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Frustração - Parte 3

Entrei no mesmo ônibus da Doroty e me sentei num banco atrás dela, mas algo estava estranho e eu não sabia explicar. Como me sentei no banco encostado na janela, coloquei os fones de ouvido e me mantive calmo até o momento que Doroty levantou para descer. Esperei ela ir até a porta de trás e foi quando eu pulei do banco e desci junto.


Percebi que ela estava incomodada com a minha presença. Enquanto eu abaixei os olhos para atravessar a rua, Doroty sumiu. Continuei caminhando até que fui puxado para uma viela, caí de costas numa poça de lama e quando olhei para cima, estava ela ali me olhando com cara de poucos amigos.


Enquanto eu a olhava com cara de terror, ela estendia a mão para que eu me levantasse. Saí daquele buraco e fui convidado a acompanhá-la.


Fomos caminhando por quatro quadras até chegarmos numa casa humilde, portão baixo, casa antiga amarelada pelo tempo, jardinzinho na frente.

Já dentro da casa, senti um frio na espinha. Descemos uma escada estreita, fui empurrado lá para baixo, pensei que nunca mais fosse ver a luz do sol.


Da mochila dela saíram alguns instrumentos que eu não posso mencionar, pensei, morri, adeus mundo cruel. Ela me amarrou na cadeira e antes que ela continuasse, lhe fiz uma pergunta, "qual a sua frustração?" Ela me mandou calar a boca, saiu de perto, seguiu para um corredor estreito, um tipo de porão que se ligava aquele que eu estava, abriu um cadeado, tirou as correntes da porta e acendeu a luz. Empurrou minha cadeira para a mesma direção, me fazendo abrir os olhos e ver o que ela guardava ali. O que é mesmo que você quer saber a meu respeito? Se tenho uma frustração?


Eu fiquei atônito olhando aquelas estantes largas contendo corpos perfeitamente embalsamados dentro de criptas acrílicas. De quem são? eu perguntei. São meus parentes. Aprendi esse ofício com o meu pai, mas não posso contar para ninguém meus segredos, não posso me mudar daqui, não posso vender a casa porque não tenho como explicar, mostrar, expor meus parentes mais próximos que morreram em casa. Todos eles tem certidão de óbito? Alguns tem, outros não! Então você pode levar com você os corpos que tem certidão. E o que faço com os outros? Você é da polícia, você que tem que me dizer como resolver esse BO.


Parece que me livrei da morte e a livrei da dor.



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