ou derrube um pelo caminho. Tem o “Buffalo”,  zagueiro que, segundo a lenda, fica bufando pelo campo e não fala um palavra durante o jogo. O cara se transforma em um animal durante os jogos.


São estas histórias e poder frequenta-las com sua família que vai fazer com que você se apaixone pelo futebol de várzea.


Um lugar onde o gol não precisa de replay para ser inesquecível.



A falta de carisma e identificação dos jogadores com a seleção é uma praga do futebol moderno e a principal causa do hexa não vir. Eles vêm de todos os cantos do planeta, mas não têm um pingo de amor pela camisa que vestem. Até o Cássio abandonou o Corinthians, gente. Puta Que Pariu, como assim? Na várzea, o sentimento é puro, é comunitário. É o Duh Doido, o Pedro Bombeiro, o Marquinhos da Padaria, a molecada do bairro se unindo em torno de um propósito comum: Reunir a família, levar eles para esse lugar do “Extra-vida”, vencer o time adversário, torcer para se classificar para outros torneios da cidade e ajudar o próximo. 



Então, meu caro e minha cara, estou com a moça da padaria!


Abaixo ao futebol moderno e viva a várzea. Na próxima vez que pensar em desembolsar uma fortuna para ver um espetáculo de plástico de times e jogadores que pouco fazem com o dinheiro e holofotes que recebem pelo bem social, lembre-se do campinho de terra batida, do Society e dos centros esportivos do seu bairro que estão das 06h às 22h com jogos incríveis (ou no mínimo engraçados e cheios de histórias) rolando. Lembra da cerveja gelada na arquibancada e depois do jogo com os jogadores e jogadoras. O verdadeiro futebol está ali, na várzea, onde a paixão é genuína e o amor pelos amigos, amigas, família e pela bola é incondicional. Que a várzea viva para sempre, como um lembrete de que o futebol é, acima de tudo, do povo.



Nunca foi e nunca será, só futebol!

Bob Wilson

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