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Conto: O Professor Tá on, por Gustavo Loron

Segunda-feira, 8h.


Já era possível ouvir:


  • Sônia, me ajuda aqui. O que faço agora mesmo?

  • Eu não lembro, Ricardo. O neto disse que você tinha que clicar no link e abrir a câmera. Agora, como faz isso eu não sei…

  • Ah… Liga para ele!


Amanda, a primeira aluna da chamada e a mais inteligente de todos, resolveu ajudar. Ligou o microfone e conversou com o professor via videochamada.


  • Professor, bom dia! Já estamos te ouvindo. Você vai ver aí na tela um símbolo de câmera. É só clicar nele.

  • Oi, Natália - O professor sempre trocava os nomes dos alunos. - Não tem isso no meu teclado não!

  • Vai estar na tela, professor! - Respondeu outro aluno.


Ricardo não achou, afinal estava em outra aba no navegador. Ele espremia os olhos através das lentes grossas dos óculos procurando por algum sinal na tela. Os dedos largos clicavam no mouse sem parar, abrindo novas guias e campanhas publicitárias. Um cenário perfeito para qualquer vírus entrar naquele computador.


  • O Neto não respondeu! - Gritou Sônia da cozinha.


Os alunos tentaram orientar o professor, mas a cada dica parecia ainda mais confuso.


  • Clica no ícone.

  • Sai e entra de novo.

  • Aperta F5.

  • Autoriza o acesso à câmera.

  • E se fizermos só por áudio, professor?


Nada. Nada resolvia.


Pronto! O neto atendeu o telefone… Era possível ouvir resmungos do professor do outro lado do computador. “Não encontro”, “não tem no meu computador”, “não está indo”. Era notória a paciência do neto dele, mas já a do professor se evaporava a cada comando.


Passado alguns minutos, o professor apareceu. Os mesmos óculos, a camisa branca larga, as sobrancelhas grisalhas e um amontoado de livros bagunçados no fundo. A sua boca se mexia, mas nenhum áudio.


  • Professor… - Interrompeu Amanda. - Agora, não estamos te ouvindo.


Os alunos soltaram uma risada no canto da boca quando viram o professor levar a mão à testa e soltar um palavrão, tão intenso que foi possível fazer linguagem labial mesmo sob o pixelamento da imagem.


Dali em diante, virou uma novela muda. Os estudantes acompanharam a saga do professor andando com o notebook pela casa. Foram até a lavanderia, onde Sônia colocava as roupas para secar no sol. Ricardo apoiou o notebook na máquina de lavar e apontava para a tela reclamando.


Sônia chegou a colocar os óculos e se aproximar. Mas ela entendia muito menos daquilo. Então, ligaram novamente para o neto deles. Ricardo andava de um lado para o outro do quintal, impaciente.


Sônia, com o telefone na orelha, tentava decifrar o que o neto queria dizer. A videochamada caiu. Agora, ninguém mais ouvia, nem via o professor.


Às 8h30, novos ruídos aparecem na ligação. O professor voltou, em seu escritório, com imagem e som funcionando.


  • Estão me vendo e ouvindo?

  • Sim, professor! - Amanda se prontificou a responder pela turma.

  • Ótimo!


Ricardo abriu o livro e estava pronto para iniciar a aula, quando Sônia ligou o aspirador de pó. Os alunos logo reclamaram do barulho de fundo e, agora que Ricardo aprendeu a mutar a ligação, resolver fazer isso antes de pedir à esposa esperar a aula terminar para limpar a casa.


Acontece que, quando ele levou o notebook para a lavanderia, desconectou o mouse. Agora, ele mexia incessantemente no aparelho e o cursor não saía do lugar. Todos os palavrões passaram pela cabeça dele, era perceptível só de ver as expressões raivosas do professor.


Os estudantes começaram a ajudar por áudio. Virou um grande falatório que até Amanda desistiu de falar. Todas as alternativas possíveis eram sugeridas, até mesmo desligar o computador - essa foi a dica dos preguiçosos que não queriam assistir à aula.


Aspirador de pó. Ideias esquisitas dos alunos. O mouse não funcionando. O tempo passando… Ele estufou o peito, soltou o ar devagar e foi até a sala desligar o aparelho. Os alunos viram ele voltando para o escritório e entenderam que a aula ia começar.


O tema era Revolução Francesa e o professor começou a descrever o cenário da época. Explicou sobre a crise, a monarquia absoluta, as manifestações populares e o lema Liberté, Égalité, Fraternité.


Quando o rei Luís XVI foi executado, Ricardo percebeu um silêncio da classe. Nem mesmo Amanda fez observações sobre o conteúdo.


Ele foi conferir o horário no celular e viu um sms: “Professor, o senhor irá voltar para a aula? Acho que a sua internet caiu…”


Ricardo estava off desde a Proclamação da República Francesa.




Gustavo Lorón tem 27 anos, é formado em jornalismo e apaixonado por escrita.



Ele faz parte do grupo LGBTQIA+ do projeto É DIA DE ESCREVER.


Para saber mais sobre ele basta seguí-lo no instagram @gustaversos.

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