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Além de Mexer e Remexer, AMOR é Clichê


Imagem gerada por IA, inspirada pela autora na plataforma DALL-E-3

Dataram o amor. Pode-se pensar assim, considerando que é necessário expressar o amor em um dia específico.


Banalizaram o amor quando o comércio nos impele a ter alguém para presentear e dizer “eu te amo”, em vez de presentear o nosso amor diariamente com carinhos, abraços e cuidados, sem que ele nos exija flores, chocolates, cartões — que nem sempre são sinceros.


Seria desnecessário nos lembrar que há um dia para reativar o brilho nos olhos que o amor nos dá ou deveria nos dar. Outro dia disseram que Walt Disney é o culpado pelo sonho de príncipe encantado que as mulheres descobriram não existir. E ainda tem aquelas histórias de alma gêmea, metade da laranja, tampa da panela. Como se o amor que se busca está logo ali, e vai se eternizar até a que a morte separe os amantes.


O amor de Vinícius canta “que seja infinito enquanto dure”. O da Marília Mendonça fala que “amar por dois só dá prejuízo”. A sofrência cantada pelas duplas sertanejas alerta: “o amor dói. Morre. E mata”.

Por amor se morre. Por falta de amor, deixa-se de viver.

Músicas, filmes, livros alertam o que filósofos da antiguidade tentavam pôr em palavras, um sentimento que virou trend e, muitas vezes, vira notícia trágica em páginas de jornal. Páginas virtuais, que hoje tentam facilitar encontros que, por motivos diversos, não acontecem na vida real.


Com Shakespeare choramos o amor trágico que, pela incompreensão, afasta. Com Platão, conhecemos o amor de contemplação: “ideal, transcendental, como força transformadora que nos impele a ver o mundo com outros olhos, e nos inspira”.


Camões nos tentou alertar, em seu famoso soneto, as contradições e complexidade do amor. Talvez seja o que mais próximo do amor como é…


Amar é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É um não querer mais que bem-querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

O amor sentido é o que inspira músicas, mas que, por ser amor, como diz Djavan, “Por ser exato, o amor não cabe em si. Por ser encantado, o amor revela-se. Por ser amor, invade e fim.”


No amor do funk, mais trágico como parece ser o amor contemporâneo, diz MC Pedrinho, querendo provar o amor como sente: Pra te ter, eu faço o que for. Eu vou até o fim, não importa a dor. Pra te ter, eu enfrento o mundo E se for preciso, eu viro vagabundo”.


Talvez uma frase possa resumir esse sentimento que tantos tentam descrever: “o amor vende, mas não se compra; o amor dói quando decepciona; o amor acontece, quando se procura dentro de si”. Por isso, como disse Thoreau: “não é aquilo para o que você olha que importa, é o que você vê.”


Os terapeutas nos provam isso o tempo todo:
amamos no outro o que está em nós.

Os roteiristas descobriram que os amores de filmes não podem mais ter um beijo na boca com a palavra FIM imensa, sumindo no céu. As letras de música mais cantadas são as que mostram o amor como ele é. Isso é fato. Amor com vírgulas e pontos, sempre… inacabado.

Porque o amor, como a vida, se transforma. Simples assim.

Príncipes e princesas não existem nas histórias de amor. Isso é real. É contemporâneo. Nunca existiram. Complexo de Cinderela não deve aprisionar as mulheres, nem deixar o amor apenas como uma crônica ou letra de música para ouvir com um copo de vinho na mão, e lágrimas no coração.


Esse amor que vende impulsiona lucros, mas o amor que rende impulsiona corações mesmo depois de 20 anos de rotina — que viraram inatingíveis para os jovens e antigos amantes depois de 2020. A pandemia escancarou uma rotina que se escondia no corre-corre para pagar os boletos, abrindo para a realidade de cuidar das crianças que não podiam ir para a escola, para se olhar e se esbarrar o dia todo.


O padre que virou símbolo dos amantes, São Valentim, não iria gostar de ver o seu nome usado para aumentar as vendas do comércio. Ele acreditava tanto no amor que se apaixonou e, ao se declarar para a amada, antes da morte, inspirou o dia da declaração de amor.


No Brasil, Santo Antônio virou casamenteiro porque se opunha a casamentos arranjados, além dos milagres a ele atribuído. Um publicitário brasileiro usou o folclore para impulsionar as vendas de uma loja, e aproveitou a véspera do dia do santo para institucionalizar o Dia dos Namorados. A loja melhorou, e o comércio brasileiro agradece até hoje.


Mesmo com desvios de intenção, são provas de que o amor inspira. Se por um lado parece que o amor sempre exige provas, ter um dia para expressar o amor pode trazer à lembrança que a paixão que uniu ainda está lá, escondida sob um monte de bobagens que a rotina faz questão de sobrepor.


Sem exageros, com um simples bilhete ou um romântico jantar a dois, o amor merece ser celebrado. Sem cavalos-brancos nem heróis salvadores. Com música de playlist ou uma música da trilha sonora construída nos olhares que ainda brilham ao se tocar. 


O amor que deve vingar não é o amor que se vinga por mesquinharias, por traições escancaradas nas redes sociais, nos aplicativos de relacionamento — onde fotos denunciam que o amor acabou, mas fatos provam que outros motivos impedem de dar um basta ao sofrimento.


O amor bem-sucedido não precisa ser celebrado em junho ou fevereiro. O amor que inspira o ontem, o hoje, o amanhã, deveria ser brindado todos os dias no abraço sem motivos especiais, no olhar que brilha ao rever, no sorriso que transforma um dia ruim num melhor dia.


O amor que continua a ser a escolha do projeto a dois, a três, a quatro... mesmo que sejam filhos ou pets. Com suco de uva ou vinho, com flores de jardim ou de floriculturas, com palavras sinceras arrancadas do jardim do coração que ainda bate pelo que ainda dura, ainda é infinito, e ainda vale a pena ser vivido.


Mesmo com a dor que inspirou Zezé de Camargo e Luciano, só quem ama — ou amou — pode sentir se vale a pena ou não, o amor. Sem clichês, sem gêneros, sem palavras.


É o amor
Que mexe com minha cabeça e me deixa assim
Que faz eu pensar em você e esquecer de mim
Que faz eu esquecer que a vida é feita pra viver
É o amor
Que veio como um tiro certo no meu coração
Que derrubou a base forte da minha paixão
Que fez eu entender que a vida é nada sem você


 

Goretti Giaquinto

Desafios # 162 a # 165 de 365

Tema: Ensaio sobre o Amor

1. Neste desafio literário, os participantes são convidados a escrever um ensaio reflexivo e inspirador sobre o tema do amor, relacionando-o com a celebração do Dia dos Namorados. O objetivo é explorar a profundidade e a complexidade do amor, bem como as tradições e significados associados a essa data especial.

2. O texto deve ser escrito dentro do gênero "ensaio". Um texto escrito em prosa que explora e reflete sobre o tema proposto de maneira subjetiva e pessoal. O "Ensaio" Caracteriza-se pela liberdade de estilo e pela expressão de opiniões e argumentos do autor, frequentemente incorporando elementos literários e filosóficos para aprofundar a discussão.

3. Um bom "ensaio" Deve conter uma introdução que apresente o tema, um corpo do texto que desenvolva as ideias principais, e uma conclusão que resuma os pontos discutidos e ofereça uma reflexão final.

4. O ensaio deve abordar explicitamente a relação entre o amor e o Dia dos Namorados, explorando como essa data é celebrada e o que ela representa na cultura contemporânea.5. Incentivamos, fortemente, vocês participantes a incluir exemplos, histórias pessoais, reflexões filosóficas ou citações literárias que enriqueçam o texto e demonstrem uma compreensão profunda do tema.

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