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A Jovem Sofia - Parte 2

A equipe da limpeza foi no dia anterior e fez a limpeza da clínica toda e eu esqueci de pedir que deixassem o cheiro neutro naquela semana, pensando nos pacientes que tem aversão às fragrâncias perfumadas.


Bom, no dia e hora marcado estava lá a mais nova paciente impaciente sentada na recepção aguardando ser chamada. Sai da sala a psicóloga que vai atender, cumprimenta e pede para aguardar. Quando a chama para entrar na sala começa o sufoco. A moça se segura no batente da porta se negando a entrar ali, com ar desesperador, em pânico. Peço para ela respirar devagar e dizer o que está sentindo. Ela diz que no canto da sala tem um boneco que olha para ela e ri. Posso tirar ele dali. Agora você consegue entrar?


Depois de muito choro e gritos ensurdecedores, Sofia consegue entrar e se sentar na poltrona. Começa a sessão e passa 1 hora contando com detalhes os dois pesadelos que acontecem quase todas as noites quando consegue dormir.


"No primeiro estou na beira mar olhando para o mar, quando de repente vem um barquinho com uma vela acesa. No único banco que tem no barco, tem uma caveira que sorri para mim. Eu tento sair, mas meus pés estão enfiados na areia me impedindo de correr".


"No segundo estou na ponta fina de um funil quadriculado com branco e preto. Na ponta larga, na abertura tem uma bola de chiclete branco acinzentado descendo em câmera lenta, que vem em minha direção, só não me alcança porque acordo antes que isso aconteça. E depois não consigo mais dormir e sem dormir não tenho disposição para trabalhar. Vou cansada todos os dias para o trabalho, porque não posso me dar o luxo de não ir e porque é menos pior fora de casa do que dentro".


Eu moro sozinha fazem cinco anos, não consigo ir a shows como eu ia antes, não consigo comer fora de casa porque vejo fantasmas e caveiras em todos os lugares, não consigo andar de táxi porque os cheiros me incomodam, não consigo conversar com alguém que masca chiclete porque me lembro daquele chiclete mastigado sem cor que rola funil abaixo, não consigo dormir e descansar porque toda a noite tenho pesadelos.


O que estava acontecendo na sua vida quando esses pesadelos começaram.. "eu não me lembro". Sugiro que façamos algumas sessões de psicoterapia para desbloquear memórias dolorosas para que possamos descobrir o que desencadeou ou que aciona esses gatilhos em você. O que me diz? Eu faço o que for necessário para descobrir o que está acontecendo comigo. E quando começamos porque quero dormir uma noite inteira, quero comer no meu restaurante preferido, quero visitar meus amigos, quero minha vida de volta. Faremos na próxima sessão, na próxima semana.


E assim seguiram as semanas com a Sofia fazendo uma espécie de estimulação bilateral do cérebro.


Até que um certo dia, seguindo a programação, a Sofia começou a chorar em uma das sessões, chorou como uma criança em sofrimento, como o livro do "O Caso Enrolado do Menino Calado". Como se fosse uma pulga na orelha abrindo todas gavetas do seu coração, trancadas a muito tempo.




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