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Doutor Google e o Desafio de Ser Médico ... e Paciente


Pesquisa do google
Hoje todo mundo pode ser médico, basta googlar... só que não ;(


— Bom dia, dona Vivi.  O que a traz hoje aqui? Não nos vimos há dois dias?

— Bom dia, doutor. É que estou sentindo umas coisas estranhas.

— Que tipo de coisas? Alguma dor?

— Mais ou menos. O senhor viu aquela moça que morreu anteontem? Saiu na internet. A do fígado.

— Qual moça? Morre tanta gente todos os dias!

— A que deu problema no fígado e teve que receber outro que não deu certo. Era famosa e nova. (Médico que não lê notícias, sei não… pode estar desatualizado!)

— Mas o que tem a morte dela com o que a senhora está sentindo? Era parente sua?

— Não, senhor, mas eu li que ela tomava muitos remédios e adoeceu. Teve hepatite por causa dos remédios. Aí precisou de transfusão e deu errado.

— Transfusão ou transplante? A senhora está com dor? Febre? Náuseas?

— Não, doutor. Eu li que tomar muitos remédios faz mal, e comecei a me sentir esquisita, o senhor sabe, hoje os remédios dão mais efeitos colaterais que consertam os problemas da saúde da gente. Eu li, inclusive, que aquele remédio que o senhor passou na vez passada causou…

— Qual remédio, dona Vivi? Eu só passei vitamina C, paracetamol se tivesse febre, e repouso, lembra? A senhora está lendo essas coisas onde? (Na faculdade não tem a disciplina de paciência!)

— Na internet, doutor. Lá tem tudo. Eu vi que esse remédio que o senhor passou, inclusive, está proibido para os americanos. Aí eu falei com o moço da farmácia, e ele me recomendou aquele outro, menos perigoso, que todo mundo usa. A aspirina. Eu aproveitei e comprei vitamina C, vitamina A, vitamina D, Cálcio, para ficar boa da gripe.

— Dona Vivi, a senhora estava com um resfriado, não precisava de nada além do que lhe receitei (A farmácia quer empurrar remédios, e o povo cai direitinho!)

— Achei que podia ser COVID, e o moço recomendou para fortalecer minha resistência. Minha vizinha me deu também um remedinho que pegou no postinho, tomei 10 gotas e dormi muito bem. Foi ótimo, estava cansada. Da gripe. Precaução, doutor. A gente vê tanta morte ainda pelo tal de vírus, e agora essa hepatite. Sou nova ainda, preciso me cuidar.

— Mas o que a senhora está sentindo hoje?

— Fastio, doutor. Não consigo comer direito.

— O resfriado deixa a gente sem sentir gosto na comida, por isso a senhora não sente fome.

— Eu li que falta de apetite pode ser fígado. E com tanto remédio que estou tomando, posso estar com essa hepatite, né?

— Dona Vivi, a senhora resolve acreditar mais no rapaz da farmácia, na internet e na sua vizinha. Vamos fazer uns exames para lhe tranquilizar, tá bem?

— Que exames? O senhor acha que estou com algum problema sério? Estou com câncer? (Vixe Nossa Senhora, esse médico já está me agoniando ainda mais!)

— Não, dona Vivi. Vou só pedir um exame de sangue, para lhe tranquilizar. As taxas vão indicar se há alguma infecção, e a gente cuida disso.

— Taxas? O senhor acha que estou com problema no intestino?

— Não, senhora, fique tranquila.

— O senhor está esquisito, doutor. Pode ser sincero comigo.

— Dona Vivi, o exame é simples e só para lhe tranquilizar. Eu sei que a senhora está ótima.

— Mas doutor, o senhor nem pôs a mão em mim e já acha que eu não tenho nada?

— Dona Vivi, a senhora esteve aqui anteontem e eu lhe examinei, está tudo bem com a senhora.

— Como o senhor tem certeza disso? Não pediu nenhum exame anteontem! (Só queria me dispensar, vive de consultas-relâmpagos!)

— Eu não pedi exame porque não precisava.

— E agora precisa? O senhor está me escondendo algo? (Bem que eu li que os médicos hoje querem despachar os pacientes sem perguntar nada. Depois a gente morre e fica tudo bem. Só sai na internet quem é famoso, paga médico caro. Os pobres morrem por falta de atenção).

— A senhora é minha paciente há anos, tem feito exames regulares e está tudo bem. Ou confia em seu médico, ou no moço da farmácia, na vizinha e no que sai na internet.

— Tá bom, pode me passar o exame. (Mais um, deve receber algo dos laboratórios.)

— Volte quando receber o resultado, certo? E não abra, deixe para analisarmos aqui.

— Certo. Até mais. (Pra quê? Vejo no Google! Temos que ter paciência com esses médicos novos! Se acham tamposos e só pensam em dinheiro)

— Até mais. Aguardo a senhora.




 

 

Goretti Giaquinto

Desafio #53 de 365

Tema: Diálogos

Escrever diálogo com duas personagens, sem uso de pronomes “ele,ela”, ou verbos “disse, falou, respondeu”

Este texto é ficcional, e não tem o compromisso de criticar ninguém.

Pode ocorrer esse diálogo, na vida real, mas o respeito e a paciência são imprescindíveis para o nosso mundo!

E os médicos são profissionais que salvam vidas, num compromisso que toma muito tempo de suas vidas, em prol de vidas que não são as suas, mas que deles dependem, em muitos casos. 🤗


 

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3 Comments


Além do Google para apavorar, tem as bulas também. Se a gente ler atentamente, pode ser até que desista de tomar o remédio. O melhor mesmo é confiar nos médicos...

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Sempre é melhor aguardar a consulta médica de retorno e ter o diagnóstico do que procurar no google, mas tem paciente de todo tipo..

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Já não se fazem pacientes como antes😉🤣🤣🤣

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