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Angélica, Por Vinicius Mendes

Estou à procura de vida e de amor. De mais vida do que de amor! Orlando. Virgínia Wolff


Risquei o último palito de fósforo iluminando por instantes o cômodo frio. Havia muitas caixas espalhadas pelo quarto, o estrado da cama apoiava a parede da sala, o fio da teve pendia do teto, mas não havia mais nada para ser visto ali, a luz do fósforo findara. Entre a luz e a escuridão do ambiente um pensamento atravessou meu espírito, e se eu pudesse ser outra pessoa, e se pudesse ser alguém que tinha teto para morrer, gente para amar e corpos para sorver?


O impacto do segundo pensamento do dia foi da ordem do espanto. A pressão matinal da bexiga fez o membro ficar ereto. De baixo da coberta observei constrangida o corpo encoberto pela penugem viril. Não fora apenas “o masculino” que causou o espanto, mas a ausência das rugas e das marcas do tempo no dorso da pele.


Um terceiro pensamento atravessou meu espírito. À medida que a luz do exterior adentrava o cômodo e o ampliava, a mente ia sendo mobilhada com memórias. Suspirei em alto e bom som. Eu ainda sou uma mulher idosa, apenas fatigada pelos meus 75 anos bem vividos, tenho filhos e netos e, na impossibilidade de consultar uma amiga para recordar quem sou, disponho de uma autobiografia na cabeceira. Angelica, a irônica.


Angelica acocorou-se na cama vasculhando pelo corpo os sinais das passagens do tempo, mas nele nada encontrou. Caçou dentro de si uma referência que pudesse devolver à consciência cansada o eu perdido, solapado pela tensão da primeira hora do dia. Tensionado o músculo não sangra, mas goza.


Remexi, remexi e revirei no interior de minhas memórias o que havia de mim naquele corpo, digo, neste corpo que agora é meu. Soube que amanhã é Sábado, dia de São Cosme e Damião, as crianças devem chegar um pouco antes da hora do almoço, até lá devo saber quem sou. Devo descobri o que ainda resta de mim além o do ridículo de meus olhos.


Reviro, reviro e remexo. Encontro dentro do armário, já desmontado, uma caixa de vidro que tomo a mão. Elas estão todas aqui. Seguro em minhas mãos as memórias fotográficas do meu antigo eu. As fotografias do meu primogênito, o sorriso doce de Antônio que me fez mulher, a quadrilha da pequena Joana no seu chapéu de palha, o ingresso do primeiro show da Fresno.


A ânsia da juventude me arrasta da cama para o que restou do bar. É com o copo na mão e com o cigarro na boca, que uma lágrima fina e tímida escorre dos olhos ridículos da velha. O álcool, líquido etéreo, companheiro de tantos anos de jornada impõe a sua força máxima diante do desespero de saber quem se é. É também na hora do bar que a canção rasga o peito. Antônio, por que deixastes um rasgo tão profundo sob o meu peito? O licor amargo da vida pronúncia meu nome, Akuma.

Akuma é um nome que significa demônio na língua japonesa. Se eu fosse o eu de agora a te amar como você me amou, nosso amor seria satânico. E mesmo assim o registro do seu nome escondido sobre o suco da minha pele não cansaria de dizer que te amo. Histórias de amor são tão clichês, mas é o que vende. A canção do bar é Caetano. Um outro clichê de quem revive o caminho a procura de alguém. Foi ao som desta música demos origem a vida. Foi ao som desta música que dei origem ao duplo de mim mesma.

Depois de uma garrafa e meia de vinho e quase meio masso de cigarro somos um par novamente. Angelica e Akuma. O fim está tão próximo que se confunde com o início. Uma luz vermelha tremeluzindo ao som distantes de sirenes acelera o passo de quem craveja o desejo de viver na alma.

Na noite anterior chegou à ordem despejo. A última fatura paga sobre a mesa resgata um punhado de vida. Afinal, ninguém que pague pelos serviços funerários espera morrer. Viver sem teto é horrível, mas já experimentou morrer sem lar?

O desejo pela vida é um prenuncio da morte. E a morte, por sua vez, é único convite à vida. O único convite que vale a pena aceitar de bom grado. (o amor).



Vinicius Mendes faz parte do Grupo de Negritudes do projeto É DIA DE ESCREVER.


Segue ele lá no @Vi2ne.

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