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Conto: O Passado Nunca Mais, por Maurício Rosa


Preciso contar essa história. Antes que eu a esqueça, preciso contá-la a uma,

a dez, a um milhão de pessoas. Preciso lançar essa história como quem cospe um insulto. Também quero dividi-la como semente (algumas palavras de revolta). Quero empurrá-la à força para alguns outros, de graça, feito uma benção. Serão todos testemunhas dessa história de começo, meio e fim precitados. Por isso necessito da ciência de vocês na assinatura desse pacto: tudo é verdade: as forças avessas, cruéis, e o que tiver de bom e limpo.


A realidade não tolera a ficção e acho que só assim é possível narrar um fato: tirando dele todo o sangue. Então restam os ossos para nossa fruição. Com eles construímos pessoas, armas e as nossas casas, por exemplo. Um fato é algo sólido que nem sempre se pode confiar. Podemos usá-lo como objeto de decoração, peça de museu ou dar com ele na cabeça dos homens burros.


Uma merda ou o suficiente, é o que temos. Com eles, os fatos, narrarei uma versão íntima de muitos instantes de violência e afeto. Com eles aceito e nego uma porção de coisas. Aos fatos, os fatos. Insisto na questão da verdade porque tenho uma queda pela mentira. Eu minto. Na minha vida, a mentira foi tão necessária quanto beber água ou tomar sol. Sem ela não estaria aqui para contar sobre o valor da farsa em tempos de exceção. A mentira para muitos é subterfúgio, escape. Para pessoas da minha geração, a única alternativa para sair ileso.


Os equívocos que nos trouxeram aqui, linhas tortas, de salvação ou de muita dor, equivalem ao testemunho de uma época. Apesar de consciente disso, não tenho essa pretensão. A minha história é pouca e quase não a tolero. Mas agora é a hora e, se vocês estão comigo, eu posso começar. Dentre os recortes possíveis, começo pelo começo. 1970. Ainda no início de tudo, não sabia que precisaria me esconder por 10 anos do Estado brasileiro. Durante esse tempo, aqui vai mais um recorte, me apaixonei por uma pessoa que me impôs um outro tipo de exílio. Eu, uma mulher fraca, nunca fui impetuosa até ouvir os estampidos do amor e do ódio.


I


Tinha 20 anos. Namorava o Jaime, um homem mais velho, diretor da companhia

de teatro Bons Ventos. Naquela época existiam muitos grupos amadores que almejavam a profissionalização e a Bons Ventos era mais uma aventureira a se jogar numa lona esfacelada. Vivíamos uma contradição porque queríamos ser grandes e marginais ao mesmo tempo. Essa antítese surgia como um pisca-alerta daquele período. Gostávamos, no grupo, de levar a vida desafiando e provocando pequenas rebeliões, mas sabíamos que isso não nos levaria ao pódio. Na Bons Ventos éramos os deserdados da burguesia, sem rumo num país onde falava-se de gente que sumia e de pessoas que surgiam sequeladas.


Estávamos em uma ditadura e queríamos lutar de alguma forma, manifestando, nem que fosse de maneira clandestina, a nossa insatisfação.


Havia rachaduras por todo canto e eu me sentia uma rata que furou a parede. Vim de uma família conservadora que apoiava o golpe e recebia generais enquanto eu lia revistas de moda. Se no princípio fui um retrato da alienada quando jovem, percebo que me tornei uma desesperada em busca de redenção. Os rumos da política realmente estavam à parte de mim porque fui criada para amar a futilidade. Quando o meu professor predileto teve sua aula interrompida, saiu escoltado por dois brutamontes e nunca mais voltou, eu percebi que o mal tinha tentáculos que me alcançavam. Eu tinha apenas 15 anos. Três anos depois, na universidade, quando soube de mais casos desse tipo, entendi o que havia acontecido com o meu professor.


Rompi com a minha família de maneira radical. Foi abrupto e inconsequente. Abandonei a faculdade, mas herdei os colegas que me levaram à trupe da Bons Ventos. Fui doutrinada pelo Jaime que me tratou como uma espécie de My Fair Lady ao contrário: tirou de mim toda a elegância e fincou meus pés no chão. Enquanto eu buscava entender a situação do país, percebia que, no fundo, as pessoas do grupo ainda tinham o limo do passado... Estavam ali pela causa proletária, mas sem abdicar da mesada do papai. Éramos fracos, essa é a verdade e não me isento. Tínhamos o desejo da coragem, mas o medo nos enfraquecia. Eu ainda aceitava os confortos que a misericórdia da minha mãe oferecia, tentando me convencer a voltar à lucidez e largar o comunismo, oferecendo cama e biscoitos amanteigados. Muitas vezes eu cedi.


Mas na Bons Ventos eu entendi que dizer algumas palavras sinceras, no palco, era dizer em voz alta o que calávamos em bares e encontros sociais, temendo que algum olheiro ou informante estivesse à espreita. As peças eram especialmente para o nosso pequeno clã de desenraizados e diletantes: jovens que discordavam dos pais ou fugiam de casa, jovens que queriam se tornar atrizes como Dina Sfat, jovens que queriam escrever como Guarnieri e sonhavam mudar o mundo com palavras e luz cênica.


Montávamos textos autorais, pequenas cenas, mais experimentando do que ganhando dinheiro ou construindo uma carreira brilhante. Eu me encarregava dos figurinos. Desenhava os modelos e passava noites sob uma lâmpada amarela, presa à cadeira e à máquina de costura, rasgando chitas e modelando sedas em um manequim esguio.


Tomava duas garrafas térmicas de café para aguentar a jornada como secretária. Depois, no fim da tarde, participava dos ensaios e conversava sobre política com meus colegas. Jaime, o diretor, comigo, fazia seu pequeno teatro, me tratando com indiferença por eu ser mulher e sua namorada. Longe dos atores, parecia outra pessoa. Ele dizia que não podia me amar às vistas porque ali éramos profissionais. Amadores, eu retrucava, ninguém quer ganhar prêmio aqui, eu mentia.


Jaime sempre foi um homem com um leve senso de desespero. No contexto em que vivíamos, ele tinha muita urgência de tudo. Eu era mais uma de suas necessidades antes que: a polícia baixasse, sua ex-mulher aparecesse, a guerra do Vietnã se deslocasse para o Brasil. Eu o amava mais como mestre do que como amante. Percebi que comecei a perdê-lo no dia em que o teatro foi invadido na estreia de um espetáculo.


O texto era da companhia e, claro, fazíamos nosso manifesto cheio de metáforas contra o governo. Duas horas antes da bilheteria ser aberta, um carro teria estacionado na porta do teatro e expelido 7 canalhas de óculos escuros.


Ficaram na porta por uns instantes até outro carro descaracterizado estacionar.

Estava nos fundos costurando uma saia godê quando ouvi os gritos: nossos atores e atrizes foram espancados. Jaime me incentivou a fugir pela janela do banheiro e eu escapei.



Maurício Rosa integra o nosso Grupo LGBTQIA+ do projeto É DIA DE ESCREVER.



Você pode conversar e conhecê-lo um pouco melhor em seu instagram @maurício.rosa.contato

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