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À Deriva da Vida


Bote à deriva no mar, com uma pessoa dentro
Às vezes, nos sentimos assim ... (Imagem IA da platafoirma DALL-E 3)


A viagem naufragou. E eu, junto. Preferi o mar em vez do ar, pensando que seria mais seguro. Ledo engano. Se tivesse no ar, do naufrágio restariam cinzas. No mar, agarrado à esperança e preso num bote, tentava salvar minha vida.


E a vida inteira passava pela minha cabeça, como passavam as ondas que não me levavam a lugar algum. Se antes escolhia viajar para algum lugar, pra me orientar, agora me vi desorientado numa vastidão sem companhia — todos se agarraram a algo, pra sobreviver.


As ondas imensas deixavam meu coração vazio. Era isso morrer? Ficar vagando numa esperança de algo acontecer? Se estivesse no ar, logo estaria desintegrado, meu vagar talvez seria menos doloroso. Arcaria com a solidão de uma tacada só.


Onde estava, flutuando entre o medo e o desespero, restava apenas desistir. Não tinha forças de nadar contra a corrente — nunca tive, não seria agora. O sol quente, o sal desagradável, a noite ameaçadora à deriva, trazia meus pensamentos em ondas, como as que via agigantarem-se diante de mim, encaixada num bote minúsculo que me salvou a vida.


Não sentia as horas passarem. Nem os dias. Nem as noites. Uma garrafa de água que consegui agarrar no meio dos destroços, algumas bolachas inchadas pela água. E me deixava levar, até ser engolida pela vida que desconhecia.


Com os olhos semicerrados pelo inchaço, a um passo da despedida da vida que conhecia, enxerguei a ajuda que finalmente chegava. Não sabia se ria ou chorava. O salgado do mar destroçara a lágrima que secou ao longo dos três meses à deriva — como ouvi falarem, enquanto era içada à vida que me esperava.



 

Goretti Giaquinto

Desafio #96 de 365

Tema: Pura Angústia

Escolha entre: ficar no espaço por um ano sozinha ou à deriva no mar por 3 meses

Escreva um miniconto livre de caracteres que transmita a angústia da situação escolhida

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