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Anos (não) Dourados


Uma mulher madura, à frente de uma estante, com um livro à mão, pensando em outro tempo que passou
Lembranças de um tempo que não volta, mas está presente (Imagem IA/DALL-E 3)


Manuseio minha estante, e encontro um diário. Vários, aliás. Eu tinha essa mania de escrever, desde sempre. São cadernos e agendas diárias escritas a mão. Companheiros de dúvidas, perrengues, sonhos.

Páginas molhadas, com recortes, com lembranças.


Lembro da época do vestibular, no auge dos 17 anos, estudando feito uma condenada para começar a trabalhar e ganhar meu próprio dinheiro.

O da família andava bastante curto, há muito tempo.


Eram tantas preocupações, e ninguém pra compartilhar! A falta de dinheiro, a pressão pra passar no vestibular — uma concorrência imensa para apenas cem vagas no curso que eu queria. Me apertava só de pensar nisso, e enterrei a cara nos livros. Foi um ano difícil, não só na área de estudos. Perrengues — financeiros, familiares.

Briga de pais com diferenças de idade e de ideias.


A vida se resumiu, no período, em andar até o colégio, voltar pra casa e estudar noite adentro. O foco era esse. Após passar no vestibular, eu não tinha a menor ideia do que ia acontecer. Tentava não pensar nisso, me enganando em focar no estudo para que tudo fosse diferente, depois. O foco dispensou festinhas, saídas e divertimentos — que nunca foram intensos. As provas vieram, passei bem, consegui a vaga e pus a cara a tapa.

Foi o começo do que seria o meu destino profissional.


Cinco longos anos, com o crédito educativo (hoje chamado de FIES) pra garantir o material necessário, os livros — a máquina de escrever e a copiadora/xerox eram as ferramentas, não existiam celulares, computadores, tablets. E fazia estágio pra complementar a renda ainda muito apertada. Praticamente me sustentei a partir dos 18 anos.

Meu pai faleceu no meu primeiro ano de faculdade.


O curso que escolhi tinha duas vertentes: a dos alunos que os pais eram ricos, e a dos alunos que eram considerados hippies ou artistas. O curso de Arquitetura era considerado da área de Artes e Ciências Humanas. Década de 70. Ditadura. Alienação. Professores duros, muitos cortavam qualquer criatividade inicial. Muitas greves ao longo do curso, muitas aulas a repor.

Formatura sem glamour, seis meses depois do tempo normal.


Os estágios ao longo do curso me garantiram meu primeiro emprego na área. Esse emprego me impeliu à necessidade do esforço pra conseguir outro emprego — o que realmente me garantisse o sustento, mesmo fora de minha área de formação. O que me levou à área de concursos públicos. E isso me proporcionou outras mudanças — da casa da minha mãe, da cidade, do estado. Muitas viagens profissionais, muitas aventuras engraçadas, outras nem tanto.

Todas viraram histórias.


Nos meus 18 anos, conheci um lado real da vida, e não parei mais de conhecer outras estradas. As que me trouxeram até aqui, quase cinco décadas.

Muito depois daqueles anos não dourados. Nem prateados.


Os perrengues foram muito. Aliás, nunca pararam de vir. Mas eu naveguei, ou melhor, voei e cheguei até aqui. Consigo enxergar o quanto me trouxeram crescimento pessoal. Talvez eu tenha tomado caminhos mais longos que o necessário. Talvez eu tenha tomado atalhos desnecessários. Talvez tenha sofrido mais do que deveria.

Talvez tenha me apegado a coisas e pessoas que não mereciam.


Não me cabe sofrer (mais) por isso. Ainda há alguma estrada à frente. Espero que seja saudável, criativa e recompensadora.

Tomara.




 

Goretti Giaquinto

Desafio #100 de 365

Tema: Uma Carta do Passado

1. Escreva o que você aos 18 anos pensava da vida: o que queria ser profissionalmente, aventuras que queria viver...

2. Faça um contraponto do que de fato ocorreu em sua vida e se isso foi melhor, pior ou indiferente.

3. aracteres livres e, caso você tenha 18 anos agora, ou menos de 18 anos, escreva uma carta para o futuro.

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1 Comment


Partilhamos os 18 juntas, cada uma com seus “perrengues”…e você chegou lá onde queria (ou não pensava em querer…)👏🏼👏🏼

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