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Do Futebol a Frustração de Uma Geração Engolida pela Tecnologia

Vocês já devem conhecer e ler os textos dos escritores do "Clube da Escrita" do projeto É Dia De Escrever. Lá, eles recebem desafios literários para incentivar e criar uma rotina de escrita e leitura. Na verdade, acho que isso é o raso da questão. Acredito que estes desafios levam para estas pessoas um motivo para não deixar o cérebro secar. Pensar sobre assuntos diversos, nos desafiar a escrever sobre tudo e todos, inventar histórias, pesquisar sobre uma caralhada de assuntos, conversar com pessoas, família, entre outras ações que os levam a vivenciar a vida e qualificar suas escrita, é o que encontro de mais valioso neste processo.


Mas amiguinhos e amiguinhas, pensar nos leva a nos frustrar. Expectativas nos levam a nos frustrar.

Este desafio “Deposite Aqui Uma Frustração”, é muito do canalha. Digo isso porque todos temos frustrações. Eu, para dar um exemplo de frustração que carrego desde a infância, queria ser jogador de futebol. Não fui. E hoje, jogo peladas em campos hostis só para sentir o gostinho de marcar um gol para ninguém.


Ontem, entre um gol perdido e a tensão de recuperar o fôlego enquanto representava o meu melhor personagem como atacante de um time de várzea, eu elencava as frustrações da minha vida. Uma delas (coisa de meia idade), é já não mais conseguir acompanhar os jovens nem na corrida dentro do campo e nem no avanço tecnológico e cultural. Minha geração (que hoje está na faixa dos 30 aos 40 anos) é marcada por uma transição tecnológica sem precedentes. Achei que a copa de 94 (eu com 9 anos) seria a maior ascensão de um time (falido) e de algo que poderia ver nesta sociedade. Mas não, amizades! Minha geração foi a geração que nasce sem acesso a internet (não tô falando de ricos e herdeiros aqui) e presencia a ascensão dela, a revolução dos smartphones e, mais recentemente, o impacto avassalador da inteligência artificial (até no futebol a danada já chegou). O foda é que boa parte da nossa geração (dos 30 aos 40), ao invés de se sentirem empoderados por essas inovações, muitos se veem presos em um ciclo de tentativa, erro, frustração e insatisfação.


Vamos focar na questão do trabalho na era digital. Tenho camaradas que a princípio adoraram o tal do “Trabalho em Casa”. Mas não bastou 2 anos para ficarem doentes (da cabeça) e pedirem para voltar para os escritórios. Só quem não trabalha não percebe as transformações profundas que esse setor sofreu nos últimos anos. A pandemia de COVID-19 acelerou a adoção do "home office", alterando a dinâmica laboral de forma significativa. Enquanto alguns apreciam a flexibilidade, outros lutam contra a sensação de isolamento e a invasão da vida profissional na pessoal.


Outro dia, viajando pelo "SeuTube" da vida ouvi falarem sobre, Shoshana Zuboff, e seu livro "The Age of Surveillance Capitalism" (A era do capitalismo de vigilância). Lá ela escreve que "A era digital prometeu libertar a humanidade de limitações, mas acabou por acorrentar muitos à vigilância constante e ao trabalho incessante"


Vocês aceitam e engolem tudo que o home office traz para nossas vidas? Embora conveniente, vocês não sentem (física e psicologicamente) como muitas vezes esse formato dilui as fronteiras entre trabalho e vida privada, levando a uma exaustão que parecia ser aliviada pela tecnologia?


Minha frustração e reclamação aqui não é sobre trabalhar de cueca em casa. Minha reclamação aqui é sobre a falsa ideia de que a tecnologia e o trabalho de casa nos é um favor dos patrões e mercado. Minha frustração é por não conseguirmos que neste país lambe botas do Tio Sam, a gente consiga a proibição da jornada 6X1 e nem da implementação de uma jornada 4X3 nas empresas. Quero trabalhar lá, e em casa só coçar vocês sabem o que.


Enfim, ontem, enquanto esperava do banco de reservas para debutar em campo, pensei muito sobre isso.


Quando comecei a mexer com esse negócio de internet, eu á tinha uns 12 anos e sonhava com um futuro repleto de possibilidades. A promessa dos filmes e de um trabalho mais fácil e prazeroso no futuro, não se concretizou. O que temos hoje é uma sobrecarga de informações, a dependência dos dispositivos e a constante necessidade de atualização sobre como usar estas caixas luminosas, quais as novas redes sociais que preciso criar uma conta, quantas visualizações e curtidas eu recebi hoje, produzir para o trabalho e para a internet, e tudo isso me deixa MA-LU-CO DEMAIS e geram uma pressão incessante. E isso é bem loco, porque é , principalmente, esta geração dos 30 aos 40 que estão nesta "noiaba". Percebo as gerações mais novas (dos 8 aos 20 e poucos), e as mais velhas (dos 40 e poucos para cima), estão cagando e andando para tudo isso. Óbvio que, todos se interessam pelas mesmas coisas, se atualizam, estão nas mesmas redes e atrás das mesmas coisas mas, percebo que só a geração dos 30 aos 40 estão ficando maluquinhos. 


Gosto muito da fala de, Andrew Keen, autor de "The Internet Is Not the Answer", que critica a ideia de que a tecnologia sempre melhora nossas vidas: "A internet, ao invés de democratizar e descentralizar o poder, muitas vezes reforça as desigualdades existentes e cria novas formas de exploração".


Na moral, eu me sinto explorado toda vez que ligo uma Tv, celular, computador e IPAD. Vocês não? Qual o preço que tenha que pagar (para além de luz, internet, contas de streaming, impostos e plataformas de streaming…) para poder só assistir meu futebol na tv ou streaming, por exemplo?

Entendam: não estou aqui preparando e incentivando molotov's contra a internet. Culturalmente, a tecnologia moldou minha (e acredito que nossas) interações e percepções. Desde chavecar no MSN as vizinhas na infância, até o uso da Alexa na minha casa, vivo, pesquiso e convivo com a tecnologia. Porém, fico frustradíssimo com o fato de que tudo hoje (em especial redes sociais) é um campo minado de comparações prontas para captar meus dados, costumes e usar isso contra mim.


Todas as gerações que cresceram com a internet, muitas vezes se vêem em uma corrida interminável para acompanhar as tendências e manter uma presença online atraente. A pressão para estar sempre "conectado" (seja no social ou no profissional), para mim, é esmagadora.



Quem aqui não se frustra com a incalculável contribuição da tecnologia para a formação e discussão politica na sociedade? É inegável a contribuição da tecnologia (no zap das tia, dos vô, Face, Fake News por I.A. …) para polarização exacerbada da nossa sociedade mundial. Criamos bolhas de informação que alimentam a divisão, a desconfiança e o ódio.





Já pensou que lindo seria se o bonitão do Mark usasse todo esse poder para, ao invés de criar caos e usar nossos dados para nos vender coisas e separar pessoas e famílias, ele usasse para informar, diminuir diferença social, informar e educar sobre o aquecimento global…






Outra frustração é essa. Dinheiro. O ser humano, em geral, nem que seja por pequenos momentos, e em alguma quantidade, vive por ele. Logo, as máquinas que criamos, só poderiam ser educadas para nos trazer (ou nos distanciar) dele.


E isso nos leva a pensar sobre a frustração que, embora a tecnologia tenha democratizado o acesso a informações e oportunidades, ela também trouxe à tona uma nova forma de exclusão. Quantas nas são as pessoas que não conseguem acessá-la por falta de recursos ou acompanhar o ritmo frenético das mudanças tecnológicas. É mais um degrau na escada da desigualdade. Os famosos “Excluídos Digitais”

Enfim, sobre frustração, pensei muito durante e após o jogo de ontem quando pelo 6º jogo seguinte não balancei as redes



Eu, e acredito que parte da minha geração, enfrenta um paradoxo. Crescemos com a promessa de um mundo transformado pela tecnologia, mas as mudanças nem sempre foram para melhor e muitas vezes nos sentimos aprisionados por ela. As transformações no trabalho, as pressões culturais e a divisão social criadas pela revolução digital contribuem para um sentimento profundo de frustração.


Como ja disse, não acho que a tecnologia tem que acabar, que é uma merda e não quero isso para minha vida e trabalho. O que digo é que precisamos achar uma forma justa de distribuição e acesso à ela e ferramentas tecnológicas avançadas, além de ter mais controle sobre nossos dados vagando por aí. 


Não quero ser dominado pela tecnologia, assim como não quero que os BOSS da vida, os poderosos, os, para mim, cambada de marditão (para não falar outra coisa), dominem meu tempo, emprego, dados e futebol.


A frustração dessa geração passa pela tecnologia. São muitas promessas, possibilidades e expectativas que o futuro e a tecnologia nos reserva, mas encontrar um caminho para a realização pessoal e profissional em meio a esse turbilhão tecnológico é o desafio dos quarentões desta geração.



Bob Wilson

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