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A Cova da Onça

Eu nasci na roça e meus pais só saíram de lá porque os filhos precisavam ir para a escola e não havia nenhuma por perto. 

      Morávamos, então,  numa casinha pequena, sem luz elétrica ou água encanada. Apesar de bem novinha, ainda guardo comigo algumas recordações muito marcantes: eu, correndo pelo campo, fugindo de uma égua brava, entre a casa dos meus pais e a casa da minha avó paterna; o chão encerado, bem vermelho, na varanda e em toda casa; o poço, de onde os adultos tiravam água sempre fresquinha; meus irmãos pequenos no colo da minha mãe; uma menina maior que eu, nossa vizinha, brincando e cantando cantigas de roda comigo; a primeira visão de alguém morto, um parente idoso, sendo velado sobre a própria cama e a esposa dele chamando a atenção do meu pai por ter me levado, tão criança, ao velório. E a mais bela de todas as recordações: o céu noturno, com milhares de estrelas tentando iluminar um quintal às escuras. Lembro-me de ficar sentadinha na mureta da varanda, admirando as  luzinhas piscando, enquanto meus pais me chamavam para entrar e dormir. Depois, é claro, tive verrugas nas mãos. Logicamente, culpei o fato de ter apontado o dedo para as estrelas, na ingênua esperança de poder tocá-las ou trazê-las para mais perto de mim. Confesso que nunca mais na minha vida eu vi um céu como aquele.

     Quando, bem mais tarde, fui ao planetário do Rio com a escola, observei meus colegas boquiabertos diante de algumas imagens. Achei que o céu de lá se parecia com aquele da minha tenra infância, mas faltava alguma coisa que só algum tempo depois, eu consegui identificar. Faltava-me os olhos da criança acostumada às noites sem energia elétrica. Faltava-me a inocência de quem não conhecia a lâmpada que se acendia a um clique ou de quem nunca tinha tido televisão e ventilador. A inocência da ignorância perdeu-se na sedução da modernidade e do conforto. 

    Na rua que dobrava e encumpridava sem parar, havia o pasto e o gado, os roçados, muitas árvores e pássaros, e, lá no final, ao pé da serra,  ficava a fazenda do meu avô materno, com casa grande, cachoeira e rio. Eu, pequena, sentia um misto de curiosidade e medo só de ouvir o barulho intenso da água caindo e correndo entre as pedras, na época das chuvas. Hoje eu penso que, naquele tempo, tudo era muito grandioso para mim, tanto no céu quanto na terra.

    Eu não sei se as ruas de terra batida e margeadas por mato alto, que levavam a casas distantes umas das outras, tinham nome. Hoje, olhando para o passado, eu tenho dúvidas se alguém recebia correspondência por lá. Talvez, esporadicamente, recebessem. Ou, talvez, ficasse tudo numa caixa postal na agência dos Correios. Para isso, apenas o nome do destinatário e da localidade devia servir: Cova da Onça. Não sei se havia ainda algum desses animais na época em que morávamos lá. Quem sabe…

   Quando, muito mais tarde, eu retornei ao local, tudo estava diferente. Bem, nem tudo. Poucas casas, postes de luz elétrica, água encanada, armazéns, escola, posto de saúde, garagens com carros e motos. Provavelmente, cada rua tinha ganho um nome, afinal, os moradores precisavam ser encontrados pelo carteiro e pelo serviço de entrega. A minha ex-rua passou a existir num detalhado mapa terrestre. Mas, e o céu da minha infância? Seria ele o mesmo? Se todos os atuais moradores resolvessem, numa noite, apagar as luzes e olhar para cima, veriam as mesmas estrelas que eu via quando era criança? E, mais importante: elas causariam neles a mesma emoção que causavam em mim? Não sei. Hoje em dia, a maioria das pessoas passa tanto tempo com a luz da tecnologia nas mãos, que não lhes sobra tempo para apreciar qualquer ponto luminoso no céu. É uma pena…


 

Cátia Porto

Desafio #57 de 365

Tema:- Se Essa Rua Fosse Minha

Regras:

1 - Escreva sobre uma rua em que já morou no passado

2 - Da onde vem o nome, relacionamento com vizinhos, o que mudaria nela...

3 - Livre de caracteres


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4 comentarios


A vantagem de morar por aqui: como moramos em casas, temos oportunidade de olhar para o céu como se fôssemos crianças….comentei para causar um pouco de inveja😉

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Contestando a

É verdade. Viver em casa e viver afastado dos centros urbanos têm muitos pontos positivos. O céu é um espetáculo à parte. Sempre.

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Tenho lembranças, também, de um céu estrelado, do olhar de criança à procura da estrela cadente pra realizar desejos. Lembrei disso ao ler seu lindo texto❤️

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Contestando a

Que céu era aquele de nossa infância? Maravilhoso! Ainda bem que temos essa lembrança. As crianças de hoje nem olham para o alto…

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