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História Para Aquecer o Coração

Isabel era médica em um hospital, tratando de pacientes vítimas de queimaduras. Perguntava-se todos os dias porque insistia nesse campo da cirurgia plástica, quando poderia estar ganhando mais dinheiro na área da cirurgia estética.


Em seu consultório particular, atendia mulheres de diversas faixas etárias, com demandas exigentes do que queriam esticar, ou se livrar. Eram mulheres ricas, geralmente insatisfeitas, com baixa autoestima e  problemas de imagem corporal. Ou com o casamento em crise. Na maioria das vezes, o problema a ser corrigido poderia ser trabalhado com um bom psicólogo ou terapeuta corporal - ou mesmo, um divórcio. Como profissional, optava por não operar estas pacientes, encaminhando-as para terapia. Não aceitando a recusa, elas diziam que iriam procurar outro cirurgião plástico disposto a atendê-las. No prédio do seu consultório havia pelo menos oito colegas, mais espertos, ávidos por tratar pacientes inseguras como aquelas.

A profissional preferia manter-se fiel `sua ética, e continuar a ser “mais pobre e estúpida” – como diziam as amigas – cuidando de vítimas de queimaduras. Seus colegas não gostavam deste campo de trabalho, o qual exigia muito esforço técnico e braçal para o cirurgião. Mas os pacientes eram diferentes: confiavam no time de profissionais às voltas com seu tratamento, tentando salvar suas vidas ou minimizar os danos da fatalidade. Muitos deles sobreviviam, alguns com cicatrizes, outros com deformante sequelas corporais. Todos com marcas psicológicas e emocionais profundas.


Uma de suas pacientes, a Regina,  sofreu queimaduras graves. Tratada por semanas no centro de terapia intensiva (CTI), foi submetida a muitas cirurgias de reparação da pele consumida  pelo fogo,  além  de acompanhamento clínico e psicológico. Teve alta hospitalar após um mês, com previsão de sequelas adicionadas à problema físico anterior à queimadura. Ela sofrera trauma de parto ao nascer, por isto caminhava lentamente, com dificuldade, e sua dicção era quase incompreensível.


Durante sua estadia no hospital, um homem (apresentado como amigo) lhe fazia visitas rápidas, e, aparentemente, se ambos mantinham um relacionamento, não era aprovado pela família dela. Após a alta, Regina compareceu a algumas consultas de acompanhamento, passou por algumas cirurgias reparadoras, e... sumiu.


Meses depois, os colegas médicos avisaram Isabel de que uma de suas pacientes estava de volta no CTI, e chamara por ela. Era Regina. Havia tomado remédios, numa tentativa de suicídio. Chorando, confessou que seu primeiro acidente – com queimaduras pelo corpo - tinha sido sua primeira tentativa de suicídio. Explicou que morava com o tal amigo, e que ele lhe ameaçara abandonar. Como ela tinha deformidades físicas – piores com as sequelas da queimadura -, achava que ele seria o único que a namoraria. Sofrendo com o abandono,  jogou álcool no corpo e ateou fogo em si mesma. Após esse acidente, conseguiu que ele ficasse por um tempo, até que ele ameaçou ir embora, novamente. Desesperada, ela ingeriu vários remédios e fora trazida ao hospital.


A especialista ficou arrasada com a história contada pela Regina, com muita pena da garota marcada por uma  vida tão sofrida. Entretanto, optou por lhe passar um sermão firme, mostrando o quanto a família se importava com ela, sem reciprocidade, aparentemente. Insistiu em mostrar  o quanto os médicos envolvidos no seu prévio tratamento tinham investido muito tempo e dedicação para lhe salvar - deixando suas famílias para cuidar dela. Lembrou-lhe que ela tinha condições de viver sua própria vida, sem depender de um parceiro. Foi ainda mais dura,

dizendo-lhe que, se atentasse contra sua (Referência de GIF: WIX)

vida de novo, nem se importasse em lhe

chamar. Regina chorou muito, e prometeu procurar ajuda terapêutica.


Alguns meses passados, Regina reapareceu à consulta médica, maquiada, bem-vestida. Parecia  a mesma de antes, fisicamente. Mas mostrou-se outra mulher. Agradeceu pelo sermão, que havia lhe tocado profundamente. Frequentava, agora, um centro espírita, onde lhe disseram os porquês que tanto queria saber, acalmando-lhe o espírito. Conseguira conforto por entender o sentido de tudo aquilo que estava vivendo. Confidenciou, entre lágrimas, que seu ex havia lhe deixado, mas tempos depois havia retornado, numa condição diferente:  estava com os dias contados, acometido por um câncer agressivo. E Regina decidira ficar com ele, até seu falecimento. Perdoou-o, de coração, e ele partiu com um sorriso nos lábios.


No reencontro emocionado,  médica e paciente se abraçaram, chorando.  Em seu íntimo, com esse depoimento, Isabel ficou feliz por saber que seu duro sermão havia tocado o coração de Regina, tornando-a mais forte e capaz de continuar a viver com mais sabedoria. Ajudara a enxergar a missão de vida à sua frente. Mesmo com outras  cirurgias reparadoras necessárias que se seguiram, Regina  continuava mais firme na sua missão, determinada a vencer todos os obstáculos pela frente. Ela e a médica viraram amigas, até que suas vidas seguiram destinos diferentes.

 

 

Gattorno Giaquinto

Desafio #66: Folga da Caneta

Escrever sobre o que quiser, do jeito que quiser e do tamanho que quiser.


 

História com elementos da vida real, embora personagens e condições alteradas para manter anonimato dos envolvidos.


Se os leitores conhecem ou passam por situações de vida similares, existem profissionais competentes capazes de atendimento no setor público e privado.


Cirugia plástica estética e reparadora fazem parte do treinamento de cirugiões plásticos. A opção pelo campo a seguir se torna individual, mas ambas são dignas de respeito. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mantém lista dos profissionais competentes nesta área.



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