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  • Sofia

De perto, ninguém é terráqueo




Papai Noel me visitou.

Ele veio boiando em um resto de calota polar que foi navegando pelo Atlântico até atracar no porto de Santos, e derreter por completo.


Chegou na minha casa, acompanhado de seu guarda-costas, um urso polar encardido e magrelo (as renas, infelizmente, sofreram uma insolação quando atingiram a linha do Equador e precisaram ser hospitalizadas), e já entrou pedindo água e ar-condicionado.


“O arzinho gelado eu vou ficar devendo.” eu disse, colocando o ventilador na cadeira em frente ao bom velhinho, que jogou o casaco manchado de suor em cima da mesa.


Agora, nos sentamos na sala em silêncio, o incessante motor da geladeira sendo a única coisa para quebrar a monotonia do ar, enquanto estudo atentamente o urso polar, que está de pé, com as patas entrelaçadas, junto à porta, e oro em segredo para que o pobre animal não decida saciar sua fome com um pernil de gente. Sabia que ursos polares são um dos únicos animais que consideram o ser humano uma de suas presas? Um macho adulto como aquele é mais alto do que a porta que está vigiando e poderia facilmente me transformar em espetinho.


Então me levanto e vou ao trabalho na cozinha, tentando calcular mentalmente quantos nuggets de frango seriam do agrado do maior carnívoro terrestre do mundo, e logo percebendo que seriam necessários, provavelmente, muito mais do que a caixa que tenho. Assim, cozinho também batatas, misturo nelas atum em lata e arranjo tudo em uma tigela funda, que coloco ao lado de meia bandeja de queijo em fatias, as quais preciso picotar com os dedos, para tirar as bordas secas.


Encho dois copos com refrigerante sem gás, e com isto está servida minha ceia improvisada, tão cheia de desavisos e último-segundos, tão sem rumo ou rima em sua disposição repentina, que faria chorar de desgosto uma avó italiana média. Sorte a minha, então, estar na presença apenas de um velho santo turco e um urso polar, que parecem apreciar meus esforços, apesar dos resultados.


Me sento novamente e observo, com curiosidade, Papai Noel pousar suavemente uma mão sobre a enorme pata do urso, que envolve o copo de refrigerante.


“Lembra do que o doutor falou, Ivan. Coca só uma vez na semana”. ele diz. Ivan grunhe profundamente, fazendo uma cara irritada que é surpreendente em sua expressividade, considerando que ele não tem sobrancelhas. Desliza o copo até mim com sua pata peluda, e eu o aceito sem muito jeito. A situação, eu admito, está começando a me inquietar.


“Então, seu Nicolau...” começo, relutante “Como eu posso ajudar o senhor”?


Papai Noel dá um gole em seu refrigerante com muita calma, como se ponderando a resposta.


“Vim aqui por um motivo bem simples: para fazer o meu trabalho. Hoje em dia, ninguém escreve mais cartas e minha vista se cansa muito rápido de ficar olhando para os e-mails na tela. Você tem e-mails, me escreve mais”. Diz: “Mas algumas perguntas devem ser perguntadas, senão meu ofício perde sua essência. Por isso, me responda, então, meio-garota: como você esteve este ano”? Papai Noel me pergunta em tom grave, me expiando por cima da armação redonda de seus óculos.


Me detenho, sem saber por onde começar e, assim, decidindo começar pelo que tem menos importância:


“Como eu estive? A pergunta não deveria ser se eu fui alguma coisa? Boa, ruim...?”

Papai Noel dá de ombros,


“É o que dita a tradição, mas, sinceramente, esse método é obsoleto. Se tivermos que nos debruçar sobre a moralidade de cada ação que foi tomada ao longo de um ano inteiro, nunca sairíamos daqui. Eu te conheço. Sei que você tem a tendência a conjecturar por horas sobre o porquê das coisas. Então, sem pensar num bom ou num mal, quero que você me conte o que vier na cabeça.” Ele diz, e me sorri um sorriso afável, que quase me faz querer chorar.


Isso porque quero lhe dizer tudo. Dizer que não é tão simples, que às vezes me sinto um fantasma, assombrando minha própria casa com ideias inacabadas, que quero libertar como pássaros e admirar, mas que nunca verão a luz do dia. Que, de vez em quando, me sinto criança de novo, de olhos e peito abertos para o mundo, com medo de espaços muito abertos e multidões muito grandes e do fim do mundo. Que eu não gosto mais de ir para a aula.

Que, apesar de tudo, não desisti.

Dizer que minha vida inteira eu esperei, paciente, pelo momento em que eu finalmente seria uma pessoa diferente, que não tropeça na calçada e não tem mais medo de nada, nem mesmo do futuro escaldante que nos espera, porque pensa sobre a própria mortalidade apenas cerca de três vezes na semana, e, assim, não chega a sentir que está jogando o tempo que tem fora, com pensamentos selvagens, que queimam em nós que não podem ser desfeitos.

Em vez disso, nunca me tornei outra coisa que não um alienígena disfarçado de astronauta, que perdeu as chaves da nave mãe e não consegue telefonar para casa, de forma que tudo que resta a fazer é flutuar cheia de uma vergonha pervasiva de não ter me metamorfoseado em algo um pouco menos cheio de sentimentos complicados.


Então eu encolho os ombros e sorrio, exalando as palavras como um suspiro.

“Não sei... Ok, eu acho...” e isso não é mentira, mas também não é a verdade que eu quero dizer.


Papai Noel passa um minuto completo torcendo o bigode enquanto me estuda, até que, para meu espanto e intriga, como se pudesse ouvir meus pensamentos, ele me responde:


“Sabe...Nada mais humano do que se sentir um extraterrestre no próprio planeta. Um enigma metamórfico para si e principalmente para os outros, como o cachorro que vira uma coisa incompreensível e assustadora naquele filme que você nunca viu inteiro, com os pesquisadores que ficam presos na Antártica.”


“Sempre me pergunto como conseguiram fazer aquele cachorro atuar tão bem...” digo, sem saber o que mais dizer.


“Pacientemente, do mesmo jeito que você está se fazendo atuar agora.” ele alfineta, em tom de brincadeira.


Não aguento. Solto uma risada sincera, e com ela se vai a vontade de descarregar no bom velhinho a angústia de ter estado algo que não sei muito bem o que é. Sinto que, no fim das contas, o velho esperto já sabia que isso aconteceria desde o início.


Se de perto ninguém é terráqueo, então nada mais justo do que deixar que meu cérebro queime com sentimentos selvagens que não consigo explicar. Que assim seja!


“Pra falar bem a verdade, o jeito que eu estive esses tempos é coisa de outro mundo”. digo, enfim, virando com gosto o refrigerante morno na boca.


Papai Noel se despede de mim naquele mesmo dia, com o brilho no olhar de um espírito travesso que causou o rebuliço desejado. Se vai a bordo de uma prancha de isopor, com a maré anormalmente alta, flanqueado pelo urso Ivan, que devorou toda a minha ceia tristonha sem deixar vestígios, e tem um semblante contente que parece fazer sua magreza e sujeira menos aparentes.


Aos poucos, somem pela noite de Natal veranil, cuja sensação térmica é a do próprio fogo do inferno, me deixando para trás com os ares de um ano prestes a morrer e nascer de novo, e com meus pensamentos alienígenas, que nunca param de arder.

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