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Histórias Dentro da Nossa História


Indígena anciã fumando cachimbo
Nossas origens estão onde nem sequer perdemos tempo em pensar...(imagem IA DALL-E 3)



Apesar de minha avó materna ter ascendência indígena direta (seus bisa ou tetravós) , pouco sei desses meus parentes. Da minha avó, creio que herdei a pele, alguns costumes alimentícios (amo macaxeira/mandioca), a veia espiritualista — quem sabe fui xamã ou pajé, numa das vidas anteriores? Além de um respeito imenso pela sabedoria ancestral.


"As sociedades indígenas prezam muito por duas coisas: respeito e ligação com a natureza e respeito à sabedoria dos anciãos. É ainda comum nos povos indígenas o pensamento de uma vivência sustentável — retirando da natureza somente aquilo que é necessário para a manutenção da vida. As pessoas mais velhas são consideradas mais sábias, o que garante a elas certa autoridade dentro da tribo."

O curioso é ... não ter sido curiosa, apesar de saber dessa ancestralidade tão próxima. Olhando para esse passado misterioso, posso dizer que ... havia sinais. Não de fumaça. Bem, quase. Do cachimbo de madeira que minha avó costumava fumar, acorada, para seus transes meditativos, meio escondida — ou por saber que o cheiro era desagradável. Muito desagradável. O fedor do fumo puro — fumar era hábito presente entre os indígenas — chegava até nós. De longe respirávamos o cheiro, e para longe corríamos dele.



Dona Hilda — como conhecida — era uma mulher muito forte. Contava histórias para distrair os netos, prendendo a nossa atenção nos detalhes. Nada era assustador, nem mesmo o saci ou o curupira que ela descrevia.  Seu olhar, além de profundo, era realçado pela íris esverdeada que contrastava com a pele amorenada pelo sol e pela ancestralidade. Olhos verdes que alguns netos e bisnetos herdaram. Aliás, minha origem é bem característica do povo brasileiro nordestino:  a mistura dos ancestrais portugueses, africanos, Italianos (do meu pai) e indígenas. Com pitada dos franceses e holandeses que passaram pela Capitania de Pernambuco e Alagoas. Certamente os olhos verdes da minha avó veio da mistura dos ancestrais dela...



Ela teve uma sorte diferente dos ancestrais indígenas: conseguiu um canto pra chamar de seu. Sem derramamento de sangue. Casa e um sítio bem pitorescos, num lugar com nome que denota a parte da influência dos povos originários desse nosso Imenso Brasil: Tatuamunha — que significa “Tatu pequeno”.  Um pequeno povoado localizado em Porto das Pedras, que atualmente faz parte da Rota Ecológica dos Milagres. Fica no litoral norte de Alagoas, com belas praias de água quente, com piscinas naturais, abundância de vida marinha, e encontro da água doce do rio com a salgada, do mar.  Um lugar que frequentávamos desde a infância, ainda quando o sanitário era um buraco na terra, elevado o suficiente para sentarmos, e coberto com uma tábua de furo redondo.


As paredes, executadas inicialmente de taipa, com telhas e madeiramento aparentes, por onde passeavam livremente os morcegos, à noite, para nos assustar. Uma casa típica, uma oca de conforto e amor de nossa infância. Depois a casa precisou ser reformada, e as pinguelas (pontes toscas feitas de pau) que levam à praia paradisíaca com o mesmo nome. Que está virando rota de famosos, com resorts para demarcar bem a presença de invasores, como a história nos mostra.



O interessante — pra não dizer triste — é que não conheço a história da minha ancestralidade direta. Assim como muitos brasileiros, que trazem no sangue a mistura do Brasil colonial, na mescla dos escravos africanos, dos indígenas locais e de todos os imigrantes que recebemos no período colonial. Mesmo sendo obrigatório o ensino da História do Brasil e da História Geral, na “minha época”, nunca fui despertada para a busca de mais conhecimento. E muito foi se dispersando pelo tempo, os poucos que conheciam mais da nossa história partiram para outra dimensão.


E eu me pego, agora, diante da bisbilhotice de saber de onde vem minha conexão com a história dos povos indígenas que conviviam com o espírito da floresta, que tinham seus rituais envoltos em magia, e que, com seus costumes, além da linguagem, originaram palavras — muitas ligadas à nossa flora e fauna — que permeiam nossa rotina. A herança dos indígenas está à nossa frente, e muitos desconhecem.


A herança dos indígenas está à nossa frente, e muitos desconhecem. Talvez nossos filhos, netos e descendentes não sabem, nem saberão, que muitos dos hábitos, costumes, alimentação e crenças da sociedade brasileira são herança direta dos povos indígenas, como, por exemplo: o hábito de andar descalço, o costume de dormir em rede, o hábito da pesca e caça, alimentação à base de mandioca, farinha, polvilho, beiju, além das crenças na eficácia das plantas. 

Eu ainda conservo esses hábitos, e como essa comida. Frutas, legumes, verduras, peixes, milho, mandioca (macaxeira), batata-doce, inhame — conservo na minha alimentação, até hoje (ainda mais agora, que passei dos ...deixa pra lá). Amo pamonha, tapioca. Comia o biju que dona Hilda fazia, no fogão a lenha de sua casa, e brigava pelos sequilhos (bolinho de goma, biscoito à base de goma da mandioca). Lembro de seus bolinhos de feijão, que eram formados no seu prato, pela suas mãos, e que nos oferecia, e que comíamos com prazer, com nossas mãos.

"A mandioca era a principal fonte de carboidrato deles, por isso era amplamente cultivada. A tapioca e a farinha de mandioca eram maneiras de estocar a mandioca para a utilização posterior.
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Hoje em dia, apesar de manterem muitos hábitos alimentares, os indígenas que permaneceram tiveram que se adaptar aos hábitos alimentares da sociedade brasileira contemporânea. A caça, a pesca e a coleta, que eram possíveis quando as florestas eram preservadas, já não são mais suficientes para alimentar a pequena população indígena, devido ao desmatamento."

Tomei banho de cuia, amo descansar na rede, mas só conheci a bolsa canguru depois que não dava mais pra carregar meu filho. Uma pena. Tenho artesanato feito de cabaça nas minhas prateleiras.  E tenho o misticismo inquestionável, que me move, independente de religião, na busca do conhecimento. Não tive coragem, ainda, de experimentar a ayahuasca nem o rapé, mesmo tendo o uso de ervas e do cachimbo como exemplo, em casa. Ervas naturais, claro.



Dona Hilda tinha suas “premonições”. Talvez obtida em seus momentos com o cachimbo de madeira, que muitas vezes trazia a paz para a família. E lá pelos seus sessenta e mais anos, participava das “rodas” num terreiro de um famoso pai de santo, em Recife. Orgulhosa, se deixava fotografar vestida a caráter – uma roupa com várias saias rodadas, muitos babados na blusa, colares de contas coloridas e turbante. Lembro que suas pernas tinham muitas varizes, e, depois que ela conheceu o tal pai de santo, e ele receitou uma infusão de ervas naturais, e um determinado grão, as varizes sumiram. E ela mostrava a tal semente alojada em suas pernas.

Curada e feliz. Uma mistura de ritos de pedidos e agradecimento às divindades que trazemos no sangue brasileiro.

Dessa minha vó herdei a curiosidade e respeito — com as mitologias, o artesanato, a meditação (forma de Estado Alterado de Consciência/EAC disponível para os praticantes), e o despertar para terapias holísticas, que cuidam do tripé corpo-mente-espirito, como fazem os xamãs e curandeiros, protegidos em suas ocas energizadas pelos espíritos da floresta. E que fazem parte das atuais egrégoras espiritualistas que se descortinam nas terapias multidimensionais, como os rituais de dança indígena, num momento de transe característico, compatível com mantras e outros rituais que complementam a ajudam a cura não obtida com a psiquiatria, a psicologia — onde tratamentos convencionais demoram mais a tratar.


"Os pajés, que são as pessoas que podem entrar em contato com as entidades espirituais, utilizam a sabedoria aprendida com os espíritos para aconselhar as pessoas e fazer rituais de cura. Os rituais, chamados pajelanças, poderiam ser feitos em festividades, como forma de agradecimento e de pedido, e para efetuar curas medicinais. Eles envolviam, em alguns casos, música e dança. Era comum o pajé utilizar-se da inalação de grandes quantidades de fumaça de tabaco para que, em transe narcótico, pudesse fazer contato com os espíritos."


É uma pena que nossos  se você nasceu no Brasil, com certeza posso generalizar — ancestrais estejam se dizimando, espremidos em terras que sequer podem chamar de suas. É uma pena que minha memória não tenha retido as histórias que minha avó contou, e que eu, não tivesse idade ou conhecimento, quando ela era viva, para perguntar mais dela e do que ela conhecia, de sua história.

Dona Hilda faleceu em sua casa, sozinha — porque era nômade, transitava entre as casas dos filhos (sete) mas sempre voltava para a sua. Aos 94 anos, com os cabelos grisalhos, apenas. Sem nunca ter pintado para cobrir os fios brancos de sua existência. Um infarto fulminante a devolveu à ancestralidade.


Mas sempre quando vou a Tatuamunha, sinto sua presença. Lá, na calçada em frente à casa, costumamos sentar numa cadeira e olhar as estrelas. Conversamos com os vizinhos, muitos conheceram dona Hilda. Tomo banho de rio, ainda com medo de encontrar um peixe-boi — por lá há uma associação comunitária composta por ribeirinhos, pescadores, estudantes e moradores dos municípios de Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres.


A Associação Peixe-Boi tem como missão de organizar o turismo de observação do peixe-boi, contemplando os ecossistemas de mangues e recife de corais, fornecendo passeios guiados pelo Rio Tatuamunha, local escolhido para ser um santuário de peixes-boi.



Tatuamunha me relembra minhas origens. O povoado é constituído basicamente por uma rua que liga diversos outros, e cada uma com praias ainda pouco conhecidas. Embora haja vários resorts, atualmente, construídos ou em construção, à beira mar. Coisas do Brasil ainda colonialista, que resiste a aceitar sua história como parte essencial para sua evolução, com respeito e preservação, limitando o uso de belezas naturais para turistas com maior poder aquisitivo, enquanto os povos originários lutam para garantir o direito às suas terras, seus costumes e tradições.


Historiadores apontam que, em 1500, existiam cerca de quatro milhões de indígenas habitando as terras brasileiras. Hoje, a Funai estima que um milhão de indígenas vive no país, espalhados em 250 etnias, que, em suas aldeias, ocupam cerca de 13% do território. Essa pequena parcela ocupada somente se mantém devido à demarcação de terras indígenas.

A demarcação que nossos bravos e resistentes povos originários lutam, ainda, pelo direito de ter e existir, destarte o genocídio praticado desde 1500 que, infelizmente, ainda permanece. Mesmo com o esquecimento e a desvalorização do que herdamos, como brasileiros, da cultura indígena tão rica, interessante e valiosa. Que deveríamos lutar para manter na nossa história, e permanecer viva para nossos descendentes.


Que tal perguntar a seus pais, seus avós, seus amigos e professores para conhecer mais sobre a cultura indígena? Está no seu sangue!


Conheça um pouco mais... vale a pena perder um tempinho, em vez de buscar as fofocas das redes sociais 😊. Pelo que você vai lutar?




 

Goretti Giaquinto

Desafio #38 de 365


Tema: Dia Nacional dos Povos Indígenas


Escrever um artigo sobre o tema, incluindo dados e, ao menos, um relato (entrevista com um indígena – pode ser da internet), suas considerações sobre o tema. Dar os créditos de onde e com quem foi a entrevista.

Pesquisa nos links indicados nos botões.


Esse tema é vasto. Daria uma dissertação imensa. Mas eu preferi dar o meu testemunho sobre a influência da minha avó , que afirmava ser bisneta (ou tetraneta) de indígenas e contava histórias que minha memória apagou.


Tentei resgatar algo sobre a vida dela, mas meus tios, dos poucos ainda vivos, também não sabem muito.


Mas o pouco que lembrei juntei a uma pequena pesquisa, em alguns dos muitos sites existentes, para contar um pouco da minha história, que deve coincidir com a história de muitos (ou a grande maioria) dos brasileiros que têm histórias de um passado iniciado lá no Brasil colonial. E que, infelizmente, se esqueceram disso...







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Puella

1 Comment


Lembro dos bolinhos de feijão comidos das mãos dela, do cheiro do cachimbo… e das baratas voadoras no banheiro rústico que me faziam correr pra dentro e para fora assim que fizesse xixi😂😂

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