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Conto, por Tainá Junqueira

Abre os olhos e permanece deitada na cama, esperando o despertador tocar ou os meninos entrarem no quarto procurando por ela, talvez buscando uma força, ainda sem origem, para conseguir se levantar. O despertador toca antes das crianças ou da força de enfrentar mais um dia invadirem o quarto silencioso.


Boceja com cuidado para não fazer tanta careta e se levanta junto ao marido, iniciando mais uma vez uma rotina monótona, já ensaiada, como um espetáculo em cartaz por anos com os mesmos movimentos repetidos: vai ao banheiro, ela faz o café, ele toma o café, ela arruma a cama, ele lê o jornal, ela arruma os filhos, ele sai rumo ao trabalho com as crianças para deixar na escola e é o primeiro momento do dia que ela se sente sozinha. Não. Erro meu. É o primeiro momento do dia que ela está de fato sozinha.


Algo a incomoda. Alice está inquieta. Sim, porque ela não para de mexer o pingente do colar em sua correntinha e de morder o lábio inferior da boca. Em um longo suspiro, retorna ao banheiro, passo não fora da rotina, é o momento de se arrumar, “para começar o dia” em suas palavras, mas hoje é diferente. Ela se encara no espelho. Não como quem procura obsessivamente as imperfeições como sempre, mas como quem tenta, talvez, se reconhecer. Será que é meu esse reflexo?


Parecia que perguntavam os olhos atentos. Era como se em um estalo, Alice passasse a ver coisas que não via antes, ou como se tivesse acordado na vida errada aquela manhã. Normalmente não era muito de sorrir, mas sua seriedade estava diferente, distante. Cadê a menina que vivia ali cheia de sonhos? Fatalidade. Não é a mulher que sonhava ser quando nova. Encara o espelho com uma certa empatia pela mulher que via nele, coisa que nunca fez por si mesma.


Mas se arruma. Coloca os fios do cabelo no lugar, tampa as olheiras com uma boa camada de maquiagem, blush moderadamente, coloca brincos, pulseiras, anéis, se veste com uma daquelas suas roupas escuras enquanto pensa na lista de hoje: fazer o almoço, lavar as roupas, fazer compras, buscar as crianças. Não Alice, essa é a lista de ontem. Ah não… é a de hoje, e que também deve ser a de amanhã. Mas tudo bem, mais um suspiro e ela já superou o fato de sua vida ser um eterno checklist, em que seu único objetivo é ter cumprido todas as tarefas no fim do dia.


Ela segue sozinha naquele apartamento pequeno que por um momento pareceu enorme. Um sufoco lhe sobe à garganta quando tenta alargar a gola alta, já se arrependendo da escolha da roupa. Não quer lavar a louça, muito menos a roupa, nem fazer o almoço ou… Calma Alice! Quer? De querer? Verbo novo. Geralmente ela não tem muita escolha ou nunca pensou que pudesse ter.


Agoniada com a breve solidão busca o telefone para ligar pra mãe:

- Alô?

- Oi mãe… é Alice! Bom ouvir a voz da senhora, como você está?

- Oi filha, tudo bem! E vocês? E os meninos?

- Todos bem…

- Diga Alice

- É… Não sei bem porque te liguei… ‘tava’ com uns pensamentos aqui…

- Pode falar, filha

- Ah… esquece mãe, doidera minha

- Oxi menina, diga logo, sou sua mãe

- Você já sentiu que precisava de algo mais?

- Como assim?

- Sei lá, você também não trabalhou né mãe e ficava em casa comigo e com meus irmãos, você já sentiu que queria mais que isso?

- Ai minha filha, querer eu já quis, mas não podia né, tinha vocês para criar! Mas por que? O que que ‘tá’ acontecendo? O Gustavo não voltou pra casa de novo?

- Não mãe, tá tudo certo! Deixe tá?! Beijos, preciso ir.


Na verdade, ela não precisava ir. O silêncio voltou a se instalar pelos cômodos da casa, como um vento que entra pela janela, estalando a madeira dos móveis. Andava de um lado para o outro sem saber se o telefonema com a mãe havia ajudado, piorado ou não dado em nada. É pelos meninos, eu amo eles. Ela disse em voz alta para si mesma, tentando se convencer daquilo, de que tudo era por eles.


Pega uma bolsa vazia, só para ter algo para levar consigo, e sai. Precisava tomar um ar, talvez caminhar, fazia tempo que ela não caminhava. E sai meio desnorteada na rua, como se não reconhecesse a vizinhança, não respondendo nem o ‘oi’ do porteiro. Do outro lado da rua, uma mãe arrastava o filho na calçada em um passo apressado, depois uma senhora andava calmamente apoiando-se em sua bengala. Mais adiante um moço passava assobiando, depois uma criança de uniforme esperava o sinal vermelho para atravessar a rua. E ninguém parecia ligar para Alice, que era só mais uma mulher daquela cidade.


Roda quarteirões, atravessa várias avenidas, procurando alguma coisa nas ruas da cidade que lhe fizesse algum sentido, que lhe provocasse alguma admiração ou curiosidade, que lhe preenchesse, nem que por instantes, o buraco que se instalara no peito naquela manhã. Na verdade muito antes, mas ela fingia que não via, que não sentia, só pesou de um jeito estranho hoje. Decidiu então pegar o metrô, quem sabe ir visitar a mãe, ou só observar as pessoas, indo e voltando, saindo e entrando.


Testemunhou um casal de roupas combinando. Uma criança que insistia ficar em pé ainda de pernas bambas. Uma menina que ria em ligação com alguém. Um moço balançava a cabeça no ritmo da música que ouvia no fone. Um homem de terno, gravata e maleta executiva parecia sorrir para todo mundo. Será que só eu sou infeliz aqui? Pensava Alice de novo inquieta, mexendo o pingente, mordendo o lábio, abaixando a gola alta. É quando ouve uma voz no fim do vagão chamando seu nome: Alice. Olha assustada pensando ser algum conhecido, ajeitando o cabelo e a gola da roupa. Mas não era. Não reconhece a mulher de cabelo curto e tatuagem se aproximando.


- Alice? É você?

- O...oi, sou eu. Desculpa, eu te conheço?

- Sou a Clara! Fizemos o ensino médio juntas, não lembra?

- Clara! Claro… - ri nervoso de surpresa e pelo trocadilho - Uau! Não esperava te encontrar assim, quanto tempo, como você está?

- Muito bem! Mas e você? Soube que se casou

- É… pois é! Me casei e tive dois filhos

- Nossa, não sabia! Parabéns! Uma menina e um menino como você sonhava?

- Sim… Minha mais velha tem oito anos e o mais novo cinco

- Que bom! Você conseguiu realizar seus sonhos então

- Mas e você, o que faz da vida? - pergunta Alice tentando fugir do assunto

- Sou escritora! Estou viajando o mundo escrevendo, está incrível!

- Puxa, nunca imaginei você escritora! Está feliz?

- Muito!


Faz tempo que Alice não lê. No máximo histórias infantis para fazer o menino dormir. Mas não foi isso que mais a incomodou após o encontro com Clara. Era escritora. Sem marido ou filhos. E era feliz? Pode ser que não, vai ser só maneira de falar em um diálogo forçado de velhas amigas que se esbarraram. Alice parecia que se indagava depois da despedida de um encontro de cinco minutos, ou melhor, duas estações até Clara ter que descer do metrô.


Sobrou ela só novamente, junto aos demais passageiros do vagão que ouviram toda a conversa. Será que todos ali eram felizes com suas vidas e histórias? Não carregavam arrependimentos ou sede de algo maior?


O metrô chega na mesma estação em que Alice embarcara, próximo de casa, depois de uma, talvez duas voltas inteiras na cidade. Ela caminhava desolada, mais por inércia do que por vontade, não tinha destino. Como ela pode ser feliz e eu não? Eu tenho uma família!

Segui à risca a receita da felicidade e... Nada?


E foi quando tudo desandou. Ela percebeu que foi traída, e sentiu isso da pior maneira possível. Não apenas pelo seu marido, pela sua mãe, sentia-se traída até mesmo por Clara, por todos que mentiram para ela, anos e anos dizendo que a melhor maneira de viver a vida seria seguir os passos de sua mãe, os passos de uma mulher direita e íntegra. Mas o mais grave de tudo isso, percebeu que traiu a si mesma. Traiu a pequena Alice. Que quando jovem dizia que mudaria o mundo, que seria diferente. Traiu-se quando deixou que a convence, quando cedeu seus sonhos a uma comodidade inútil. Sentiu-se traída pela própria felicidade que a abandonara quando deu a vida para seus filhos, para seu marido, para sua mãe. Só esquecera de si mesma.


Ao invés de ir pra casa, parou em um bar e bebeu tudo que não bebera nos últimos dez anos, ou porque estava grávida, ou porque estava amamentando, ou porque acordaria cedo no dia seguinte, ou simplesmente porque tinha medo de falar verdades sinceras demais quando bêbada. Sentada em um balcão do bar, riu de sua própria desgraça, chorou, quebrou o colar de tanto mexer, rasgou a gola alta de tanto lhe sufocar e só voltou para casa quando o próprio atendente do bar se recusou a dar-lhe mais uma dose do anestésico para sua dor. Não sei como conseguiu chegar em casa, andando torta pela calçada, dando de cara com sua mãe, que a esperava na porta de casa com feições sérias.


- O que é isso Alice? Você enlouqueceu de vez? Ficamos preocupados com você! Onde já se viu sair assim, sem levar celular nem nada, sem avisar ninguém! Não deixou almoço pro seu marido, largou seus filhos na escola te esperando! Você bebeu? Alice você é mãe! Você tem responsabilidades, sabia? Não adianta reclamar que o Gustavo não dorme em casa de vez em quando se você mesma não se dá o respeito e sai de casa desse jeito! Por sua sorte achei muito estranho aquele seu telefonema de mais cedo e vim fazer almoço e busquei as crianças, agora você que se entenda com seu marido e sabe de uma coisa? Dessa vez estarei do lado dele.


Alice permanecia muda. Pelo efeito da bebida, as tantas informações demoravam mais tempo para serem entendidas. Não disse nada. Não contestou a mãe, apenas a lançou um olhar de "eu sei de tudo". Entrou em casa e ouviu mais de seu marido. Das crianças não ouviu nada, elas mal sentiram falta da mãe. No fim, Alice não fez nada demais, saiu para passear, e retornou no fim do dia. Só não cumpriu a lista de afazeres diários e esse é um grave pecado. Mas amanhã a lista será a mesma e dessa vez Alice vai cumpri-la, afinal, ela é mãe e tem responsabilidades.



Tainá Junqueira é integrante do Grupo de Jovens do projeto É DIA DE ESCREVER.


Quer ler outros textos da Tainá? segue ela no @tainaajunqueira.

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