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Autobiografia - A realidade imaginária, Laísa Costa

Updated: May 5, 2021

A primeira filha de um casal sonhador que nasceu na periferia de Salvador e por ser vizinhos construíram uma amizade e um amor. Mudaram da cidade baixa para a cidade alta e eu cheguei ao planeta Terra...Nasci na década de 80, meu pai gritava que a filha dele tinha chegado. Tudo isso antes de minha mãe saber o sexo do bebê. Ele foi ao bar, bebeu “Milomi” uma cachaça que tem em Salvador e pagou uma rodada para amigos, Cresci ouvindo Gonzaguinha, The Fevers, Roberto Carlos e Bee Gees.


Nasci em uma época em que todos os olhos estavam voltados para a TV. Uma loira, de olhos azuis conduzia as manhãs e a rainha que sonhava ser, mas eu não me via. No meu imaginário era dançarina da vida e movimentava meu corpo todos dias…Artista e apaixonada por criar, pintei paredes e coloquei minha bisa Júlia e minha vó Cota de cabelo em pé por muito tempo. Criei desenhos e rabiscos em toda casa e sofria ao pentear meu cabelo cheio e embaraçado. Vivia de tranças e sorridente arrancava alegria de todos. Sempre fui arisca, impetuosa e muito geniosa. Desde cedo aprendi de uma forma sem compreender a respeitar os mais velhos. Aprendi a importância da benção com o coração e também aquela apenas pela obrigação. Após três anos e meio ganhei irmão, eu sempre pedia para ter um irmão ou uma irmã. Eles vieram em dose dupla, mas ao contrário do que imaginei eles não se tornaram meus parceiros. Enquanto eles tinham liberdade, eu estava em casa e fui percebendo a diferença entre meninos e meninas. Das quais nunca aceitei e sempre respondi. Era bastante malcriada, mas tinha uma expertise. Amava ler, aprendia fácil e acabei deixando minha mãe sem respostas. Como pode uma criança saber de tudo?


Voltando a rainha dos baixinhos comecei a compreender sobre a diferença da pele em um concurso de dança. Em 1997 participei de um concurso e fui para uma final épica. Daquelas que víamos com o É o tchan, a loira e morena(eu). Adivinhe quem ganhou? Sim, o desenho da rainha dos baixinhos. Ali questionei a minha dança e minha capacidade de ser. Eu sentia que era boa que fui a melhor na dança, mas o julgamento ali era outro. Era a minha pele, o meu cabelo e depois daquele dia tive vergonha de dançar. Afinal, eu não seria vista e foi assim durante todo o ginásio. Os papéis da feira cultural era para ser escrava, a servente e tantos outros papéis, menos a advogada, a rainha, mas eu sempre sonhava com um reino e com um trono. Lembro que na oitava série eu parei de participar da feira e passei a ser mais da produção e de ajudar as colegas. Foi então que conheci a Nossa Senhora Aparecida e ali me identifiquei. Quem fez a encenação era uma das minhas melhores amigas da época, a Ludmila. Ali conheci que tinha uma padroeira do Brasil e ela era morena escura quando tinha aprendido. Apesar de minha família seguir a umbanda, tudo era muito escondido e no caminho eu me tornei católica. Descobri que o dia de Nossa Senhora Aparecida é comemorado um dia antes do meu e que me aproximou de compreender. Além disso, sentia que ela era diferente. Ela tinha um jeito e um carinho especial, o que me fez buscar sobre ela na umbanda e no sincretismo descobri, era Oxum.


No ensino médio foi um despertar para uma realidade que até então eu desconhecia. Fui criada em uma classe média e parte da minha família na periferia vivíamos nesse trânsito, minha mãe foi a filha que cresceu e meu pai também. Criada em apartamento sonhava em correr na rua e era o que eu fazia ao ir na casa de minha vó e de meu avô. Aliás eu tinha três avós, a minha vó paterna, a minha vó materna e minha tia avó que era irmã da minha vó, mas que o marido dela registrou mainha e se tornou meu avô. Entendeu? Acredito que isso daria um caso de família (rsrsrs). Retornando ao ensino médio fui para a escola pública e conheci pessoas incríveis e vivi minha primeira paixão. Apesar de sentir e descobrir uma tristeza profunda. Naquela mudança repentina, aprendi que: - Quem tem dinheiro estuda, quem não tem luta para estudar e aprender com muito esforço… Sempre fui curiosa e com vontade de aprender, mas nem todos tinham vontade de ensinar. Amava inglês e quando pedi dicas e ajuda para aprender, recebi uma lista de verbos para decorar e nunca tinha aula de física. acabei desistindo da língua e até hoje é um tabu que tento quebrar constantemente.


Uma das coisas que aprendi foi a fugir nas aulas de educação física que era na calçada em frente a escola, mas eu queria estudar gente. Logo, fui taxada como a certinha e me apaixonei pelo meu amigo que era de uma turma mais a frente. Ele 17, eu 15 e um amor tido como proibido quando ele conheceu meus pais na minha festa de 15 anos. Após uns dias ele terminou comigo e eu fiquei arrasada! Anos depois nos encontramos e ele me contou que estava inseguro quando viu que ele não poderia me oferecer nada , diante a estrutura da minha família. Ele não tinha pai e era criado pela vó. Fiquei pensando nisso durante muitos anos. Estudei apenas um ano nessa escola e aprendi as malícias, os desamores e também o dobro que precisava estudar.


Após concluir o ensino médio trouxe uma surpresa. Sonhava em estudar comunicação, mas minha mãe queria que eu fosse advogada! Foram 2 anos e meio de cursinho tentando o curso de Direito até que convenci a ela a estudar comunicação com publicidade e propaganda. Aleguei que queria ser feliz e que seria realizada nesta profissão. Esse foi o desejo da minha imaginação, mas a verdade é que por já fazer minha inscrição coloquei primeira opção comunicação social e depois direito na Universidade Católica do Salvador. Aí eu passei… Bingo!!! A menina inteligente aprendeu a mentir e depois de matriculada contou a verdade. hehehehe. Sonhava que ia transformar as campanhas publicitárias de Salvador e colocar mais gente da minha cor na TV. Bem, não foi isso que aconteceu na faculdade.


Trabalhava para ajudar mainha a pagar a faculdade. Meu primeiro trabalho de telemarketing na Tim Maxitel e usava o que aprendia para bater a meta de vender celular por telefone. No meu imaginário eu sonhava em entrar em uma grande agência e poder mostrar que Salvador era Preta e não como eles vendiam na TV, mas não estagiei em agência de publicidade. Entretanto, foi na Universidade que descobri que eu não era morena. Eu era Negra! Entrei para o centro acadêmico buscando melhorias e descobri a política a qual fui punida por fazer greve e fiquei sem estudar. Ali eu desisti do centro acadêmico e foquei em me formar e depois tentar trabalhar em agência. Nessa época eu tinha um cargo administrativo na Secretaria da Fazenda e aprendi sobre excel e imposto sobre a gasolina, álcool e fiscalização desses produtos. Anos depois fui para o setor de IPVA e aprendi tudo sobre carros, menos sobre como mudar o mundo da publicidade. Paralelo a tudo isso, produzia eventos na faculdade com bandas e artistas independentes, o que foi meu fôlego de criação e execução para fazer acontecer a vontade do coração. O sonho da publicidade foi realizado no trabalho de conclusão de curso que consegui trazer mais negros e negras em nossa campanha e isso levou ao prêmio de 3ª melhor campanha da universidade. Depois da faculdade e se consolidar como produtora cultural eu não conseguia transformar a publicidade, mas transformava tudo e a todos com a comunicação através do coração.


Sonhando alto com meu imaginário transformei parte do seu imaginário em realidade. Após trabalhar na produção cultural, decidi voltar para a comunicação e encarei uma especialização na USP. Eu era uma menina sonhadora, nem sabia o que isso significava, eu só queria entender as relações humanas, a comunicação dentro de uma organização e como aplicar ela no mercado de trabalho. Não trabalhei e nem consegui estagiar em uma agência de Publicidade, mas ministrei aula na Faculdade do Zumbi dos Palmares em São Paulo a convite de um amigo e falei sobre planejamento de comunicação. Defendi com sucesso e com muita luta meu TCC e agora atuo em uma startup que luta diariamente para apresentar a importância das pessoas dentro da organização e como a estruturação de processos facilita a comunicação. Ao lado disso, eu sigo rabiscando não paredes, mas papéis e folhas em branco que encontro no caminho. Longe de Salvador, a escrita é companhia e morada de um coração que vive uma realidade tantas vezes imaginária.



Laisa Costa é Comunicóloga, Publicitária, Escritora e Produtora. Ela integra o Grupo de Negritudes do projeto É DIA DE ESCREVER.


Segue ela no @laisagcostaa.

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